

03.05.2026
Hebreus 6.9-12 (NAA)
9Quanto a vocês, meus amados, ainda que falemos desta maneira, estamos certos de que coisas melhores os esperam, coisas relacionadas com a salvação. 10Porque Deus não é injusto para se esquecer do trabalho que vocês fizeram e do amor que mostraram para com o seu nome, pois vocês serviram e ainda estão servindo aos santos. 11Desejamos que cada um de vocês continue mostrando, até o fim, o mesmo empenho para a plena certeza da esperança, 12para que não se tornem preguiçosos, mas imitadores daqueles que, pela fé e pela paciência, herdam as promessas.
Você já deve ter percebido que estamos vivendo num tempo em que os sentimentos viraram a regra principal para definir o que é amar. Se uma palavra ou atitude fere a sensibilidade de alguém, dizemos: “Isso não é amor!”.
O problema é que essa postura nos torna reféns da reação dos outros. Ações boas e necessárias acabam sendo rejeitadas porque a base do amor não é mais a verdade ou qualquer princípio bíblico. Não é mais o que é concretamente melhor para o próximo. A base passou a ser apenas como a pessoa vai se sentir. Desse jeito, se alguém demonstra que vai ficar magoado com alguma abordagem, ele ou ela acaba se blindando contra o que é bom.
O que me fez refletir sobre isso?
Leia o início de Hebreus 6.9:
“Quanto a vocês, meus amados”.
Quando o autor usa essa expressão, “amados” (do grego: agapētoi), ele interrompe aquele tom severo de advertência com um carinho inesperado. Para você ter uma ideia, essa é a única vez em toda a carta que ele usa esse termo de proximidade.
O destaque aqui é totalmente intencional. Depois de dizer as palavras mais pesadas de todo o seu texto, o autor faz questão de usar esse tratamento para garantir aos leitores uma coisa: eles ainda estão em uma posição de graça e de estima.
Mas o que ele havia dito?
O autor havia afirmado que os leitores “ficaram com PREGUIÇA de ouvir”, embora já devessem ser mestres a essa altura (5.11-12). Disse que são como BEBÊS dependentes de leite, mas já deveriam ser adultos ingerindo alimento sólido (5.13-14).
Mais ainda: levantou a possibilidade de que alguns ali tenham recebido bênçãos e vivido experiências religiosas profundas — “foram iluminados, provaram o dom celestial, se tornaram participantes do Espírito Santo, provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro” —, mas não foram salvos. O autor compara esses FALSOS CRENTES a um campo que absorve a chuva por meses, mas não produz fruto algum (6.4-8).
Pegou ou não pegou pesado!?
— Preguiçosos! Bebês! Falsos crentes!
Ele foi duro. Mas foi por amor.
Sabemos que foi por amor porque ele diz — em Hebreus 6.9: “meus amados”. Destaco isso porque precisamos permitir que a Bíblia molde nossa visão de mundo.
Sabe, em grande medida, nós nos tornamos uma multidão de vítimas; de pessoas que reclamam de tudo e se fecham por muito pouco. Ou seja, se alguém diz algo negativo a nosso respeito — por mais construtiva que seja a intenção —, ou nos entregamos a um estado de mágoa para nos justificarmos, ou abrimos um processo por assédio. Hoje em dia, somos um povo de pele muito sensível; ofendemo-nos e nos irritamos com facilidade.
Isso não é bom.
Os discípulos de Jesus Cristo deveriam ser diferentes.
Não precisamos ser vulneráveis ou ter a pele tão fina.
Em Cristo, fomos escolhidos por Deus, somos amados por Deus, fomos adotados por Deus, aceitos por Deus, habitados por Deus, estamos sendo guiados por Deus, protegidos por Deus e fortalecidos por ele — e Deus é mais importante do que qualquer outra pessoa no universo. Não temos que nos sentir vulneráveis ou inseguros. Não precisamos viver na defensiva, nos justificando ou sentindo pena de nós mesmos.
Podemos ser rápidos no ouvir, tardios no falar e tardios no irar-se, como diz Tiago (1.19). Podemos ser como Paulo, que afirmou — em 1Coríntios 4.12-13: “Quando somos insultados, bendizemos; quando somos perseguidos, suportamos; quando somos caluniados, procuramos conciliação.” E, enquanto isso, “nos afadigamos, trabalhando” (v. 12), sendo considerados “lixo do mundo, escória de todos” (v. 13). Entretanto, bendizemos, suportamos e procuramos conciliação.
Ora, meus irmãos, se somos capazes de lidar assim com nossos inimigos — e deveríamos! —, quanto mais deveríamos suportar o amor zeloso daqueles que nos trazem palavras duras para o nosso próprio bem. O autor de Hebreus diz: “amados” — “pessoas amadas” — eu falei com vocês dessa maneira porque eu os amo.
A partir da estrutura de argumentação do autor de Hebreus, eu concluo que precisamos cultivar uma cultura de amor. Não aquele amor terapêutico e inofensivo, tão comum nos nossos dias, que serve apenas para fazer o outro se sentir bem consigo mesmo. Aquele amor que foge do atrito só para evitar o desconforto alheio. Falo de um tipo de amor que assume a responsabilidade intencional pela vida espiritual dos membros desta igreja.
Estou falando de dar o passo arriscado de convidar aquele irmão ou aquela irmã em Cristo para um café com o propósito direto de fazer perguntas difíceis sobre o estado de sua alma.
Ah, meu povo! Nós precisamos normalizar a prática de checar a integridade da fé uns dos outros.
Isso exige conversas francas. Um a um.
Exige perguntar, por exemplo, sobre a natureza da fé: a confissão de fé desse irmão (ou dessa irmã) é de fato salvadora e ancorada na suficiência de Cristo, ou é apenas um verniz moral?
Exige avaliar a prontidão para ouvir: os ouvidos dele(a) continuam abertos e dispostos a se submeter à exposição da Palavra de Deus?
E o progresso cristão: existe um amadurecimento constante ou a pessoa estagnou na vida cristã?
Precisamos alertar sobre o perigo do autoengano: será que o irmão(ã) está confiando em alguma experiência religiosa extraordinária, vivendo sob a falsa garantia de ser um crente genuíno, enquanto não apresenta evidências concretas de conversão no presente?
Executar essa tarefa traz desconforto imediato. Você enfrentará a resistência natural de quem é confrontado e a possibilidade real de ter suas ações distorcidas. O chamarão de intrometido por entrar em um território não solicitado. O acusarão de ser julgador, e poderão usar as imperfeições da sua própria vida como escudo. Dirão que você é desconfiado e incapaz de presumir o melhor das pessoas.
Ou seja: as chances de atrito e de falsas acusações são altas.
Contudo, o risco de assistir de braços cruzados à falsa segurança de um membro da igreja exige que suportemos o custo da confrontação bíblica.
Isso é amor.
Se não fosse, o que o autor de Hebreus estaria querendo dizer com estas palavras — de Hebreus 6.9:
Quanto a vocês, meus amados, ainda que falemos desta maneira, estamos certos de que coisas melhores os esperam, coisas relacionadas com a salvação.
Isso é amor. Garantir que nossos irmãos e irmãs em Cristo mantenham os olhos fixos nas “coisas melhores que os esperam, coisas relacionadas com a salvação”, e não nas miragens do pecado, nos prazeres transitórios desta vida, na justiça própria e em tudo o mais que compõe um cristianismo sem cruz, que seduz e conduz à condenação eterna. Isso é prova de amor.
É por isso que o ato de amar, muitas vezes, será exercido com palavras firmes. Palavras verdadeiras, temperadas com sal, cheias de graça, sim — mas diretas. Tudo com o intuito de levar a pessoa a desfrutar das coisas melhores que a esperam, coisas relacionadas com a salvação.
Eu gosto de pensar no argumento do autor de Hebreus, que exorta esses crentes ao progresso da fé (5.11 a 6.12), como uma expansão ou uma aplicação direta de Gálatas 6.1:
Irmãos, se alguém for surpreendido em alguma falta, vocês, que são espirituais, restaurem essa pessoa com espírito de brandura. E que cada um tenha cuidado para que não seja também tentado.
Essa atitude — a de exortar em amor para garantir o progresso na fé e a salvação — era tão comum no período do Novo Testamento, que chega a assustar o quanto nós, hoje, estamos longe de cultivar a avaliação mútua com vistas à salvação final.
Ouça como Tiago termina a sua epístola (5.19-20):
19Meus irmãos, se alguém entre vocês se desviar da verdade, e alguém o converter, 20saibam que aquele que converte o pecador do seu caminho errado salvará da morte a alma dele e cobrirá uma multidão de pecados.
A prática da avaliação mútua é uma prova de amor. E é também uma das características do nosso governo congregacional. Basta observar os passos apresentados pelo próprio Cristo ao lidar com um irmão(ã) que peca e se recusa a reconhecer e abandonar a sua prática. O processo termina na corte de apelação final, que é a assembleia da igreja. É a igreja reunida que tem a autoridade para desligar esse membro e passar a tratá-lo como um alvo de evangelização, e não mais como um irmão em Cristo (cf. Mt 18.15-20).
Se alguém ainda não está convencido de que nós, como igreja reunida, somos chamados a julgar os frutos da vida uns dos outros, preste atenção nisto. Nós fazemos isso para garantir que a vida dos irmãos esteja alinhada com o fruto do Espírito, e não com as obras da carne que conduzem à condenação eterna.
Leia o que Paulo falou quando tratou de um pecador impenitente na igreja em Corinto — em 1Coríntios 5.1-2:
1Ouve-se por aí que entre vocês existe imoralidade, e imoralidade tal como não existe nem mesmo entre os gentios, isto é, que alguém se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai. 2E vocês andam cheios de orgulho, quando deveriam ter lamentado e tirado do meio de vocês quem fez uma coisa dessas.
Ou seja, nós somos chamados a tirar do nosso meio aqueles que não vivem como manda a palavra de Deus. Na prática, isso significa, sim, julgar uns aos outros. É o que Paulo escreve logo à frente, no mesmo contexto — em 1Coríntios 5.12-13: “Mas será que vocês não devem julgar os de dentro? [Resposta à pergunta retórica: Claro que sim!] Os de fora, esses Deus julgará. Expulsem o malfeitor do meio de vocês.”
Nós não somos apenas chamados, mas comissionados pela palavra de Deus a praticar a avaliação mútua com vistas à salvação.
Isso é amor.
S.D.G. L.B.Peixoto.
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Pr. Leandro B. Peixoto