

05.07.2026
Hebreus 7.11-28 (NAA)
11Portanto, se a perfeição fosse possível por meio do sacerdócio levítico — pois foi com base nele que o povo recebeu a lei —, que necessidade haveria ainda de que se levantasse outro sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque, e não segundo a ordem de Arão? 12Pois, quando se muda o sacerdócio, necessariamente muda também a lei. 13Porque aquele de quem são ditas estas coisas pertence a outra tribo, da qual ninguém prestou serviço diante do altar. 14Pois é evidente que nosso Senhor procedeu de Judá, tribo à qual Moisés nunca falou nada a respeito de sacerdócio. 15E isto é ainda muito mais evidente, quando, à semelhança de Melquisedeque, surge outro sacerdote, 16constituído não conforme a lei de mandamento carnal, mas segundo o poder de vida que não tem fim. 17Porque dele se testifica: “Você é sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.” 18Portanto, por um lado, se revoga a ordenança anterior, por causa de sua fraqueza e inutilidade, 19pois a lei nunca aperfeiçoou coisa alguma; e, por outro lado, se introduz esperança superior, pela qual nos chegamos a Deus. 20E isto não se deu sem juramento. Porque os outros são feitos sacerdotes sem juramento, 21mas este foi feito sacerdote com juramento, por aquele que lhe disse: “O Senhor jurou e não se arrependerá: ‘Você é sacerdote para sempre.’” 22Por isso mesmo, Jesus se tornou fiador de superior aliança. 23Ora, os outros são feitos sacerdotes em maior número, porque a morte os impede de continuar; 24Jesus, no entanto, porque continua para sempre, tem o seu sacerdócio imutável. 25Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se aproximam de Deus, vivendo sempre para interceder por eles. 26Porque nos convinha um sumo sacerdote como este, santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores e exaltado acima dos céus, 27que não tem necessidade, como os outros sumos sacerdotes, de oferecer sacrifícios todos os dias, primeiro, por seus próprios pecados, depois, pelos do povo; porque fez isto uma vez por todas, quando a si mesmo ofereceu. 28Porque a lei constitui homens sujeitos a fraquezas como sumos sacerdotes, mas a palavra do juramento, que foi posterior à lei, constitui o Filho, perfeito para sempre.
Culpa, medo e vergonha — esses três moram no peito do ser humano desde o primeiro casal, desde o Éden. Não é força de expressão: o próprio texto de Gênesis 3 registra isso quase como um diagnóstico clínico. Depois da queda no pecado, Adão e Eva se cobrem — vergonha. Se escondem de Deus entre as árvores — medo. E, quando confrontados, cada um aponta o dedo para o outro — culpa que não sabe a quem se entregar. Três sintomas de uma única ferida: o homem separado de Deus.
A história das religiões mostra que esse mal-estar nunca foi exclusividade de Israel. Sumérios, egípcios, gregos, romanos — toda civilização ergueu altares e instituiu sacerdotes. Os vikings — guerreiros nórdicos dos séculos VIII a XI d.C., sem qualquer contato com a revelação bíblica — também tinham seus sacerdotes, os chamados godar, que presidiam rituais de sacrifício chamados blót: animais imolados, sangue aspergido sobre ídolos, tudo para apaziguar Odin e Thor. Mesmo os vikings derramaram sangue diante de um altar. Isso não é coincidência religiosa — é confissão humana universal: ninguém se sente capaz de se aproximar do deus sozinho.
Há uma rota mais recente para lidar com essa inquietação: negar que haja Deus algum a quem responder. Mas culpa, medo e vergonha não se resolvem com a negação de Deus — apenas se escondem, como Adão se escondeu atrás das árvores. No fundo, é isso que todos carregamos: culpa diante de quem ofendemos, medo do que não controlamos, vergonha do que somos quando ninguém está olhando, vergonha dos olhos dos outros.
Só há uma forma de resolver isso de verdade: um sacerdote perfeito, eterno, suficiente, que resolva, de uma vez por todas, a culpa, o medo e a vergonha do homem diante de Deus — e que abra, definitivamente, o caminho de volta a ele. É exatamente disto que trata o capítulo 7 de Hebreus.
Os primeiros leitores dessa carta já tinham esse sacerdote — Jesus Cristo. E, ainda assim, estavam pensando em trocá-lo: olhavam para trás, para o sacerdócio levítico, para o templo, para os altares, para os sacrifícios antigos, para os rituais e as festas.
A mesma tentação não ficou no primeiro século. Hoje também trocamos o Profeta e o Sumo Sacerdote por outros. Recorremos à opinião de um influenciador para saber como viver. Seguimos autoridades religiosas ou o veredito da própria vontade.
Confiamos no psicólogo ou no psiquiatra para resolver o que é, na raiz, espiritual. Esses profissionais fazem um trabalho sério e valioso. Deus os usa. Mas têm limites que os honestos entre eles reconhecem. Conhecem de perto o peso que os pacientes jogam sobre seus ombros — chegam aos consultórios esperando uma palavra mágica que aplaque a consciência, sane o trauma, traga descanso para a alma. Esperando, no fundo, um profeta e um sacerdote. Entretanto, há algo no ser humano que escapa ao alcance de qualquer diagnóstico ou medicação. Esse peso tem um nome: pecado. E pecado só tem um Profeta e Sacerdote capaz de resolver.
O autor de Hebreus, do versículo 11 até o final do capítulo, pergunta: VOLTAR PARA ONDE? Aquele sacerdócio nunca levou ninguém à perfeição (v. 11); era fraco, inútil e provisório (v. 18). Não era a origem — era, no máximo, uma sombra.
Ora, e se formos ainda mais atrás — antes de Moisés, antes da lei? A resposta já estava ali, séculos antes. Recapitulemos.
Na mensagem anterior em Hebreus, lá no dia 7 de junho, vimos Melquisedeque — rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo — saindo ao encontro de Abraão para bendizê-lo, e Abraão entregando-lhe o dízimo de tudo (7.1-2). Seu nome já diz algo sobre sua natureza: “rei da justiça” e “rei da paz”. E o silêncio do texto sobre sua origem — sem pai, sem mãe, sem genealogia, sem princípio nem fim de existência (v. 3) — é tipo deliberado: figura que aponta para Alguém que de fato não tem princípio nem fim.
“Vejam como era grande esse homem” (v. 4) — a quem Abraão, o patriarca, pagou o dízimo. Os levitas recolhem dízimo dos irmãos por mandamento da lei (v. 5); Melquisedeque recebeu de Abraão por superioridade inerente (v. 6). É sempre o maior que bendiz o menor (v. 7). E como Levi ainda estava “no corpo de seu pai Abraão” quando este encontrou Melquisedeque, pode-se dizer que toda a futura ordem de Arão já reconheceu essa superioridade antes de mesmo existir (vs. 9-10).
De fato, muito antes de existir lei, antes de existir Arão ou Levi, já havia Alguém maior. Isso levanta a pergunta que o autor agora responderá: se a superioridade já estava ali séculos antes da lei, por que o sacerdócio levítico foi instituído — e por que precisou ser substituído? A RESPOSTA VEM EM TRÊS MOVIMENTOS:
O sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque é… 1) Para sempre novo (vs. 11-14), 2) para sempre garantido (vs. 15-25) e 3) para sempre perfeito (vs. 26-28).
Vale lembrar quem lia ou estava ouvindo a leitura desta carta. Atos 6.7 registra que “grande número de sacerdotes obedecia à fé”. Portanto, alguns dos primeiros leitores de Hebreus haviam sido, eles mesmos, sacerdotes levíticos convertidos a Cristo. Agora pertenciam a um “sacerdócio real” (1Pe 2.9). Para eles, a pergunta do versículo 11 não era teórica: era a pergunta sobre se havia valido a pena deixar o próprio ofício sacerdotal para seguir a Jesus.
11Portanto, se a perfeição fosse possível por meio do sacerdócio levítico — pois foi com base nele que o povo recebeu a lei [ou: sob o qual o povo recebeu a lei]—, que necessidade haveria ainda de que se levantasse outro sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque, e não segundo a ordem de Arão?
O autor abre com uma pergunta que já é argumento: se a perfeição fosse possível pelo sacerdócio levítico, que necessidade haveria de outro sacerdote, de outra ordem? Ora, nenhuma.
“Perfeição” aqui — palavra que poderia também ser traduzida “cumprimento” (cf. Lc 1.45) — designa o alvo que Deus havia traçado: acesso pleno a Deus, perdão completo, transformação real do coração. Em Hebreus, “perfeição” significa, na prática, acesso ininterrupto a Deus e comunhão inabalável com ele.
A pergunta do versículo 11 é retórica, ela já contém a resposta: houve sim necessidade de outro sacerdote — logo, o alvo não havia sido atingido pelo primeiro.
Note o que o próprio versículo 11 afirma entre parênteses: “foi com base no sacerdócio levítico que o povo recebeu a lei.” Isso é decisivo. O sacerdócio não era apenas uma peça dentro da lei mosaica — era o fundamento sobre o qual toda aquela administração da aliança repousava. E se o fundamento era incapaz de levar alguém à perfeição — ao acesso real a Deus —, então o problema não era apenas com os rituais ou com a lei cerimonial. Era com todo o sistema como caminho de acesso a Deus: sacerdócio, santuários, sacrifícios, rituais — tudo o que compunha a aliança mosaica.
O autor prossegue e, no versículo 12, estabelece o princípio: “quando se muda o sacerdócio, necessariamente muda a lei.” É importante perceber a direção desta causalidade: não é a mudança da lei que exige a mudança do sacerdócio — é o contrário. O sacerdócio era o fundamento sobre o qual a lei mosaica repousava. Mudar o fundamento muda necessariamente o que está construído sobre ele.
A “lei” que mudou não é a lei moral — não os Dez Mandamentos, que continuam com obrigação perpétua, escritos agora não em tábuas de pedra, mas no coração pelo Espírito (Hb 8.10).
O que mudou foi toda a administração mosaica da aliança como caminho de acesso a Deus — sacerdócio, sacrifícios, santuário, rituais, circuncisão, dietas alimentares. Tratava-se de um sistema completo de ordenança exterior; e esse sistema foi cumprido e encerrado em Cristo.
Do início ao fim do capítulo 7, o assunto é sacerdócio, dízimo, altar, sacrifício — e é precisamente esse sistema cerimonial que o autor declara revogado: não porque fosse mau, mas porque, em função da enfermidade da carne, era incapaz de levar alguém a Deus (Rm 8.3). A própria lei moral — santa e boa como é — também não tem esse poder: ela revelou o pecado, mas não tinha como purificá-lo (cf. Rm 7.7 e ss.); por isso ela apontava para Cristo, desde o início (Rm 10.4; Gl 3.24).
Os versículos 13-14 confirmam historicamente a mudança de lei: Jesus pertence à tribo de Judá, à qual Moisés nunca atribuiu qualquer função sacerdotal. A lei nunca o previu. Jesus não é sacerdote levítico tentando ocupar uma função que não lhe pertence — é o representante de uma ordem completamente nova, que a lei jamais regulamentou.
13Porque aquele de quem são ditas estas coisas pertence a outra tribo, da qual ninguém prestou serviço diante do altar. 14Pois é evidente que nosso Senhor procedeu de Judá, tribo à qual Moisés nunca falou nada a respeito de sacerdócio.
O sacerdócio antigo era incapaz — não porque fosse ilegítimo, mas porque nunca foi instituído para ser o destino: era provisório por natureza, preparatório por design. Era a vela, não o sol. Era o mapa, não o território. Era a sombra de algo que ainda havia de vir. E o que havia de vir não era uma versão melhorada do mesmo sistema: era uma ordem para sempre nova, capaz de fazer o que o antigo nunca pôde — levar-nos, de fato, até Deus (vs. 19 e 25).
O versículo 15 intensifica o que já vínhamos vendo: “E isto é ainda muito mais evidente, quando, à semelhança de Melquisedeque, surge outro sacerdote.”
O “isto” retoma diretamente o princípio do versículo 12: a mudança de sacerdócio implica necessariamente uma mudança de lei — isto é: toda a administração mosaica da aliança como caminho de acesso a Deus — sacerdócio, sacrifícios, santuário, rituais. Tudo isso muda. Torna-se obsoleto. É revogado. Afinal, “surge outro sacerdote” (v. 15).
Os versículos 13-14 já mostraram que Jesus vem da tribo “errada” segundo a lei. Mas agora o autor diz: há algo ainda mais evidente — o modo como Cristo foi constituído sacerdote prova o argumento com força ainda maior.
A primeira evidência era histórica e genealógica (não é da tribo de Levi, mas de Judá; não é da ordem de Arão, mas de Melquisedeque). A segunda evidência é mais profunda: o próprio fundamento do seu sacerdócio é de outra natureza e, portanto, mais garantido.
Primeira garantia: a vida indestrutível do Sacerdote (v. 16). “Constituído não conforme a lei de mandamento carnal, mas segundo o poder de vida que não tem fim.”
Observe: A qualificação levítica era “carnal” — descendência física, nascimento na tribo certa, efêmera, baseada em morte e reposição. Outra coisa: não havia exigência de santidade pessoal. Bastava ter nascido filho de sacerdote.
Jesus, porém, foi constituído por um fundamento completamente diferente: vida que a morte não interrompe — “segundo o poder de vida que não tem fim” (v. 16). Essa vida indestrutível tem nome e evento concretos — a ressurreição. Foi ressuscitando dos mortos que Deus declarou e qualificou Jesus para esse sacerdócio eterno (cf. Rm 1.4). Não qualidade passageira, nem carnal. O versículo 17 confirma com o Salmo 110.4: “Você é sacerdote para sempre.” Isso aqui não é ornamento poético; é o ponto central.
A consequência aparece nos versículos 18-19: a ordenança anterior é revogada — por ser fraca e inútil. Não porque fosse má; “a lei é santa e o mandamento é santo, justo e bom” (Rm 7.12). Mas tinha limite estrutural: revelava a distância entre o homem e Deus, sem poder fechá-la — “pois a lei nunca aperfeiçoou coisa alguma” (v. 19). Em contraste, continua o versículo 19, em Cristo “se introduz esperança superior, pela qual nos chegamos a Deus.” A expressão não é acidental — é a finalidade de tudo. O sistema antigo era como vela útil durante a noite, dispensável agora que o Sol da Justiça se levantou (cf. Ml 4.2).
Primeira garantia: Jesus não é sacerdote por mera linhagem humana, “mas segundo o poder de vida que não tem fim.” Essa é uma esperança superior, pela qual nós chegamos a Deus.
Segunda garantia: o juramento com fiança (vs. 20-22). Os sacerdotes levíticos simplesmente recebiam a ordem de assumir o cargo — nenhum juramento divino os respaldava (v. 20). Jesus, porém, foi constituído com juramento: “O Senhor jurou e não se arrependerá” (v. 21). “Por isso mesmo, Jesus se tem tornado fiador de superior aliança” (v. 22).
A palavra “fiador” é termo jurídico raro — único no Novo Testamento — e designa alguém que oferece a si mesmo como garantia pessoal de que um compromisso será cumprido. Jesus não apenas administra a aliança; ele é, pessoalmente, a garantia de que ela se cumprirá. “Por isso mesmo, Jesus se tornou fiador de superior aliança.” (v. 22).
Primeira garantia: Jesus não é sacerdote por mera linhagem humana, “mas segundo o poder de vida que não tem fim.” (vs. 16-19); Segunda garantia: o juramento com fiança (vs. 20-22). E…
Terceira garantia: a permanência (vs. 23-25). O historiador Flávio Josefo contou oitenta e três sumos sacerdotes entre Arão e a destruição do templo em 70 d.C. — oitenta e três homens, todos mortos, todos substituídos. Falha estrutural, não acidente. Jesus não será substituído. Jamais. E o resultado prático está no versículo 25. Leia o trecho (vs. 23-25) — tendo com ápice o versículo 25:
23Ora, os outros são feitos sacerdotes em maior número, porque a morte os impede de continuar; 24Jesus, no entanto, porque continua para sempre, tem o seu sacerdócio imutável. 25Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se aproximam de Deus, vivendo sempre para interceder por eles.
“Salvar totalmente” — em completude e em permanência. Porque a intercessão nunca cessa, como a de todos os demais cessaram. Todas! Em contraste, a de Cristo jamais cessará.
Dois erros a evitar aqui.
O primeiro: pensar que a intercessão de Cristo é insuficiente e buscar outros intercessores — isso honra a criatura mais do que o Criador. O segundo: imaginar que o Pai é hostil e só reticentemente apaziguado pelo Filho — quando foi o próprio Pai quem amou o mundo e enviou o Filho (Jo 3.16).
A intercessão de Cristo expressa o amor unânime da Trindade. Foi ela que sustentou Pedro quando Jesus orou para que sua fé não desfalecesse, sabendo da negação que viria (Lc 22.31-32). É a intercessão de Jesus que sustenta você hoje, crente.
RECAPITULANDO: O sacerdócio de Jesus Cristo repousa em três fundamentos: vida indestrutível, juramento divino, permanência eterna — convergindo num único resultado, que o versículo 25 nomeia com precisão: capacidade plena de salvar e interceder — sem substitutos, para sempre — pelos que “se aproximam de Deus” — por meio da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo.
A porta está aberta. O caminho está garantido. Afinal, o sacerdócio de Cristo é para sempre garantido.
O versículo 26 resume tudo num só fôlego: “nos convinha um sumo sacerdote como este, santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores e exaltado acima dos céus.”
Aqui o autor está fazendo algo importante: após demonstrar o que Cristo faz (salvar totalmente, interceder permanentemente), ele agora revela quem Cristo é — e mostra que seu caráter e sua obra são inseparáveis.
O texto organiza isso em dois movimentos: 1) um trio de qualidades pessoais — santo (diante de Deus), inculpável (aos olhos dos homens) e sem mácula (puro para o sacrifício e para o serviço sacerdotal) — e 2) um par sobre sua condição: separado dos pecadores e exaltado acima dos céus.
“Separado dos pecadores” não significa distância ou alheamento — Jesus comeu com publicanos e prostitutas, e os fariseus o reprovaram por isso. Significa separado do pecado — em natureza, causa e efeito. É exatamente por isso que pode nos representar: precisávamos de um representante que não carregasse a mesma condenação que pesa sobre nós.
O versículo 27 torna isso consequência prática — e o faz por contraste: os sumos sacerdotes levíticos ofereciam sacrifício primeiro por si mesmos, e só depois pelo povo. A repetição diária era confissão constante de que o problema nunca fora resolvido. Jesus, ao contrário, “fez isto uma vez por todas, quando a si mesmo ofereceu” (v. 27). É essa oposição — diariamente versus uma vez por todas; animal substituto versus a si mesmo — que o autor quer que o ouvinte grave na mente e no coração.
Há uma pergunta que percorre todo o Antigo Testamento desde que Isaque perguntou a Abraão, subindo o monte Moriá: “onde está o cordeiro?” (Gn 22.7). Cordeiros eram sacrificados sem cessar, mas nenhum resolvia o problema na raiz — só cobriam o exterior. A mesma pergunta valia para o sacerdote: as vestes douradas de Arão eram exigidas porque o sacerdote não possuía em si mesmo a santidade que o serviço diante de Deus requeria — eram sinal exterior de uma exigência interior que ele não podia cumprir.
A resposta para as duas perguntas é a mesma: Jesus Cristo, “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29) — o único Sumo Sacerdote que não precisa de vestes para ser o que o ofício requer. Jesus, aliás, teve suas vestes e túnica arrancadas, e colocadas para apostas (Jo 19.23-24).
O versículo 28 fecha o capítulo retomando a linguagem do início: “a lei [de Moisés, a lei levítica] constitui homens sujeitos a fraquezas como sumos sacerdotes, mas a palavra do juramento, que foi posterior à lei [a profecia de Davi em Salmo 110.4], constitui o Filho, perfeito para sempre.” De um lado, homens fracos. Do outro, o próprio Filho eterno de Deus — qualificado com a mesma expressão que abriu a descrição de Melquisedeque no versículo 3:
Sem pai, sem mãe, sem genealogia, ele não teve princípio de dias nem fim de existência, mas, feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre.
O capítulo termina exatamente onde começou, mas não mais como enigma sobre a figura misteriosa de Gênesis. Termina como conclusão plena sobre o Filho de Deus.
E assim o texto converge para um único convite — o mesmo que os versículos 19 e 25 já haviam anunciado: “chegarmos a Deus”. Cristo é para sempre novo em sua ordem, para sempre garantido em sua permanência e para sempre perfeito em seu caráter — e, por tudo isso, o único por meio de quem somos levados, de fato, até Deus.
Começamos com um diagnóstico: culpa, medo e vergonha — três sintomas de uma única ferida, o homem separado de Deus. Percorremos toda a história do capítulo 7, e chegamos aqui com uma resposta. Não uma ideia. Não um sistema. Uma pessoa — e um Sumo Sacerdócio que resolve, de uma vez por todas, o que nenhum outro sacerdote jamais conseguiu.
Agora, buscarei aplicar este texto para todas as idades.
Para as crianças:
Começamos falando em vergonha — Adão e Eva se cobriram porque não queriam ser vistos. Vocês conhecem esse sentimento, crianças. Já fizeram algo errado e ficaram com medo de contar para a mamãe ou o papai: “será que ele(a) ainda vai me amar?” Jesus não se afasta de você quando você erra e o busca com arrependimento e fé. Não há hora em que você não possa chegar a ele.
Para os adolescentes e jovens:
O medo de não ser suficiente, de não pertencer. Muitos já ouviram: “você só é cristão porque seus pais são da igreja.” É pergunta séria esta aqui para você: minha fé é minha, ou só herança? O sacerdócio levítico funcionava por herança — nascíamos sacerdotes porque o pai era. O sacerdócio de Cristo não funciona assim. Ele pergunta se você, pessoalmente, vem a Deus por meio dele. Essa resposta precisa ser sua.
Para os adultos:
A culpa é o que mais paralisa. Três fundações falsas sustentam a relação de muitos adultos com Deus. A herança familiar: “sempre fui da igreja.” A moralidade própria: “vivo direito, não faço mal a ninguém.” A performance religiosa: “oro, sirvo, frequento, contribuo.” Tudo isso pode ser bom. Mas nenhuma dessas coisas responde pela sua culpa diante de Deus.
A pergunta vale ser feita: para que, exatamente, você precisa de Jesus? É possível orar, ouvir música cristã, viver moralmente, frequentar a igreja — sem de fato precisar dele para nada. Para que você precisa dele?
Quando a vida aperta — ansiedade, culpa, luto, fracasso —, para onde você corre? Para influenciadores, psicólogos, psiquiatras, ou para personalidades religiosas que prometem alguma coisa. Esses recursos podem ajudar. Mas nenhum foi feito para carregar o peso da culpa, do medo e da vergonha que nos devastam desde o Éden. E todos esses “sacerdotes”, diferente de Cristo, caem, são substituídos, não duram.
Ah! Eu sei… Há a desculpa favorita: “ninguém é perfeito, pastor.” Há verdade nisso (Rm 3.10). O erro é usá-la para evitar a confissão e a busca de santificação.
Seja você quem for, lance sobre Cristo seus fracassos, seus pecados — ele já pagou por todos — e receba dele força e perdão para seguir em obediência.
Cristo “vive sempre para interceder” por você (v. 25). Pense em como seria receber uma oração de alguém que você admira — e perceba que isso é sombra fraca do que temos. O próprio Cristo, à destra do Pai, intercedendo por você agora, crente. Por isso Paulo pergunta: quem nos condenará, já que Cristo morreu, ressuscitou e intercede por nós (Rm 8.34)?
Quando estudamos Hebreus, a forma como reagimos — com tédio ou com fascínio — já revela algo sobre onde estamos espiritualmente. Enquanto você sai daqui hoje, eu te pergunto: como sairá? O que esse Sumo Sacerdote significa para você agora mesmo — mera doutrina para ser aprendida, ou a única Pessoa que pode de fato resolver o que você carrega — culpa, medo, vergonha diante de Deus?
Esses ensinamentos não terminam em informação. Terminam em adoração. A adoração verdadeira começa com a confissão da própria culpa, do próprio medo, da própria vergonha. Você pode frequentar a igreja, cantar os hinos, ouvir o sermão — e nunca verdadeiramente adorar, enquanto não se humilhar diante de Deus e reconhecer que precisa de misericórdia, de perdão, de reconciliação.
Adorar é proclamar o valor de alguém. Quando você compreende que Jesus não é apenas um nobre mestre moral, mas o único Cordeiro capaz de levar seu pecado e o único Sacerdote habilitado a oferecer esse sacrifício — só então você o adora de verdade.
Será isto que os redimidos farão no céu: Há um Cordeiro que foi morto, mas vive, e ao seu redor, ao redor de seu trono, cantarão um cântico — ele é digno, porque com seu sangue comprou para Deus pessoas de toda tribo, língua, povo e nação, e as fez reino e sacerdotes diante de Deus (Ap 5.9-10).
Por ora, voltemos ao Éden — e além do Éden. Adão e Eva se esconderam com vergonha. Os redimidos se aproximam com ousadia, pela intercessão do Filho. A culpa, o medo e a vergonha não foram apenas aliviados. Foram resolvidos — de uma vez por todas, quando Cristo a si mesmo se ofereceu.
Não importa quem você é ou o que já fez. O Sumo Sacerdote e Cordeiro de Deus é perfeitamente adequado para a sua necessidade. Apresente-a a ele agora — e ele tirará o seu pecado e abrirá para você a porta do céu, para servir com ele, na beleza da santidade, agora e para sempre.
Chega de culpa. Chega de medo. Chega de vergonha. Venha para Cristo. Ele é sempre maior. Maior que sua culpa. Maior que seu medo. E maior que sua vergonha.
S.D.G. L.B.Peixoto.
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