

22.03.2026
Hebreus 6.4-8 (NAA)
4É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom celestial, se tornaram participantes do Espírito Santo, 5provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro 6e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à zombaria. 7Porque a terra que absorve a chuva que frequentemente cai sobre ela e produz plantas úteis para aqueles que a cultivam recebe bênção da parte de Deus; 8mas, se produz espinhos e ervas daninhas, é rejeitada e está perto da maldição; e o seu fim é ser queimada.
Existe uma grande diferença entre ser sério e ser triste, como bem observou John Piper. O oposto de triste é feliz. O oposto de sério, por sua vez, é leviano ou brincalhão. Portanto, é perfeitamente possível ser sério e feliz ao mesmo tempo. C. S. Lewis capturou isso ao escrever: “Existe um tipo de felicidade e admiração que nos torna sérios” (A Última Batalha, Capítulo 15).
Todos sabem a diferença entre o que um comediante nos faz sentir e o que um amigo que dá a vida por nós nos faz sentir. O comediante arranca risos sem necessariamente produzir verdadeira alegria. O amigo gera uma felicidade profunda e inabalável, acompanhada de seriedade pela vida.
A maioria de vocês também conhece a diferença prática entre passar um dia no Parque Mutirama e um dia na Chapada dos Veadeiros. O parque de diversões oferece agitação e entretenimento passageiro. É uma distração que não exige muito de nós. A Chapada, com a sua grandeza, impõe reverência. Ela enche os olhos de admiração e gera uma alegria que aquieta a mente. Diante da magnitude da criação de Deus, a resposta natural não é a leviandade ruidosa, mas a contemplação respeitosa.
Esse é o efeito exato que o livro de Hebreus busca produzir em nós. Trata-se de um texto sóbrio que elimina as abordagens banais e triviais em relação à vida cristã. Ao apresentar o duro alerta de Hebreus 6 contra a falsa segurança espiritual, o autor não tem a intenção de nos paralisar com tristeza ou desespero. Ele retira o entretenimento superficial da nossa postura para nos colocar diante da gravidade da cruz, tornando a nossa alegria em Cristo séria, madura e resistente.
Observe:
Hebreus 10.34 (NAA) Porque vocês não apenas se compadeceram dos encarcerados, mas também aceitaram com alegria a espoliação [ou: roubo] dos seus bens, porque sabiam que tinham um patrimônio superior e durável.
Hebreus 12.1b-2 (NAA) corramos com perseverança a carreira que nos está proposta, 2olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, sem se importar com a vergonha, e agora está sentado à direita do trono de Deus.
Hebreus 13.17 (NAA) Obedeçam aos seus líderes e sejam submissos a eles, pois zelam pela alma de vocês, como quem deve prestar contas. Que eles possam fazer isto com alegria e não gemendo; […]
Esse autor, portanto, é sim pela nossa alegria. Alegria sólida. Alegria séria. Alegria em Cristo. A alegria que nos faz perder o medo de morrer para dar a vida em resgate de muitos — exatamente como fez o nosso Salvador, o Senhor Jesus Cristo.
Aqui está uma grande lição para discipuladores e conselheiros bíblicos, uma grande lição para quem se propõe a ajudar outras pessoas: uma das maneiras pelas quais o livro de Hebreus promove a nossa alegria é por meio de alertas sobre a falsa segurança. Existe um tipo de felicidade que matará você. O livro de Hebreus é implacavelmente amoroso ao expor essa felicidade perigosa e ao nos advertir a fugir de seus enganos para buscar a felicidade sólida que nunca nos abandonará.
Em outras palavras, Hebreus foi escrito para aprofundar e fortalecer a alegria da nossa convicção em Deus, e uma das estratégias do livro é expor falsas seguranças e prazeres passageiros.
É isso que lemos em Hebreus 6.4-8. Essa passagem afirma que existe uma condição espiritual que torna o arrependimento e a salvação impossíveis. Ela diz que essa condição pode, de muitas formas, parecer-se com a salvação, mas não é; e que conduz à destruição. Portanto, este texto é um alerta para não presumirmos que estamos seguros quando nossas vidas apresentam algumas experiências religiosas, mas nenhum fruto crescente. O motivo de nos mostrar essa situação grave é para que fujamos dela e avancemos para um terreno sólido e uma alegria duradoura.
Observe o fluxo de pensamento desse autor. Hebreus 6.1 diz (NAA): “Avancemos para o que é perfeito [ou: Prossigamos para a maturidade]”. O versículo 3 diz: “Isso faremos, se Deus o permitir.” Em outras palavras, ter a graça para superar nosso orgulho natural, rebeldia e incredulidade dependerá, em última análise, de Deus.
Agora, os versículos 4 a 8 ilustram essa total dependência de Deus ao mostrar que existe uma situação em que o arrependimento e o prosseguir para a maturidade são impossíveis. Visto que é impossível, devemos estremecer diante da perspectiva de estar nessa situação e perceber o quanto somos inteiramente dependentes do Deus soberano mencionado no versículo 3.
Qual é esta situação em que o arrependimento é impossível? Ela é descrita da seguinte forma:
Hebreus 6.4-6 (NAA)
4É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom celestial, se tornaram participantes do Espírito Santo, 5provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro 6e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à zombaria.
A situação é esta: Primeiro, alguém recebe grandes bênçãos e passa por elevadas experiências religiosas (vs. 4 e 5). Segundo, essa mesma pessoa cai e, ao fazê-lo, estão, de novo, crucificando o Filho de Deus e o expondo à vergonha pública (v. 6). Terceiro, é impossível renovar essa pessoa para o arrependimento (v. 6a).
Analisemos estas três partes da situação.
1. Há bençãos e experiências religiosas (v. 4-5)
Ao analisarmos essas bênçãos e experiências religiosas, precisamos olhar para o pano de fundo que o autor de Hebreus está utilizando. A linguagem aqui não é acidental. Ela aponta diretamente para a geração do Êxodo, o povo de Israel no deserto — e além. O autor traça um paralelo assustador: aquela geração vivenciou os maiores milagres possíveis, teve as experiências espirituais mais elevadas, e, ainda assim, pereceu no deserto por incredulidade.
Vejamos como isso se aplica passo a passo:
Primeiro, eles foram “iluminados” (v. 4). O termo grego remete à orientação de Deus ao povo por meio da coluna de fogo (Êx 13.21; Ne 9.12). A luz divina brilhou sobre eles, dissipando as trevas e mostrando a direção. Na igreja, isso representa a mente iluminada, ou: esclarecida, pela verdade de Cristo — o qual é “a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina toda a humanidade.” (Jo 1.9, NAA). A pessoa compreende a doutrina, enxerga a veracidade do evangelho e recebe a instrução correta. Ela enxerga a luz, mas o seu coração não foi regenerado (cf. Hb 10.26-30).
Segundo, eles “provaram o dom celestial” (v. 4). O maná que Deus proveu no deserto era literalmente o alimento do céu (Êx 16.4; Sl 105.40). Todo o povo comeu dessa provisão divina. Da mesma forma, pessoas sentam-se nos cultos hoje e provam dos benefícios da comunidade da aliança. Elas participam da comunhão, usufruem do cuidado pastoral, participam das ordenanças e experimentam o conforto do ambiente cristão. Elas degustam a dádiva celestial, mas essa experiência não altera a natureza morta de suas almas.
Terceiro, “tornaram-se participantes do Espírito Santo” (v. 4). Isso não descreve a habitação interna do Espírito que sela o crente para a salvação (Ef 1.13; 4.30), mas uma operação externa e comum. A própria Escritura fornece os exemplos. Balaão participou do Espírito Santo a ponto de profetizar a verdade de Deus de forma inerrante (Nm 24.2), mas permaneceu no erro, amando “o prêmio da injustiça” (2Pe 2.15; Jd 11) e terminando condenado e morto por sua iniquidade (Nm 31.8; Js 13.22). O rei Saul é outro exemplo: foi tomado pelo Espírito para governar e profetizar (1Sm 10.6; 11.6), mas morreu rejeitado e amaldiçoado (1Cr 10.13-14). Portanto, é perfeitamente possível atuar na congregação, exercer dons, operar ministérios e milagres (Mt 7.22-23), e ser influenciado pelo Espírito Santo (Hb 6.4), sem jamais possuir a graça salvadora.
Quarto, “provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro” (v. 5). O verbo “provar” aqui indica que eles, de fato, experimentaram essas realidades. A “boa palavra de Deus” parece ser uma referência direta à boa nova, o evangelho que foi pregado à própria geração do deserto (cf. Hb 4.2 e 6). O relato histórico evidencia que, apesar de ouvirem e receberem a pregação dessa promessa divina, eles falharam em obedecer (Js 21.45; 23.15).
Juntamente com a pregação, eles experimentaram “os poderes do mundo vindouro”. Na época do êxodo, a palavra e o poder sobrenatural de Deus operaram combinados de maneira formidável para libertar o povo de Israel das mãos dos egípcios (Êx 3.18-20; 4.28-30; Nm 9.10-17). Esse exato padrão se repetiu nos dias dos apóstolos, pois a mensagem da salvação chegou até a igreja primitiva atestada por palavras e milagres visíveis (Hb 2.1-4).
Essa advertência é chocante, pois reside no fato de que uma pessoa pode sentar-se sob a pregação fiel do evangelho e presenciar o poder libertador de Deus operando grandes obras e milagres ao seu redor, e ainda assim ter o mesmo fim da geração do deserto: perecer na desobediência. A exposição à palavra e ao poder divino, por si só, não garante a salvação.
A conclusão do autor expõe a falsa segurança. Um indivíduo pode ter clareza doutrinária (iluminado), desfrutar do ambiente da igreja (provar o dom), atuar ativamente nos ministérios (participar do Espírito) e presenciar o poder de Deus operando em seu meio (provar a palavra e os poderes) — e, ainda assim, não ter sido regenerado. Mas nós estamos nos adiantando. Caminhemos…
2. Mas as pessoas caíram (v. 6)
Apesar de todas essas bênçãos e experiências (vs. 4-5), essas pessoas, então, “caíram” (v. 6).
Isto é, elas se afastaram de Cristo, do Espírito, da Palavra e da comunhão que as proporcionava a experiência dos poderes do mundo vindouro — a comunhão da igreja local. Essas pessoas — tal como Demas (cf. 2Tm 4.10) — viraram as costas para o valor dessas grandes realidades e buscaram outras coisas com o seu coração. O efeito dessa apostasia — o efeito desse afastamento, desse abandono, dessa deserção ou desse estado de rebelião — é crucificar novamente a Cristo e expô-lo à vergonha pública (v. 6b).
Por que isso é chamado de “recrucificação”?
John Piper apresenta dois motivos para que esse tipo de apostasia seja considerado uma nova crucificação de Cristo.
O primeiro motivo é que Cristo foi crucificado, a primeira vez, para tornar o seu povo puro e santo. Foi exatamente por isso que ele derramou o seu sangue. Hebreus 13.12 diz (NAA): “Por isso, também Jesus, para santificar o povo, pelo seu próprio sangue, sofreu fora da cidade.” Ele morreu para nos santificar. Ele morreu para nos tornar puros, santos e dedicados a ele (ver Hb 9.14; Tt 2.14). Portanto, quando viramos as costas para a pureza, a santidade e a devoção — que a sua cruz foi projetada para produzir —, nós dizemos “sim” à impureza, ao mundanismo e à incredulidade que o pregaram ali originalmente. Isso significa que o crucificamos novamente. E que o estamos crucificando enquanto permanecemos nessas práticas pecaminosas.
Há uma segunda razão pela qual esse tipo de queda é uma recrucificação de Cristo. Quando uma pessoa escolhe virar as costas para Cristo e volta para o caminho do mundo, para a soberania de sua própria vontade e para os prazeres passageiros desta vida, essa pessoa diz, na prática, que essas coisas valem mais do que Cristo. Essas práticas valem mais do que o amor, a sabedoria e o poder de Cristo, e mais do que tudo o que Deus promete ser para nós nele. E quando alguém diz isso por meio de suas escolhas, é o mesmo que declarar: “Eu concordo com os homens que crucificaram Jesus”. Afinal, o que poderia envergonhar mais a Cristo hoje do que ter alguém que provou a sua bondade, sabedoria e poder e, depois, disse: “Não, há algo melhor e mais desejável do que ele!”? Isso expõe Cristo à vergonha pública.
Uma coisa é um estranho à fé resistir a Cristo. Outra, bem diferente, é uma pessoa que esteve na igreja, teve clareza bíblico-doutrinária (foi iluminada), desfrutou do ambiente da igreja (provou o dom celestial), atuou ativamente nos ministérios (participou do Espírito) e presenciou o poder de Deus operando em seu meio (provou a Palavra e os poderes) — é algo completamente diferente essa pessoa afirmar, após todas essas bênçãos e experiências: “Acho que o que o mundo oferece é melhor do que Cristo”. Isso é estar “crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à zombaria”, algo muito pior do que qualquer pessoa de fora, que nunca provou a verdade, poderia fazer.
3. Para essas pessoas é impossível o arrependimento (v. 6)
Vimos uma ilustração disso na semana passada em Hebreus 12.16-17. Ali, encontramos um alerta semelhante ao deste trecho:
16E cuidem para que não haja nenhum impuro ou profano, como foi Esaú, o qual, por um prato de comida, vendeu o seu direito de primogenitura. 17Vocês sabem também que, posteriormente, querendo herdar a bênção, foi rejeitado, pois não achou lugar de arrependimento, embora, com lágrimas, o tivesse buscado. (NAA)
O arrependimento genuíno será rejeitado por Deus?
Não cometa o erro de pensar que Esaú se arrependeu sinceramente e foi rejeitado. Deus não rejeita o arrependimento genuíno. O texto diz claramente que ele não encontrou [em seu coração] lugar para o arrependimento. Em outras palavras, ele não conseguiu se arrepender. Ele estava tão endurecido (ver Hb 3.8, 15; 4.7) que clamava para que as coisas melhorassem em sua vida, mas, interiormente, não se submetia aos termos de Deus. Esaú era, como diz Hebreus 12.16, “impuro e profano”.
Esaú é uma ilustração do que o autor tem em mente em Hebreus 6.6 quando diz que é impossível renovar essa pessoa novamente para o arrependimento. Aqui está a perspectiva aterrorizante por trás de todos os avisos ou alertas deste livro para não andarmos à deriva, mas prestarmos atenção, considerarmos Jesus, exortarmos uns aos outros todos os dias e temermos a incredulidade e o descuido. Por quê? Existe algo realmente em jogo?
Existe a possibilidade de que você e eu — que acreditamos ser escolhidos, chamados e justificados — deslizemos para um processo lento de indiferença e endurecimento e, eventualmente, caiamos, rejeitemos a Cristo e o exponhamos à vergonha pública. Podemos, de fato, chegar a um ponto onde não há retorno, porque fomos totalmente abandonados por Deus. É isso que a palavra “impossível” significa no versículo 6. Oh, como isso deveria colocar você em uma busca urgente por misericórdia esta manhã!
Continua na parte 2…
S.D.G. L.B.Peixoto.
Mais episódios da série
Hebreus - A Superioridade de Cristo
Mais episódios da série Hebreus - A Superioridade de Cristo
Mais Sermões
Mais Séries
A falsa segurança espiritual
Pr. Leandro B. Peixoto