

07.06.2026
Hebreus 7.1-10 (NAA)
1Porque este Melquisedeque, rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, foi ao encontro de Abraão, quando este voltava da matança dos reis, e o abençoou. 2Foi para ele que Abraão separou o dízimo de tudo. Primeiramente o nome dele significa “rei da justiça”; depois também é “rei de Salém”, ou seja, “rei da paz”. 3Sem pai, sem mãe, sem genealogia, ele não teve princípio de dias nem fim de existência, mas, feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre. 4Vejam como era grande esse a quem Abraão, o patriarca, pagou o dízimo tirado dos melhores despojos. 5Ora, os que dentre os filhos de Levi recebem o sacerdócio têm ordem, de acordo com a lei, de recolher os dízimos do povo, ou seja, dos seus irmãos, embora estes sejam descendentes de Abraão. 6Entretanto, aquele cuja genealogia não se inclui entre os filhos de Levi recebeu dízimos de Abraão e abençoou aquele que havia recebido as promessas. 7Evidentemente, não há dúvida de que o inferior é abençoado pelo superior. 8Aliás, aqui os que recebem dízimos são homens mortais, porém ali o dízimo foi recebido por aquele de quem se testifica que vive. 9E, por assim dizer, também Levi, que recebe dízimos, pagou-os na pessoa de Abraão. 10Porque Levi, por assim dizer, já estava no corpo de seu pai Abraão, quando Melquisedeque foi ao encontro deste.
A comparação é uma das formas mais econômicas de descrever alguém. Quando dizemos que um jogador em ascensão tem a classe de Pelé, não precisamos explicar mais nada. Pelé era aquele que fazia tudo excepcionalmente bem dentro de campo — direita, esquerda, chute, cabeceio, velocidade, visão de jogo. Completo em tudo. Nenhum atributo faltava. Quando dizemos que um piloto tem a pegada de Ayrton Senna, evocamos algo diferente: o homem que não apenas vencia — mas que brilhava mais quando a pista estava molhada, quando as condições eram mais difíceis, quando os outros recuavam. Com uma única comparação, dizemos em poucas palavras o que levaria páginas para descrever.
A carta aos Hebreus descreve o sacerdócio do Senhor Jesus Cristo exatamente assim — por comparação. Mas o autor não escolhe uma figura famosa, celebrada, presente em todos os livros. Ele escolhe um dos personagens mais misteriosos e obscuros de todo o Antigo Testamento — e eu duvido que você cogitaria ou tenha cogitado este nome para um filho: Melquisedeque.
O nome aparece pela primeira vez em Gênesis 14, numa cena de apenas quatro versículos, e depois desaparece por quase mil anos até reaparecer num único versículo do Salmo 110. Isso é tudo. Nenhuma genealogia, nenhuma história, nenhum registro de nascimento ou morte.
E é exatamente nessa figura enigmática que o autor de Hebreus enxerga os contornos do Cristo. Ele já fez essa comparação três vezes antes de chegar ao capítulo 7. Em Hebreus 5.6 ela aparece pela primeira vez; em Hebreus 5.10 é retomada; em Hebreus 6.20 o autor escreve que Cristo se tornou “sumo sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.” Mas a comparação persiste, aguardando explicação.
O autor a extrai do Salmo 110.4, em que Davi a empregou para descrever a vinda do Cristo (ou: Messias): “O Senhor jurou e não voltará atrás: Você é sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.”
Agora em Hebreus 7 ele finalmente chega lá.
E o que ele vai mostrar é que Cristo é maior do que Abraão imaginou, maior do que Levi compreendeu, maior do que qualquer categoria religiosa conhecida pelos seus leitores — e, certamente, maior do que você imagina.
Já dissemos que Melquisedeque aparece brevemente apenas em Gênesis 14. Foi assim: Ló, sobrinho de Abraão, havia se instalado em Sodoma — uma escolha que custaria caro.
Quando uma coalizão de quatro reis do oriente atacou e saqueou a região, Ló foi levado como prisioneiro. Ao saber disso, Abraão não hesitou. Reuniu seus 318 homens mais capazes e partiu ao resgate. Venceu a batalha, libertou o sobrinho e voltou carregando os despojos da vitória (Gn 14.12-16).
Foi nesse momento — Abraão retornando da guerra, exausto, vitorioso e temeroso (cf. Gn 15.1) — que Melquisedeque saiu ao seu encontro. O texto é curto, mas carregado de mistério:
Gênesis 14.17-20
17Quando Abrão regressava, depois de derrotar […] os reis […], o rei de Sodoma foi ao encontro dele no vale de Savé, que é o vale do Rei. 18E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho. Ele era sacerdote do Deus Altíssimo. 19Ele abençoou Abrão e disse: “Abrão seja abençoado pelo Deus Altíssimo, que criou os céus e a terra. 20E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os adversários de você nas suas mãos.”
Quatro versículos. E não são versículos acidentais.
John H. Sailhamer observou que Melquisedeque é inserido nessa narrativa por Moisés com uma função muito precisa — na verdade, com três funções que se entrelaçam.
A primeira função é narrativa: Melquisedeque aparece como contraponto deliberado ao rei de Sodoma. A cena seguinte (Gn 14.21-24) mostrará Abraão recusando com firmeza qualquer recompensa oferecida por esse rei — e o leitor só entende a grandeza dessa recusa porque já viu Abraão receber, com gratidão, o pão, o vinho e a bênção de Melquisedeque — em ato sacerdotal (v. 18).
A segunda função é teológica: Após a batalha, havia uma questão urgente no ar:
A quem pertencia o crédito pela vitória de Abraão?
O rei de Sodoma já estava se aproximando — e a cena seguinte mostraria que ele tentaria negociar os espólios como se a vitória fosse fruto de esforço puramente humano. Mas Melquisedeque chega primeiro. E antes que qualquer outra interpretação se instale, ele declara a vitória como obra de Deus: “Bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os adversários de você nas suas mãos” (v. 20).
Sailhamer nota que o título usado por Melquisedeque para se referir ao SENHOR — “Deus Altíssimo, que criou os céus e a terra” — é deliberado. Ele vincula o Deus de Melquisedeque ao Deus Criador do Gênesis 1. Não são deuses diferentes. É o mesmo Deus, reconhecido por esse sacerdote misterioso no meio de uma terra pagã. A vitória de Abraão não foi estratégia militar nem coragem humana — foi o Deus que fez os céus e a terra combatendo por ele.
Abraão reconhece essa interpretação como verdadeira — e o dízimo é a sua resposta (v. 20). Dar o dízimo a Melquisedeque é reconhecer publicamente que a vitória não foi sua. Foi de Deus. O dízimo, portanto, não é apenas gratidão — é uma confissão de fé.
A terceira função é tipológica: A lei de Moisés determinaria que, antes de qualquer batalha, o sacerdote se adiantaria e falaria ao povo — Deuteronômio 20.2-4:
[…]“Escute, povo de Israel! Hoje vocês estão se preparando para lutar contra os seus inimigos. Que o coração de vocês não desfaleça. Não tenham medo, não tremam, nem fiquem apavorados diante deles, porque o SENHOR, o Deus de vocês, é quem os acompanha e vai lutar por vocês contra os seus inimigos, para que vocês sejam salvos.”
Melquisedeque faz exatamente isso — mas depois da batalha, não antes. Ele sai ao encontro de Abraão e proclama que foi o Senhor quem entregou os inimigos nas suas mãos.
Sailhamer observa que Moisés está mostrando algo surpreendente com isso: Abraão já vivia em conformidade com a lei antes mesmo de ela ser dada no Sinai. O sacerdote que deveria falar antes da batalha já estava presente — interpretando a vitória à luz de Deus, assim como a lei mais tarde exigiria. A lei não trouxe uma novidade — formalizou o que o povo de Deus já vivia por fé.
Mas depois de cumprir essas três funções — narrativa, teológica e tipológica —, Melquisedeque desaparece do texto tão subitamente quanto apareceu. Seu nome só voltará a ser mencionado, como já dissemos, quase mil anos depois, num único versículo do Salmo 110 (v. 4). É tudo que a Bíblia nos diz sobre ele.
Não surpreende, portanto, que a pergunta tenha intrigado intérpretes por séculos:
QUEM FOI MELQUISEDEQUE?
Dada a depravação dos cananeus nos tempos de Abraão, como surgiu essa extraordinária figura tão piedosa? E por que não se fala mais nada a seu respeito?
Ao longo da história judaico-cristã, surgiram várias respostas.
Alguns dizem que era Sem, filho de Noé e ancestral de Abraão. Outros sugerem tratar-se de um ser celestial — um anjo.
O problema com essas perspectivas é que nada no texto as sustenta. Quanto à hipótese de ser Sem: Moisés foi criterioso com genealogias ao longo de todo o Gênesis — se Melquisedeque fosse Sem, certamente o teria identificado. O silêncio genealógico não é descuido; é intencional, como veremos.
Quanto à hipótese angelical: ela esbarra na própria lógica da carta aos Hebreus. O autor estabelece o princípio em Hebreus 5.1 — “Cada sumo sacerdote, sendo escolhido dentre os homens, é constituído nas coisas relacionadas com Deus, a favor dos homens, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados” — e em Hebreus 2.14 vai ainda mais longe: Cristo participou da carne e do sangue exatamente para que, pela morte, pudesse salvar os que estão sujeitos à morte.
Um ser angelical, portanto, não pode representar a raça humana porque não pertence a ela. Não pode morrer por nós porque não morre como nós.
Anjos não são redimíveis nem redentores — e Hebreus 1–2 os distingue cuidadosamente de Cristo, que é superior a eles precisamente porque é o Filho eterno que se fez homem.
Logo, sendo um tipo de Cristo, Melquisedeque era um homem. E é exatamente como homem que ele aponta para o Homem — o segundo Adão — que haveria de vir.
Outros argumentam que Melquisedeque era o próprio Cristo aparecendo antes da encarnação. Mas o texto de Hebreus 7 descarta isso com uma observação simples: ele é descrito como “feito semelhante ao Filho de Deus” (Hb 7.3). Se ele fosse o Filho de Deus, por que seria descrito como semelhante a ele? Ninguém é semelhante a si mesmo.
Há ainda outro problema.
O autor de Hebreus descreve o sacerdócio de Cristo como sendo “segundo a ordem de Melquisedeque” — ou seja, Melquisedeque é o modelo, e Cristo é aquele que o cumpre. Mas se os dois fossem a mesma pessoa, essa afirmação não faria o menor sentido. Ninguém pertence à ordem de si mesmo.
Melquisedeque é um tipo — uma pessoa real que aponta para outra pessoa real que ainda estava por vir. O tipo não é a coisa em si. É a sombra que anuncia a realidade.
Devemos concluir, portanto, que sabemos muito pouco sobre quem Melquisedeque foi — e a Bíblia parece intencional nisso, como veremos. O que podemos afirmar é que, num mundo mergulhado na idolatria, enquanto os próprios ancestrais de Abraão e o próprio Abraão em Ur dos Caldeus serviram a outros deuses, Melquisedeque manteve pura a fé no Deus de Noé, tal como a recebera dos tempos do dilúvio. Foi, de fato, um homem extraordinário — mas ainda um homem, alguém de quem a Bíblia nos conta apenas o que quer que saibamos, nem mais nem menos.
Calvino disse dele: “Entre as corrupções do mundo, ele só, nessa terra, era íntegro e sincero cultivador e guardião da fé.”
Melquisedeque nos lembra de que é possível seguir e honrar a Deus num mundo ímpio — e isso já seria suficiente para que valesse a pena conhecê-lo. Mas o autor de Hebreus tem um objetivo maior do que nos apresentar um exemplo de piedade. Ele nos mostra essa figura para que vejamos, nos seus contornos, algo — e alguém — muito maior do que ele.
O homem que apareceu do nada
Hebreus 7.1-3 destaca quatro coisas sobre Melquisedeque — e cada uma delas aponta para além dele mesmo.
A primeira é que ele era ao mesmo tempo REI E SACERDOTE (v. 1). No Israel do Antigo Testamento, esses dois ofícios eram estritamente separados — assim como hoje separamos os poderes executivo, judiciário e legislativo para que nenhum homem concentre todo o poder. Essa separação protegia Israel. Melquisedeque, porém, combinava os dois ofícios — e era digno de ambos.
A segunda é que ele ABENÇOOU ABRAÃO e lhe trouxe pão e vinho (v. 1; Gn 14.18). Abraão voltava exausto da batalha — e Melquisedeque foi ao seu encontro. O pão e o vinho faziam parte da mesa comum, mas sua oferta a um guerreiro vitorioso sinalizava acolhimento e honra (cf. 2Sm 16.1-2). O gesto era ao mesmo tempo hospitaleiro e sacerdotal: ele sustentou o corpo do patriarca e declarou a bênção de Deus sobre Abraão no momento mais alto da sua vida, diante de todos. O maior (i.e., Melquisedeque) abençoou o menor (i.e., Abraão).
Observação:
Embora pão e vinho fizessem parte do culto de Israel (Lv 2.4-16; 23.13; Nm 28.14) e mais tarde ganhassem significado pleno na ceia do Senhor (1Co 11.26), Kenneth A. Mathews observa que aqui não há sentido cultual explícito — ainda. O significado tipológico mais profundo virá depois, à luz de Cristo. Por ora, o texto mostra algo simples e poderoso: Melquisedeque não esperou que Abraão viesse até ele. Ele foi a Abraão — e o abençoou (Hb 7.1).
A terceira característica é O SIGNIFICADO DO SEU NOME E TÍTULO (v. 2). Melquisedeque significa rei de justiça (Malkî-ṣedek). Seu título, rei de Salém (melek šālēm), vem da palavra hebraica shalom — paz divina e completa. Salém é identificada com Jerusalém, associada a Sião no Salmo 76.2.
Numa região marcada pela impiedade e pela violência — basta lembrar do rei de Sodoma — aqui estava um rei de justiça governando a cidade da paz. Os dois títulos não são decorativos. Eles descrevem quem ele era — e, principalmente, quem ele tipificava.
A quarta coisa é O SILÊNCIO — é a mais singular (v. 3): “Sem pai, sem mãe, sem genealogia, ele não teve princípio de dias nem fim de existência, mas, feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre.”
É importante entender o que o texto está realmente dizendo — e o que não está. Ele não afirma que Melquisedeque literalmente não teve pai nem mãe, nem que nunca nasceu ou nunca morreu. O que ele diz é que nada disso foi registrado (v. 6: “aquele cuja genealogia não se inclui”). Em toda a sequência de Gênesis, quase todo personagem vem acompanhado de genealogia — nascimento, morte, ancestrais, descendentes. Melquisedeque aparece sem nada disso. Sem origem registrada. Sem morte registrada. Entra na narrativa e sai dela como se viesse do nada e fosse para lugar nenhum.
O autor de Hebreus, seguindo uma tradição rabínica bem estabelecida, lê esse silêncio como intencional.
A. W. Pink explica: “A completa omissão foi ordenada pelo Espírito Santo […] a fim de apresentar um tipo perfeito do Senhor Jesus.”
E F. F. Bruce acrescenta: “Em tudo isto — no silêncio, bem como nas declarações —, ele é um digno tipo de Cristo.”
O silêncio fala. E o que ele diz aponta para alguém muito maior: Jesus, o Messias.
Mas o autor de Hebreus não nos apresenta Melquisedeque apenas para que contemplemos o mistério. Ele tem um objetivo muito preciso — e agora, em Hebreus 7.4-10, ele o declara abertamente: o sacerdócio de Cristo é superior ao sacerdócio de Arão e de todos os levitas da antiga aliança.
Melquisedeque — esse homem que apareceu do nada, sem genealogia, sem registro de morte, feito semelhante ao Filho de Deus — é o tipo que o autor usa para provar esse ponto. E ele o prova com três argumentos.
1. Abraão pagou dízimo a Melquisedeque
Hebreus 7.4
Vejam como era grande esse a quem Abraão, o patriarca, pagou o dízimo tirado dos melhores despojos.
No mundo antigo, pagar dízimo não era apenas generosidade — era submissão pública. Quem pagava reconhecia diante de todos: este é maior do que eu.
Isso torna o argumento transparente: Abraão — o patriarca, o homem das promessas — reconheceu publicamente a grandeza de Melquisedeque. E isso é surpreendente. Os levitas tinham, pela lei, o direito garantido de receber dízimos de todo o povo de Israel (v. 5). Melquisedeque não tinha qualquer vínculo levítico — e ainda assim recebeu de Abraão o dízimo dos melhores despojos (v. 6).
Hebreus 7.5-6 5Ora, os que dentre os filhos de Levi recebem o sacerdócio têm ordem, de acordo com a lei, de recolher os dízimos do povo, ou seja, dos seus irmãos, embora estes sejam descendentes de Abraão. 6Entretanto, aquele cuja genealogia não se inclui entre os filhos de Levi recebeu dízimos de Abraão e abençoou aquele que havia recebido as promessas.
O autor vai ainda mais longe nos vv. 9–10: Levi também pagou dízimo a Melquisedeque — na pessoa de Abraão, seu ancestral. Isso pode soar estranho, mas o raciocínio era familiar ao leitor judeu: os descendentes estavam representados nos atos dos seus ancestrais — o mesmo princípio que Paulo usa em Romanos 5 ao dizer que todos pecamos em Adão.
O próprio sacerdócio levítico, portanto, por meio de Abraão, reconheceu a grandeza de Melquisedeque.
Hebreus 7.9-10 9E, por assim dizer, também Levi, que recebe dízimos, pagou-os na pessoa de Abraão. 10Porque Levi, por assim dizer, já estava no corpo de seu pai Abraão, quando Melquisedeque foi ao encontro deste.
A conclusão é inevitável:
Se os levitas pagaram dízimo a Melquisedeque, o sacerdócio que ele representa é superior ao deles — e Cristo, sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, é o sacerdote que a lei cerimonial jamais conseguiu prover.
2. Melquisedeque abençoou Abraão
Melquisedeque não apenas recebeu o dízimo — ele “abençoou aquele que havia recebido as promessas” (v. 6b).
No Antigo Testamento, bênção sacerdotal não era uma boa palavra de despedida. Era uma declaração de autoridade — quem abençoava falava em nome de Deus sobre aquele que recebia. Somente quem estava em posição superior podia abençoar.
Por isso o princípio do versículo 7 é irrefutável: “o inferior é abençoado pelo superior.” Abraão — o patriarca, o homem das promessas — foi abençoado por Melquisedeque.
Conclusão inevitável: Melquisedeque era maior do que Abraão. E se era maior do que Abraão, era maior do que todo o sacerdócio que viria dele.
Cristo, sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, é portanto maior do que tudo que o sacerdócio levítico jamais pôde oferecer — o único mediador com autoridade plena para abençoar em nome de Deus.
3. Melquisedeque representa vida permanente
O versículo 8 traça um contraste decisivo: “aqui os que recebem dízimos são homens mortais, porém ali o dízimo foi recebido por aquele de quem se testifica que vive.”
O sacerdócio levítico dependia de continuidade. Os registros genealógicos de Crônicas e Esdras mostram o quanto isso importava — porque sacerdotes morriam, e era preciso sempre outro. Homens que morrem não podem garantir a salvação de ninguém.
Melquisedeque é diferente. O testemunho de que ele “vive” é o mesmo silêncio que já vimos: não há registro de morte em lugar nenhum da Escritura. Ele aparece, abençoa e desaparece — sem fim registrado. O autor lê esse silêncio como intencional: Melquisedeque prefigura um sacerdócio que não precisa de sucessão porque o sacerdote permanece vivo.
É exatamente isso que Cristo cumpre.
Mais adiante, no versículo 16, o autor dirá que ele foi constituído sacerdote “não conforme a lei de mandamento carnal, mas segundo o poder de vida que não tem fim.” Os levitas eram sacerdotes pela linhagem. Cristo é Sacerdote pelo poder de uma vida que a morte não pôde deter. Ressuscitou. Subiu aos céus. E intercede agora — e para sempre — por todos os que se aproximam de Deus por meio dele.
O que tudo isso significa
Voltar ao judaísmo não é voltar às origens — é abandoná-las.
A lei de Moisés, com seu sacerdócio, está fundamentada no mesmo evangelho de Cristo que Melquisedeque já representava — séculos antes de Moisés, antes do Sinai, antes de Levi. Abandonar Cristo é abandonar o fundamento sobre o qual toda a antiga aliança foi construída.
A nova aliança não é uma novidade nem uma segunda tentativa de Deus. É o cumprimento do que sempre esteve ali — prefigurado, antecipado, prometido. Abraão contemplou essa esperança pela fé. Como Jesus disse aos fariseus: “Abraão, o pai de vocês, alegrou-se por ver o meu dia; e ele viu esse dia e ficou alegre” (Jo 8.56) — não com os olhos, mas pela fé, através dos tipos e das promessas que ia recebendo ao longo da vida.
É possível que Jesus tivesse em mente especialmente o encontro com Melquisedeque. Que alegria deve ter sentido Abraão ao ver diante de si aquele que já apontava para Cristo — oferecendo pão e vinho que falavam, antes do tempo, da obra salvífica ainda por vir.
Não há para onde voltar. Moisés aponta para Cristo. A lei aponta para Cristo. Melquisedeque — séculos antes de Moisés — já apontava para Cristo. Abraão — o herdeiro de todas as promessas — aponta para Cristo. Abandonar Cristo não é recuar para as origens. É abandoná-las por completo.
E o mesmo vale para nós. Não há rito, pessoa, divindade, ser, ideologia, filosofia ou entidade que chegue onde Cristo chega. Esta passagem nos dá três razões para crer nele e perseverar nele.
1. A excelência de Cristo
No esboço de Melquisedeque vimos os contornos do Messias — e ninguém além de Jesus os preenche.
Quem mais pode ser ao mesmo tempo Sacerdote e Rei? Quem combina poder absoluto com mansidão de espírito? Em quem mais encontramos justiça e paz perfeitas?
Se você quer ver a personificação da justiça, leia a vida de Jesus. Se você quer ver paz, observe os efeitos da sua presença — a tempestade acalmada, os demônios expulsos, as enfermidades curadas. Jesus é a nossa justiça e a nossa paz. Não existe outro.
2. O ministério de Cristo
Abraão voltava exausto da batalha — e Melquisedeque foi ao seu encontro com pão, vinho e a bênção de Deus. Não esperou que Abraão viesse até ele.
Cristo fez o mesmo — em escala infinitamente maior. Abraão lutou contra reis. Cristo lutou contra o pecado, a morte e o inferno — e venceu. E assim como Melquisedeque foi ao encontro do guerreiro exausto, Cristo ressurreto vem ao encontro do seu povo. Não exige força própria. Ele vem. E vem com as mãos cheias.
Mas aqui a analogia alcança seu limite — e é aí que a grandeza de Cristo se revela. Melquisedeque trouxe pão e vinho. Cristo oferece a si mesmo. Melquisedeque abençoou com palavras. Cristo abençoa com seu próprio corpo entregue e sangue derramado. Melquisedeque foi uma sombra. Cristo é a realidade.
Por isso ele disse: “Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede” (Jo 6.35).
3. A paz que só Cristo pode dar
Paz é o que todos buscam — pelo consumismo, pelo entretenimento, pelas telas, pela ambição, pelo romance, pela comida, bebida ou a droga. As pessoas tentam aquietar a voz interior irrequieta. Mas sem justiça não há paz — nem nos lares, nem nas consciências onde o pecado reina sem perdão.
Jesus é o nosso Melquisedeque — Rei de Justiça que nos purifica pelo seu sangue e nos veste com a sua obediência perfeita. Só então o coração encontra paz.
Ele disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; […] Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (Jo 14.27).
Nenhum outro pode dizer isso. Nenhum outro tem o direito de dizer isso. Só aquele que é ao mesmo tempo Rei de justiça e Rei de paz — somente Jesus Cristo.
Para sempre ele reinará sobre a sua cidade da paz eterna.
E a Bíblia nos diz como essa história termina — e recomeça:
Apocalipse 21.3-4
Então ouvi uma voz forte que vinha do trono e dizia: Eis o tabernáculo de Deus com os seres humanos. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles e será o Deus deles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima. E já não existirá mais morte, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.
Haverá somente paz. Paz maior do que você imagina.
S.D.G. L.B.Peixoto.
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Maior do que você imagina
Pr. Leandro B. Peixoto