FORÇA PARA VIVER [PRIMEIRA PARTE]

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FORÇA PARA VIVER [PRIMEIRA PARTE]

João 1.29-34

29No dia seguinte, João viu Jesus caminhando em sua direção e disse: “Vejam! É o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! 30Era a ele que eu me referia quando disse: ‘Um homem virá depois de mim, muito mais poderoso que eu, pois existia muito antes de mim’. 31Eu não o conhecia, mas vim batizando com água para que ele fosse revelado a Israel”. 32Então João deu o seguinte testemunho: “Vi o Espírito Santo descer do céu na forma de uma pomba e permanecer sobre ele. 33Eu não sabia quem ele era, mas, quando Deus me enviou para batizar com água, disse-me: ‘Aquele sobre o qual você vir o Espírito descer e permanecer, esse é o que batizará com o Espírito Santo’. 34Eu vi isso acontecer e, portanto, dou testemunho de que ele é o Filho de Deus”.

Cristianismo autêntico não é moralismo

Semana passada nós afirmamos que o cristianismo não está obsoleto e que, na verdade, o estado de esvaziamento de igrejas cristãs históricas não se dá por causa da mensagem do cristianismo, mas pela maneira como os cristãos vivem suas vidas. Falta autenticidade, fruto de uma autoimagem cristocêntrica por parte do próprio cristão, e não conformação da teologia ou da doutrina cristã histórica aos novos padrões culturais.

Olhamos para João Batista e vimos que a imagem que ele tinha de si mesmo e de Jesus Cristo fez dele o homem autêntico, capaz de atrair as multidões de seu entorno e de impactar a todos que cruzavam seu caminho. Se você não esteve naquele culto e não ouviu a mensagem, vale a pena conferi-la no YouTube.com/prleandrobpeixoto ou no site da igreja — sibgoiania.org, sob o título: A autoimagem do cristão.

Tudo o que estudamos naquela ocasião (aliás, tudo na vida cristã — do início ao fim) depende do batismo que nós recebemos de Jesus no Espírito Santo (Jo 1.33); nossa força nada conseguirá produzir que glorifique a Deus e que de fato nos transforme. Veja:

  • a autoimagem do cristão é fruto de um milagre divino, da obra do Espírito Santo, e não de um esforço nosso para mudarmos a maneira como nós nos autoenxergamos;
  • Jesus nascer e crescer em nós, na mesma proporção que nós nos diminuímos (negando a nós mesmos, tomando a cruz e seguindo Jesus), até que sobre apenas Cristo em nós, não é algo que conseguimos fazer, mas que se processa sobrenaturalmente na vida do cristão;
  • amar a Deus e viver para o próximo, de maneira que glorifique somente a Deus e não a nossa boa-vontade, não é algo que, com esforço próprio, conseguiremos fazer por muito tempo, depende de um milagre em nós;
  • Deus precisará agir em nós, dando-nos o desejo e o poder de realizarmos aquilo que é do agrado dele (Fl 2.13);
  • enfim, a perfeição que nós, como cristãos, perseguimos para conquistar só nos é possível porque Cristo Jesus já nos conquistou para ela — pela fé, nós já fomos conquistados para a perfeição em Cristo Jesus (Fl 3.13).

Cristianismo não é moralismo. Moralismo é uma impossibilidade covarde, além de afronta a Deus, pois só exalta o amor próprio, a piedade e a força de vontade dos moralistas, que no final acabam por não conseguirem viver o ideal moralista. Ouça como D. Martyn Lloyd-Jones argumentou sobre a diferença entre ambos:

Qual é a diferença entre o cristianismo e o moralismo? O moralismo pergunta: “O que devemos fazer?” O moralismo exige correção [e força de vontade]. O cristianismo aponta o ensino de Jesus, mas também nos dá o poder, regenera-nos, transforma-nos [naquilo que ele diz que nós devemos nos tornar; i.e., semelhantes a Jesus Cristo].

Cristianismo autêntico não é moralismo, mas um milagre operado por Deus.

Força para viver

A vida cristã autêntica, portanto, fruto da vida ou da autoimagem cristocêntrica, não é obra do moralismo ou da força de vontade (ambos fundamentados no amor próprio!). Não, não, nada disso! A vida cristã autêntica é fruto de milagre operado em nós pelo poder de Deus. Sem essa obra milagrosa em nós, jamais teremos vida para reviver e força para prosseguir vivendo a vida para a qual Deus nos chamou a viver.

Antes de vermos como esse milagre acontece, reflitam comigo sobre o tipo de vida para a qual nós somos chamados a viver.

1. A vida que devemos viver

A leitura de João 1.29-31 nos revela que a vida que devemos viver consiste de pelo menos três fatores:

1.1 — A vida que devemos viver é para o vai e vem da rotina da vida

Diz o texto que “No dia seguinte, João viu Jesus caminhando em sua direção” (v. 29).

A vida para a qual Deus nos chama não é para a clausura de um monastério ou a alienação dos montes aonde se vai para buscar contato direto com Deus; a vida espiritual não é para ser vivida na separação desta vida aqui na terra. Não, nada disso.

Para vivermos a vida a qual Deus nos chama nós não precisamos abandonar as responsabilidades “do dia seguinte”. O texto que lemos nos mostra que, “no dia seguinte”, Jesus mesmo foi ao encontro de João Batista no lugar onde ele “trabalhava”.

Foi Jesus que buscou e encontrou João Batista; Jesus que foi ao encontro dele lá no rio Jordão. Sim, é certo que ele vivia uma vida de consagração, mas se não fosse pela iniciativa divina, a de ir até ele, revelar-se a ele, ele não teria conhecido Jesus. Aliás, não foi no deserto que João Batista conheceu Jesus face a face, foi “no dia seguinte”.

Quanta lição nós temos aqui para a nossa espiritualidade cristã! Se entendêssemos e levasse-mos a sério este principio, o cristianismo deixaria de ser o gueto de loucuras ou a fonte de escândalos em que se tornou em muitas igrejas ou segmentos, fruto de movimentos contemporâneos que distorceram completamente a espiritualidade cristã ortodoxa e histórica.

Neste mês de outubro nós celebramos os 500 anos da Reforma Protestante. Uma das grandes bênçãos da reforma iniciada por Lutero (31/10/1517) foi que ela transportou a espiritualidade cristã também para o horário comercial, de segunda a sexta, das 8 às 18. Antes, espiritual era quem se trancava nos conventos e mosteiros, alienando-se do mundo, apenas sugando do mundo para viver tudo lá no “cantinho da vida espiritual”.

Lutero, porém, com a interpretação correta da vida cristã, disse: Não, nada disso! O pão nosso de cada dia Deus nos dá hoje através do padeiro. A graça comum de Deus chega a nós através do serviço prestado pelo trabalhador. O pastor que vive para pregar faz algo tão espiritual quanto um trabalhador que vive para entregar um serviço bem feito. Gente, isso é revolucionário!

O povo de Deus, porém, teima em viver de boca aberta, olhando para o céu. Deus, por sua vez, sempre nos adverte dizendo que devemos viver a vida para a qual somos chamados no vai e vem da rotina da vida (cf. Jr 29.4-9; At 1.9-11; 2Ts 3.6-10).

Não existe no Antigo ou no Novo Testamento qualquer ideia de que o cristão, para ser mais espiritual, precise se abstrair, perder o contato com o mundo. Pelo contrário, não se conformando com este mundo (Rm 12.1-2), livrados pelo próprio Deus de todo mal no mundo (Jo 17.15), o cristão deve viver suplicando pela graça de Deus sobre o mundo e batalhando pela restauração do mundo até que o Senhor venha (1Tm 1.1-4).

A vida que devemos viver é para o vai e vem da rotina da vida; dia a dia é que o Senhor vem até nós, onde nós estamos, para nos perdoar, nos socorrer, nos sustentar e a nós se revelar como o que há de mais sublime e saboroso em toda a existência.

1.2 — A vida que devemos viver é centrada em Jesus Cristo

João Batista passou a vida ministerial dele tirando os olhos das pessoas de tudo e de todos (delas mesmas, dele João Batista, das coisas e das prioridades desta vida, dos rituais ou práticas religiosas, etc.) e colocando-os em Jesus Cristo. Diz o texto:

Jo 1.29-31| 29 […] “Vejam! É o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! 30Era a ele que eu me referia quando disse: ‘Um homem virá depois de mim, muito mais poderoso que eu, pois existia muito antes de mim’. 31Eu não o conhecia, mas vim batizando com água para que ele fosse revelado a Israel”.

Refletindo sobre este texto, fiquei pensando: 1como é fácil para nós nos apegarmos mais às pessoas que devem nos apontar para Jesus do que nos apegarmos ao próprio Jesus (digo, santos, profetas ou profetizas e personalidades); 2como é mais fácil nos apegarmos às ordenanças (batismo e ceia) que trazem à memória a obra de Jesus ou aos sacramentos da religião (crisma, penitência, unção de enfermos e de mortos, etc.) como canais de bênção do que nos apegarmos a Jesus; 3como é mais fácil nos apegarmos à letra da doutrina que nos descreve o caráter de Jesus ou a natureza de seus ofícios e ministério do que nos apegarmos ao próprio Jesus; 4como é mais fácil nos apegarmos às formas e liturgias de igrejas que deveriam tão somente nos enlevar em Jesus do que nos apegarmos ao próprio Jesus; 5como é mais fácil ser um fiel religioso do que um discípulo de Jesus Cristo; 6como é mais fácil nos apegarmos aos programas ou atividades da igreja do que nos apegarmos ao próprio Jesus; etc. João Batista, porém, disse que a vida que nós vivemos tem que ser centrada em Jesus Cristo:

  • Primeiro, porque é ele, o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1.29); ou seja, não há nada nem ninguém que, por mais piedoso ou religioso, possa nos perdoar os pecados; nada do que fizermos nos salvará (nem mesmo desatar as sandálias de Jesus; pois o que nos salva não é o que fazemos para Jesus, mas tão somente a fé em Jesus);
  • Segundo, porque tudo o que João Batista fez, e nós também fazemos, só faz sentido porque existe a realidade por traz de todas as coisas. John Piper se expressou assim, quando pregou sobre o texto que estamos estudando (Jo 1.29-34):

[João Batista] quer que sintamos a grande superioridade de Jesus nesse contraste. Batizar com o Espírito e batizar com água é a diferença entre um relâmpago e um vagalume; é a diferença entre uma pessoa e uma pintura, entre um casamento e uma aliança de ouro, entre o nascimento e o certificado de nascimento, entre imersão em água e imersão em Deus… O que eu [João Batista] faço e o que ele [Jesus Cristo] faz estão em duas categorias radicalmente diferentes. Não ouso desatar suas sandálias. Ele existia eternamente antes de mim; está infinitamente acima de mim. Eu sou a voz. Ele é a Mensagem. Eu sou o ponteiro temporário. Ele é a Pessoa eterna. Eu sou meramente humano. Ele é o Deus-homem.

A vida que devemos viver é centrada em Jesus Cristo. Portanto, olhe para Jesus Cristo. Ele é a realidade suprema, tudo aqui não passa de sinais. Ele é Deus. Ele é o único que poderá te salvar. Olhe para Jesus. Coloque sua fé em Jesus. Ame e viva para Jesus.

1.3 — A vida que devemos viver é para o resgate de muitos

Lá quase no final do Evangelho de João, Jesus disse assim aos seus discípulos: “Assim como o Pai me enviou, eu os envio” (Jo 20.21). O Pai o enviou “não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos” (Mc 10.45). Quando olhamos para João Batista é isso que nós o vemos personificado: uma vida entregue ao resgate de muitos:

Jo 1.29-31| 29 […] “Vejam! É o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! 30Era a ele que eu me referia quando disse: ‘Um homem virá depois de mim, muito mais poderoso que eu, pois existia muito antes de mim’. 31Eu não o conhecia, mas vim batizando com água para que ele fosse revelado a Israel”.

            João Batista viveu para revelar Jesus. Nós também devemos viver assim. Como?

Por exemplo: na próxima terça-feira, o nosso PGM Protótipo se reunirá para conversar sobre os detalhes da primeira multiplicação. Em breve, portanto, todos serão informados sobre os novos PGMs (dias, horários e locais). Esta é uma excelente oportunidade para você se engajar em RDs (Relacionamentos Discipuladores) e PGMs (Pequenos Grupos Multiplicadores), vivendo, assim, para o resgate de muitos.

2. A força para viver

Depois de tudo o que vimos, na semana passada (sobre a autoimagem do cristão), e hoje (sobre a vida que nós somos chamados a viver), precisamos agora ver de onde vem a força que nos possibilita viver esse cristianismo autêntico. João Batista nos responde:

Jo 1.32-34 | 32Então João deu o seguinte testemunho: “Vi o Espírito Santo descer do céu na forma de uma pomba e permanecer sobre ele [Jesus Cristo]. 33Eu não sabia quem ele era, mas, quando Deus me enviou para batizar com água, disse-me: ‘Aquele sobre o qual você vir o Espírito descer e permanecer, esse é o que batizará com o Espírito Santo’. 34Eu vi isso acontecer e, portanto, dou testemunho de que ele é o Filho de Deus”.

Força para viver vem de Deus: 1vem do batismo com o Espírito Santo que nós recebemos de Jesus no ato da convenção, no momento do novo nascimento (1Co 12.13) e 2vem também de subsequentes experiências espirituais profundas com Deus no Espírito Santo (Rm 8.16; Ef 5.18). Vamos, a seguir, tentar desenvolver um pouco desta ideia.

Espírito Santo na forma de uma pomba

Por que o Espírito Santo desceu na forma de uma pomba? A pomba era um dos animais considerados puros para o sacrifício (Lv 5.7). Além de pureza, representava simplicidade (pobreza) e humildade. Assim, de todos os pássaros que ligam o céu e a terra, através do voo e do pouso, a pomba foi a que pareceu o símbolo mais adequado do Espírito Santo. O Espírito Santo é santo. O Espírito Santo é puro. O Espírito Santo, veremos a seguir, é a pessoa mais humilde (“apagadinha”) da Trindade.

* Continua na segunda parte…

S.D.G. L.B.Peixoto

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