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12.07.2026

Alguém que resolve de verdade

  • Pr. Leandro B. Peixoto
  • Série: Hebreus - A Superioridade de Cristo
  • Livro: Hebreus

Hebreus 8.1-6 (NAA)
1Ora, o essencial das coisas que estamos dizendo é que temos tal sumo sacerdote, que se assentou à direita do trono da Majestade nos céus, 2como ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, e não o homem. 3Pois todo sumo sacerdote é constituído para oferecer dons e sacrifícios; por isso, era necessário que também esse sumo sacerdote tivesse o que oferecer. 4Se ele estivesse na terra, nem mesmo sacerdote seria, visto existirem aqueles que oferecem os dons segundo a lei. 5Estes ministram em figura e sombra das coisas celestiais, assim como Moisés foi divinamente instruído, quando estava para construir o tabernáculo. Pois Deus disse: “Tenha cuidado para fazer tudo de acordo com o modelo que foi mostrado a você no monte.” 6Mas agora Jesus obteve um ministério tanto mais excelente, quanto é também Mediador de superior aliança instituída com base em superiores promessas.

À procura de alguém

Todo ser humano está atrás de alguém que resolva.

Não interessa se a pessoa nunca abriu uma Bíblia. Cedo ou tarde, todo mundo sente o mesmo aperto no peito: a distância entre o que sou e o que deveria ser — mas eu não consigo. E ninguém atravessa essa distância sozinho. Todo mundo precisa de um mediador. Alguém que resolve de verdade.

Então a gente sai à procura. Uns procuram num horóscopo. Outros, numa vidente, num coach, num influencer, numa palestra de motivação, na promessa de que basta reprogramar a mente. Tem gente que procura numa simpatia, num amuleto na carteira. Tem gente que vai atrás de uma liderança carismática, porque é mais fácil confiar em quem se pode ver do que confiar em Deus, que não se vê.

Reparem o que essas buscas têm em comum: a gente sempre prefere um mediador que dê para tocar. Sombra de alguma coisa maior — mas sombra que se enxerga, e por isso parece mais segura do que a realidade que apenas projeta.

Foi exatamente essa tentação que bateu à porta dos primeiros cristãos que receberam a carta aos Hebreus. Judeus que haviam confessado Jesus como Messias, olhando de novo para trás: “Não seria mais fácil voltar para a religião que a gente já conhece? Para o templo que dá para enxergar, o sacerdote que dá para tocar? O sangue que a gente vê escorrer no altar?” A religião antiga era palpável. O Cristo em quem creram, não — estava assentado, invisível, num trono que ninguém ali conseguia, naquele momento, ver com os próprios olhos.

É bem aqui que o autor de Hebreus planta uma bandeira: não troquem. Vocês já têm o que ninguém mais tem. “Tal sumo sacerdote” — diz ele, logo no primeiro versículo do capítulo 8: “Ora, o essencial das coisas que estamos dizendo é que temos tal sumo sacerdote”. Não qualquer sacerdote. Tal sumo sacerdote — como nenhum outro jamais foi. Alguém que, finalmente, resolve de verdade.

A anatomia de Hebreus

Reparem na força desse já “temos tal sumo sacerdote”. Não é uma promessa para mais adiante, nem mais uma sombra apontando para frente, como o templo, o sacerdote e os sacrifícios de animais sobre os altares que os primeiros leitores de Hebreus estavam tentados a preferir. É presente. Já temos.

Mas, para sentir todo o peso dessa afirmação, precisamos situá-la dentro da carta inteira — porque é exatamente aqui, nesse “já temos” de Hebreus 8.1, que a carta vira de eixo: da superioridade da pessoa de Cristo (1.4–7.28) para a superioridade da sua obra por nós (8.1–10.18).

Imagine o seguinte: a carta inteira se estrutura, do começo ao fim, como um corpo, em camadas ao redor de um mesmo centro.

Ela abre exaltando Jesus — encarnado, reinando, elevado acima de todos (capítulos 1–2). Essa é a pele da carta: a primeira coisa que se vê. Logo em seguida vem a primeira ordem: considerem Jesus, olhem para ele, contemplem-no (3.1) — o músculo que já começa a puxar o corpo inteiro em direção ao centro. E, quase como um aviso, o autor mostra o que acontece quando esse olhar se desvia: toda uma geração, no deserto, deixou de crer e não entrou no descanso prometido (capítulos 3–4).

Logo depois desse alerta, aparece a primeira costela, colada ao coração: temos um grande sacerdote — guardemos firme a nossa confissão, aproximemo-nos dele com confiança (4.14-16).

Daí em diante, entramos no próprio coração da carta. Primeiro, quem Jesus é: o verdadeiro sacerdote, superior a Levi, superior a Moisés e a Abraão, da ordem de Melquisedeque (capítulos 5–7). Depois, bem no meio, a dobra da carta: “temos tal sumo sacerdote”  (8.1-2). E, na sequência, o que Jesus faz: o verdadeiro sacrifício, oferecido uma vez por todas (9.1–10.18).

Saindo do coração, encontramos a segunda costela , ecoando a primeira (4.14-16) quase palavra por palavra: temos um grande sacerdote — retenhamos firme, aproximemo-nos dele (10.19-23). Logo depois, o músculo se move outra vez: a longa procissão dos que creram antes de nós, de Abel até o próprio Jesus (capítulo 11), seguida da segunda ordem, irmã da primeira — considerem Jesus, olhem para Jesus, contemplem-no (12.1-3).

E a carta se fecha como começou, com a mesma pele de exortação e bênção (capítulos 12–13).

Reparem no que está acontecendo aqui. Do primeiro ao último capítulo, Hebreus não está simplesmente informando; está discipulando o olhar. É como se o autor tomasse o rosto do leitor entre as mãos e dissesse, sem parar: olhe para Jesus, olhe para Jesus, olhe para Jesus. Porque a fé não persevera pelo esforço da vontade, nem correndo atrás de mais um substituto que dê para tocar — persevera à medida que a alma volta, seguidas vezes, a contemplar aquele que já temos: aquele que, sozinho, resolve de verdade.

Seis aspectos da superioridade de Cristo

É esse mesmo sumo sacerdote — já estabelecido como o verdadeiro, nos capítulos 5 a 7 — que o autor agora, em Hebreus 8.1-6, descreve em seis aspectos de sua superioridade, antes de nos mostrar, em 8.7-13, a superioridade da nova aliança que ele mesmo estabeleceu.

Observem comigo, devagar, esses seis versículos — porque os seis aspectos que vamos percorrer não estão espalhados pelo capítulo: estão todos, um a um, dentro dessas seis linhas, e quero que vocês aprendam a enxergá-los com os próprios olhos, não só a ouvi-los de mim.

Vejam o versículo 1: “temos tal sumo sacerdote.” Esse pronome — “tal” — já é o primeiro aspecto. Ele retoma o crescendo do capítulo 7, que termina dizendo que Cristo é “perfeito para sempre”  (7.28): “tal” sumo sacerdote é, antes de tudo, um sacerdote perfeito, de um tipo nunca visto antes.

Continuem lendo o versículo 1: “que se assentou.” Aí estão o segundo e o terceiro aspecto, lado a lado, na mesma frase — ele está assentado (a obra terminou) “à direita do trono da Majestade”  (ele reina, e reina com poder).

Passem para o versículo 2: “ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, e não o homem” — aí está o quarto aspecto, e é para explicar essa única frase que os versículos 3, 4 e 5 existem: eles vão detalhar, devagar, o que significa esse “verdadeiro tabernáculo”, em contraste com a “figura e sombra”  dos sacerdotes terrenos (v. 5).

E, por fim, o versículo 6 amarra tudo: “ministério tanto mais excelente… superior aliança… superiores promessas” — a síntese de tudo que veio antes.

Reparem: em seis versículos, o autor não perde uma palavra. Cada expressão carrega um peso teológico específico, demonstrando por que Jesus é quem resolve de verdade o problema do pecado — ou, para lembrarmos do teor do sermão da semana passada, por que Jesus é quem resolve de verdade o problema da culpa por causa do pecado, do medo de se aproximar de Deus e da vergonha que sentimos uns dos outros.

Ele resolve de verdade porque:

  1. Ele é perfeito (v. 1)
  2. Ele está assentado (v. 1)
  3. Ele reina com poder (v. 1)
  4. Ele é sacerdote e rei ao mesmo tempo (v. 1)
  5. Ele ministra no verdadeiro santuário (vs. 2-5)
  6. A salvação que ele ministra é superior (v. 6)

Vamos abri-las, uma a uma, começando exatamente onde o texto começa — com aquele pronome demonstrativo do versículo 1: “tal”.

1. Jesus é perfeito

Vejam de onde vem esse “tal”. Hebreus 8.1: “Ora, o essencial das coisas que estamos dizendo é que temos tal sumo sacerdote”. Esse “tal” não nasce do nada aqui no versículo 1 — retoma exatamente a última locução do capítulo anterior: “o Filho, perfeito para sempre” (7.28). E, ao longo de Hebreus 7, o autor já havia explicado, em cinco razões, o que essa perfeição significa.

Primeira: ele não tem pecado. O texto o descreve como “santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores e exaltado acima dos céus” (7.26). Nenhum outro sacerdote poderia dizer isso de si — todos eram pecadores, como nós. Jesus foi tentado, mas jamais cedeu.

Segunda: por não ter pecado, não precisou de sacrifício para si — pôde ser, ele mesmo, o sacrifício. Os sacerdotes levíticos ofereciam sacrifícios diariamente, “primeiro, por seus próprios pecados, depois, pelos do povo” (7.27). Ora, um sacerdote que ainda carrega culpa própria nunca poderia resolver, de verdade, a culpa alheia. Jesus inverteu essa lógica: não precisava de nada para si, e por isso pôde se entregar inteiro por nós.

Terceira: essa entrega de si mesmo foi “uma vez por todas” (7.27) — não repetida, não renovada todos os dias. Isso faz de Cristo o centro de toda a história da redenção pela graça: tudo antes da cruz apontava para ela; tudo depois da cruz se apoia nela. Não há graça sem esse centro.

Quarta: ele foi constituído por juramento (7.28) — o mesmo do Salmo 110.4: “Você é sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.” A lei constituía homens fracos (7.28), ou seja: homens pecadores e mortais; o juramento constitui o Filho, sem pecado e “segundo o poder de vida que não tem fim” (7.16); e constitui o seu sangue como fiança (7.22).

Quinta: seu sacerdócio é para sempre (7.28) — “constitui o Filho, perfeito para sempre.” Nunca precisará ser substituído. Tudo o que sustenta a nossa vida, um dia, falha. Ele, não.

É, pois, esse sumo sacerdote santo, sem pecado próprio a resolver, ofertado uma única vez, constituído por juramento, permanente — é esse sumo sacerdote — que está por trás do pronome “tal” de Hebreus 8.1. Pois um mediador que ainda carregasse a mesma culpa que carregamos jamais poderia nos tirar do poço em que também estaria.

Só resolve, de verdade, quem já está, ele mesmo, plenamente resolvido diante de Deus. Só Jesus resolve de verdade, porque ele é perfeito.

2. Jesus está assentado

Continuando em Hebreus 8.1: “temos tal sumo sacerdote… que se assentou”. Essa não é a primeira vez que a carta diz isso — já apareceu em Hebreus 1.3: “depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas”. A repetição não é acaso; é ênfase.

Reparem no contraste. Os sacerdotes levíticos nunca se assentavam. Não havia assento algum no tabernáculo — porque o trabalho deles nunca terminava. Todo dia, todo mês, todo ano, os mesmos sacrifícios se repetiam, porque nenhum deles bastava de fato para tirar o pecado. Um sacrifício insuficiente não permite descanso; só permite recomeço.

Jesus se assenta porque a obra está concluída. Ele entrou no santuário celeste, ofereceu-se a si mesmo uma única vez, e assentou-se — porque não há mais nada a fazer. Nem por ele, nem por você. “Temos tal sumo sacerdote… que se assentou”.

Foi exatamente essa verdade que devolveu o fôlego a Martinho Lutero, o percursor da Reforma Protestante. Ele, como bom padre que buscava ser, havia laborado anos tentando ser aceito por Deus — confissões, penitências, superstições, relíquias, votos e promessas — e nada aliviava o peso da consciência, porque cada prática dessas, à sua maneira, também não “se assentava”: exigia sempre mais um passo, mais um sacrifício, mais uma obra. Mas quando Lutero encontrou nas Escrituras um Cristo que já havia terminado, e que por isso está assentado, algo se rompeu — e foi esse rompimento que acendeu a Reforma.

Isso muda a pergunta que você faz de si mesmo. Você vive perguntando “já fiz o suficiente?” — pergunta que nunca tem resposta que baste, porque sempre cabe mais um esforço, mais uma dúvida. Mas a pergunta certa é outra: “ele já terminou?” E a própria postura dele — assentado! — responde: sim, já terminou. Não resta nada para você fazer para alcançar a salvação — só descansar, — finalmente descansar!; sem medo, culpa ou vergonha — descansar com alegria, no que Cristo já concluiu.

3. Jesus reina com poder

Hebreus 8.1 ainda não terminou, ele complementa: Jesus “se assentou à direita do trono da Majestade nos céus”.

Observe que o autor não contentou em dizer que a obra está concluída — ele acrescentou onde Jesus está, e essa posição é de autoridade suprema, exercida agora, — nas palavras de Matthew Henry — “para a glória de seu Pai, para sua própria honra, e para a felicidade de todos quantos lhe pertencem”.

É por isso que Paulo pode dizer, em Efésios 2.6, que Deus, juntamente com Cristo, “nos ressuscitou e com ele nos fez assentar nas regiões celestiais em Cristo Jesus.” Note: no passado, como obra já realizada. Porque Jesus está lá por nós, também nós já estamos representados ali, agora.

E é por isso que Cristo mesmo garante, em João 6.39: “Que eu não perca nenhum de todos os que [o Pai] me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia.”

Esse reinar com poder, meus irmãos, não é distante nem abstrato. É o mesmo Cristo que já foi crucificado, que já venceu o pecado, que vive pelo poder da ressurreição — reinando, hoje, para nos subjugar, moldar, transformar e proteger em meio a um mundo de trevas e perigos — e nos levar seguros para o céu.

Por isso não precisamos temer mudança de regime. Nenhum poder, — nem o seu próprio coração inconstante, nem as circunstâncias, nem o inimigo — nada, nenhum poder está fora do alcance da autoridade daquele que já garantiu o seu lugar.

Hebreus 8.1 Ora, o essencial das coisas que estamos dizendo é que temos tal sumo sacerdote [perfeito], que se assentou [tendo completado sua obra, de uma vez por todas] à direita do trono da Majestade nos céus [reinando com poder]

4. Jesus é Sacerdote e Rei ao mesmo tempo

Reparem de novo no versículo 1: o mesmo que “se assentou à direita do trono da Majestade” é chamado, na mesma frase, de “tal sumo sacerdote”. Em Israel, isso nunca aconteceu. Quem governava como rei jamais servia como sacerdote diante do SENHOR — eram funções separadas, guardadas por linhagens diferentes.

Diferentemente do que políticos costumam dizer: “É competência que importa, não o caráter”, em Israel o caráter de quem reinava importava — importava demais.

Dois dos livros históricos do Antigo Testamento se chamam, literalmente, “Reis”, e eles se ocupam em demonstrar que a sorte do povo mudava de geração em geração conforme o rei que subia ao trono.

Por exemplo: Josafá foi um rei piedoso; seu filho Jeorão, porém, casado com Atalia, filha de Acabe (2Rs 8.18, 26), “fez o que era mau perante o Senhor” (2Rs 8.18) — e tudo que o pai havia construído desmoronou. Jeorão chegou a matar os próprios irmãos para garantir o trono (2Cr 21.4), e seu fim foi tão infeliz quanto seu reinado: morreu de uma doença incurável, sofrendo dores terríveis, e a Escritura resume sua partida com uma sentença lapidar — “se foi sem deixar saudades” (2Cr 21.20).

Sua própria esposa, Atalia, levaria a lógica do poder ainda mais longe: ao ver seu filho Acazias morto, destruiu toda a descendência real — os próprios netos! — só para não perder o trono (2Rs 11.1). O trono muda de dono, e o povo vive à mercê dessa troca.

Jesus rompe essa fragilidade. Ele é, ao mesmo tempo, o Rei cujo caráter determina a atitude de Deus para conosco, e o Sacerdote que intercede por nós diante desse mesmo Deus. Não há divisão entre quem tem autoridade para agir a seu favor e quem ora por você, meu irmão, minha irmã. E, diferente de todo rei de Israel, seu reinado não muda de mãos: é eterno, santo, justo e bom.

Por isso você não precisa temer o que costuma apavorar todo súdito — a troca de regime, o sucessor pior que o antecessor. Com Cristo como Rei-Sacerdote, não há sucessão. Há permanência.

5. Jesus ministra no verdadeiro santuário

Hebreus 8.3 estabelece o princípio: “todo sumo sacerdote é constituído para oferecer dons [ofertas sem sangue: cereais, incenso, primícias, coisas trazidas em gratidão ou consagração] e sacrifícios [ofertas de sangue: animais imolados, especificamente para expiação de pecado]; por isso, era necessário que também esse sumo sacerdote tivesse o que oferecer.” Em outras palavra, sacerdote sem oferta não é sacerdote de verdade — e por isso o texto já nos remete ao que vimos no primeiro ponto: aquilo que Cristo tinha a oferecer era a si mesmo (v. 1).

Mas onde ele oferece essa oferta? É isso que o versículo 2 responde: ele é “ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, e não o homem.”

E os versículos 4 e 5 explicam essa frase: os sacerdotes terrenos “ministram em figura e sombra das coisas celestiais” — exatamente como Moisés, ao construir o tabernáculo, foi instruído: “Tenha cuidado para fazer tudo de acordo com o modelo que foi mostrado a você no monte.” (v. 5).

Reparem: o contraste não é entre verdadeiro e falso. O tabernáculo de Moisés não era mentira — era figura, sim, sombra, esboço fiel daquilo que um dia se cumpriria, mas era verdade. O contraste é entre o definitivo e o provisório. E, se essa carta foi escrita antes do ano 70 — o texto ainda fala desses sacerdotes no presente, “ministram” (v. 5) —, então os primeiros leitores ainda viam o templo de pé, ainda sentiam a perda de não poderem mais participar dali.

Para eles, isso parecia sinal de fraqueza: “vocês, cristãos, nem sacerdote têm.” O autor inverte a acusação: não é fraqueza, é superioridade. Ele diz: “Estes [sacerdotes] ministram em figura e sombra das coisas celestiais” (v. 5). Já o sumo sacerdote de vocês, crentes, ele já ofereceu a sua oferta — a si mesmo — e o fez no santuário real, não numa cópia.

E há algo aqui para nós também. Jesus já chegou ao seu destino. A cruz não está mais diante dele; não há mais provação, nem obra a concluir. Ele já está lá, ministrando por nós, no lugar onde o próprio Deus habita — e é para lá, para junto dele, que seu ministério nos conduz.

6. A salvação que Jesus ministra é superior

Chegamos à síntese — Hebreus 8.6: “Mas agora Jesus obteve um ministério tanto mais excelente, quanto é também Mediador de superior aliança instituída com base em superiores promessas.”

Repare que o versículo não introduz uma sexta característica isolada — ele amarra as cinco anteriores. É porque Cristo é perfeito, está assentado com a obra concluída, reina com poder, é Sacerdote e Rei ao mesmo tempo, e ministra no santuário verdadeiro, que seu ministério é “tanto mais excelente”.

E o que esse ministério superior garante? Uma salvação que não depende, em ponto nenhum, de você. Cristo não lhe dá a chance de ser salvo, nem a tarefa de se salvar, nem a sorte de talvez ser salvo por outro. Ele salva. Conquistou essa salvação por obra perfeita e final — tão final que se assentou. Ministra-a com poder e autoridade, reinando por você. E o aguarda no céu, não como espectador, mas atraindo você a si mesmo, com poder divino.

Foi por isso que, quando Jesus subiu ressurreto ao céu, dois anjos — testemunhas confiáveis — puderam dizer aos discípulos atônitos: “Esse Jesus que foi levado do meio de vocês para o céu virá do modo como vocês o viram subir.” (At 1.11).

Ah! Isso resolve de vez o seu problema da culpa (da consciência culpada), do medo (do medo de ser rejeitado por Deus), da vergonha (da vergonha dos outros), da incerteza do amanhã (o que será do nosso país, de você, dos seus filhos).

Quando sentir sua consciência te atormentar, quando o coração vacilar, quando o medo ou a vergonha tentar te dominar, olhe para Jesus — assentado à direita do trono da Majestade nos céus, por você. Ele está encarregado da sua causa. Foi com essa certeza que mais adiante nesta mesma epístola (Hb 13.6) o autor pôde citar o Salmo 118.6, que diz: “O Senhor é o meu auxílio, não temerei. O que é que alguém pode me fazer?”.

Descanse em quem já temos

Para fechar, voltemos à pergunta que abriu este sermão: quem resolve de verdade?

Você já ouviu a resposta seis vezes, de seis ângulos diferentes, saindo da mesma frase — de um só versículo. Um sacerdote perfeito, sem culpa própria a resolver. Assentado, porque a obra terminou. Reinando com poder, hoje, sobre tudo que ameaça você. Sacerdote e rei ao mesmo tempo, sem divisão entre quem intercede e quem governa. Alguém competente — e de caráter perfeito. Ministrando no santuário verdadeiro, não numa cópia que só aponta para frente. E, por tudo isso, uma salvação que não depende, em nenhum ponto, de você.

Reparem que nada disso pede esforço seu. Você não precisa escalar até ele — ele já desceu, já viveu sem pecado, já morreu, já ressuscitou, já subiu, já se assentou. E voltará. A única pergunta que resta não é “o que mais preciso fazer?”, mas “vou continuar procurando um substituto que dê para tocar, ou vou descansar naquele que já resolveu?”

Porque é isso, no fundo, que estava em jogo desde a primeira palavra deste sermão. Todo ser humano sai à procura de alguém que resolva — e a maioria de nós, mais cedo ou mais tarde, se cansa de viver de sombra em sombra: uma vidente aqui, uma profetada ali, um horóscopo aqui, um coach ali… uma promessa vazia depois da outra. Hebreus 8 não nos oferece mais uma sombra. Oferece o próprio Sol que toda sombra, desde o princípio, apenas anunciava.

E é justamente por isso que o autor, nos versículos seguintes — que, Deus permitindo, estudaremos na próxima mensagem —, vai mostrar que esse sumo sacerdote perfeito também trouxe consigo uma aliança perfeita: uma lei escrita não em pedra, mas no coração; um conhecer a Deus que não depende mais de intermediário; um esquecimento definitivo do pecado. O sacerdote é superior porque a aliança que ele sela é superior. E tudo isso já é nosso, hoje, em Cristo.

Então, se você chegou aqui carregando culpa que não sabe onde depositar, medo de se aproximar de um Deus que imagina distante, ou vergonha que te faz desviar os olhos dos outros — pare de procurar mais um mediador que dê para tocar. Olhe para aquele que já está assentado, reinando, por você.

Não é uma tarefa a mais na sua lista. É um convite ao descanso. “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” — foi o próprio Jesus quem disse isso, muito antes de Hebreus ser escrito, e é exatamente isso que este capítulo, de outro ângulo, vem confirmar: já temos tal sumo sacerdote. Alguém que, finalmente, resolve de verdade.

S.D.G. L.B.Peixoto.

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