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09.08.2026

Senhor, vivifica-me

  • Pr. Leandro B. Peixoto
  • Série: Salmo 119 - Lâmpada Para os Pés e Luz Para o Caminho
  • Livro: Salmos

Salmo 119.153-160 (NAA)

ר Rexe
153Olha para a minha aflição e livra-me, pois não me esqueço da tua lei. 154Defende a minha causa e liberta-me; vivifica-me, segundo a tua promessa. 155A salvação está longe dos ímpios, pois não procuram os teus decretos. 156Muitas, SENHOR, são as tuas misericórdias; vivifica-me, segundo os teus juízos. 157São muitos os meus perseguidores e os meus adversários, mas eu não me desvio dos teus testemunhos. 158Vi os infiéis e senti desgosto, porque não guardam a tua palavra. 159Vê como amo os teus preceitos; vivifica-me, SENHOR, segundo a tua bondade. 160As tuas palavras são em tudo verdade desde o princípio, e cada um dos teus justos juízos dura para sempre.

Imagine um homem que já orou pela mesma coisa seis vezes neste salmo (vv. 25, 37, 40, 88, 107, 149). Seis vezes ele pediu a Deus: “vivifica-me”; ou: “dá-me vida”. E, mesmo assim, aqui está ele, pedindo de novo — não uma vez, mas três vezes mais só nesta estrofe: “vivifica-me”, “vivifica-me”, “vivifica-me” (vv. 154, 156, 159), chegando a nove pedidos no total. Isso não é fraqueza de fé. É a marca de um homem que sabe exatamente do que depende para continuar de pé — da vida que vem de Deus.

No hebraico, esse pedido carrega um peso que a nossa tradução mal alcança. O verbo é chayyeni — forma causativa do verbo “viver”. Não é simplesmente “viva” nem “viver” — é, literalmente, “faze-me viver”, “causa vida em mim”. E note: o salmista não está morto, pedindo para nascer. Davi está vivo, mas cambaleando — esmagado pela aflição, cercado por adversários, exausto de tanto resistir. O pedido não é para começar do zero. É para que a vida que já existe nele seja reerguida, revigorada, sustentada em pé. Não é um homem caído pedindo socorro pela primeira vez. É um homem que já foi levantado seis vezes e sabe exatamente a quem recorrer quando sente que vai cair de novo.

Davi está cercado — por aflição, por perseguidores, por gente que zomba abertamente da palavra de Deus. Mas ele não chega a este ponto do salmo desarmado. Na estrofe anterior, ele já havia dito algo decisivo: “Tu estás perto, SENHOR” (v. 151). E, como vimos na semana passada, é isso que muda tudo. Ele não pede “vivifica-me” torcendo para que Deus talvez esteja por perto e talvez o escute. Ele pede porque já sabe. Deus está perto — por isso ele ora: “vivifica-me”.

Repare também como as duas estrofes se fecham quase com as mesmas palavras. Ali (vv. 145-152): “todos os teus mandamentos são verdade… para sempre” (vv. 151-152). Aqui (vv. 153-160): “as tuas palavras são em tudo verdade desde o princípio… dura para sempre” (v. 160).

Davi começa e termina apoiado na mesma certeza — a palavra de Deus não falha. É sobre esse chão firme que ele constrói, nesta estrofe, o mesmo clamor três vezes: “vivifica-me”, “vivifica-me”, “vivifica-me” (vv. 154, 156, 159). Dá-me vida, SENHOR. Levanta-me. Sustenta-me nesta caminhada.

E o que mais impressiona não é apenas que ele repita o pedido — é o que ele coloca debaixo de cada pedido. Ele não ora no vazio, torcendo. Ele ora apoiado: primeiro na promessa de Deus (v. 154), depois no decreto de Deus (v. 156), por fim na bondade de Deus (v. 159). Três fundamentos diferentes para o mesmo clamor — como um cordão de três dobras que não se rompe.

É esta a chave de toda a estrofe: quando o crente se sente enfraquecido pela aflição de adversários que rejeitam a palavra de Deus, ele pode orar com confiança para que Deus o vindique e o vivifique. É essa oração que vamos acompanhar hoje, em três movimentos.

1. Vivifica-me segundo a tua promessa (vv. 153-155)

Observe o começo do versículo 153: “Olha para a minha aflição”. Agora veja: em apenas dois versículos (vv. 153-154), Davi empilha cinco verbos, um atrás do outro, quase sem respirar: olha, livra, defende, liberta, vivifica. Não é o tom de quem está fazendo um pedido educado. É o tom de quem está afogando e grita cada palavra que ainda consegue gritar.

Cada verbo pede algo concreto. “Olha” — que Deus volte os olhos para o que Davi está sofrendo, que não trate sua dor como algo distante ou irrelevante. “Livra” e “liberta” — que Deus o tire de fato da situação em que está preso, não apenas que sinta pena de longe. “Defende” — que Deus assuma o processo, tome o lado de Davi diante de quem o acusa injustamente. E “vivifica” — o pedido mais profundo de todos — que Deus não apenas resolva o problema externo, mas restaure a própria força de Davi para continuar vivendo e lutando. Cinco pedidos, um só clamor: que Deus veja, aja, e sustente.

Repare no segundo verbo do versículo 154: “defende a minha causa”. No hebraico, essa expressão vem direto de um tribunal — é o que se diz a um advogado que assume o seu processo. Davi não está pedindo apenas compaixão. Está pedindo que Deus se levante como quem toma a defesa de um réu.

É impossível ler isso sem que o coração se adiante para além do próprio salmo — para Cristo Jesus, “quem morreu, ou melhor, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós” (Rm 8.34), nosso Advogado junto ao Pai, “Jesus Cristo, o Justo” (1Jo 2.1). Davi ainda não conhecia esse nome. Mas já sabia, pela fé, que precisava de alguém assim.

Note bem onde Davi apoia o pedido. Ele não diz “livra-me porque sou melhor do que os meus perseguidores”. Ele diz: “pois não me esqueço da tua lei” (v. 153) — e depois: “vivifica-me, segundo a tua promessa” (v. 154). A base do pedido não é o currículo de Davi. É a palavra que Deus mesmo empenhou.

Mas de qual promessa Davi está falando? É fácil ouvir “segundo a tua promessa” e pensar logo em conforto, em prosperidade, numa vida sem aflição alguma… Mas não é disso que ele fala.

Deus já havia dito a Davi, pelo profeta Natã: “Estive com você por onde quer que você andou e eliminei todos os seus inimigos diante de você. Engrandecerei o seu nome, como só os grandes têm na terra.” (2Sm 7.9). E o Salmo 89, ao relembrar essa mesma aliança, canta: “A minha fidelidade e a minha bondade o acompanharão, e em meu nome crescerá o seu poder.” (Sl 89.24).

Deus não prometeu a Davi um trono sem guerra, nem um reinado sem traição. Prometeu a sua presença e a sua fidelidade. Davi não está reivindicando conforto — está reivindicando isso: presença, fidelidade, bondade e permanência no trono.

Por isso ele lembra a Deus não os seus próprios méritos, mas a própria promessa que Deus empenhou — como quem diz: “SENHOR, tu disseste que estarias comigo. Eu só peço que sejas fiel ao que já prometeste — não para me tirar da aflição agora, mas para me manter de pé dentro dela.”

E isso muda tudo na forma como oramos num dia ruim. Porque, se a nossa oração dependesse do nosso desempenho recente, ninguém teria coragem de orar quando falha. Mas Davi ensina outra coisa: quanto mais fraco você se sente, mais deveria correr para a promessa — não a promessa de que a dor vai sumir instantaneamente, mas a de que Deus permanece fiel, e sustenta a vida de quem se apoia nele mesmo dentro da aflição.

Agora NOTE O CONTRASTE entre Davi e os que não têm promessa. Depois de dois versículos de súplica intensa, o versículo 155 muda de tom por completo: “A salvação está longe dos ímpios, pois não procuram os teus decretos.”

Davi para de pedir por um instante e olha ao redor — para os mesmos homens que o perseguem, os mesmos que zombam da palavra de Deus — e enxerga a condição real deles.

Não é apenas que a salvação demore para chegar até os ímpios. É que ela está longe. E o motivo não é arbitrário: “pois não procuram os teus decretos”. Eles não estão apenas desinformados; eles não buscam. A distância não é geográfica, é de direção — eles caminham para o lado oposto de onde a salvação está.

E aqui está o que este versículo revela sobre os dois primeiros: Davi só pode pedir “vivifica-me segundo a tua promessa” porque ele está do lado certo dessa distância. Ele não se esqueceu da lei (v. 153); ele busca os decretos de Deus. É justamente essa diferença — buscar ou não buscar — que separa quem pode clamar com confiança de quem clama, se é que clama!, no vazio.

MAS CUIDADO AQUI. Este versículo não é uma licença para olhar de cima para quem ainda está longe de Deus. Se você conhece a proximidade de Deus que Davi já declarou na estrofe anterior — “Tu estás perto, SENHOR” (v. 151) — você sabe que essa proximidade não é mérito seu. Foi dada. E se foi dada a você, o versículo 155 não deveria endurecer o seu coração contra quem ainda está longe; deveria quebrá-lo. Porque há gente ao seu redor, hoje, para quem a salvação também parece distante — não porque Deus a escondeu, mas porque eles ainda não pararam para buscá-la. E a Escritura nos convoca, diante disso, não ao desprezo, mas ao resgate — nas palavras de Judas (vv. 20-23):

20Mas vocês, meus amados, edificando-se na fé santíssima que vocês têm, orando no Espírito Santo, 21mantenham-se no amor de Deus, esperando a misericórdia do nosso Senhor Jesus Cristo, que conduz para a vida eterna. 22E tenham compaixão de alguns que estão em dúvida; 23salvem outros, arrebatando-os do fogo; quanto a outros, sejam também compassivos, mas com temor, detestando até a roupa contaminada pela carne.

Davi ora “vivifica-me” porque sabe que está do lado da promessa. E cada um de nós, aqui hoje, deveria se perguntar: estou buscando os decretos de Deus, ou apenas assumindo que a salvação está perto porque cresci ouvindo falar dela?

2. Vivifica-me segundo o teu decreto (vv. 156-158)

Davi já pediu “vivifica-me” apoiado na promessa de Deus (v. 154). Agora, dois versículos depois, ele pede de novo — mas muda o fundamento. Se antes o apoio era a palavra que Deus empenhou em aliança, agora o apoio é outra coisa: o modo como Deus julga, o seu decreto, a sua forma constante de agir com justiça e compaixão. Versículo 156: “Muitas, SENHOR, são as tuas misericórdias; vivifica-me, segundo os teus juízos.”

E o que são mesmo esses “juízos”? No hebraico, é outra palavra da esfera jurídica — as decisões, as sentenças, o modo como Deus julga e governa com justiça, os decretos. Poderia soar frio, distante, como um tribunal impessoal. Mas veja como Davi o introduz: não com medo do juiz, mas com admiração pela sua ternura — “muitas são as tuas misericórdias”.

Para Davi, o decreto de Deus não é ameaça. É abrigo. Ele sabe que, quando Deus julga com justiça, é justamente essa justiça que garante que a misericórdia não seja capricho, mas caráter. Deus não é misericordioso por impulso ocasional; ele é misericordioso porque essa é a decisão constante, o padrão fixo de como ele trata quem se refugia nele.

Por isso Davi não apela ao próprio esforço aqui. Ele não diz “vivifica-me porque tenho me esforçado bastante”. Ele diz, mais uma vez: olha para quem tu és, não para o que eu fiz. A misericórdia de Deus é o segundo fundamento de sua oração — tão firme quanto a promessa do primeiro.

Mas o decreto de Deus não elimina a hostilidade ao redor de Davi — ele a atravessa. Versículo 157: “São muitos os meus perseguidores e os meus adversários, mas eu não me desvio dos teus testemunhos.”

Repare no “mas”. Muitos adversários, MAS nenhum desvio.

Não é que Davi não sinta a pressão — é que ele decide, apesar dela, permanecer no mesmo caminho. E isso só é possível porque ele já sabe, do versículo anterior, que o decreto de Deus é misericordioso. Um homem que confia no caráter de Deus resiste melhor à pressão dos homens.

No versículo seguinte, a hostilidade muda de forma. Já não é ataque direto — é resultado de sua leitura do mundo que o cerca. Versículo 158: “Vi os infiéis e senti desgosto, porque não guardam a tua palavra.” Davi olha para quem trai, quem não cumpre o que prometeu, e sente algo mais forte do que tristeza — quase repulsa, indignação diante da traição à palavra de Deus.

E note bem a razão dessa reação: não é porque esses homens o ofenderam pessoalmente. É porque desprezaram a palavra de Deus. Davi consegue distinguir entre ser atacado e ver Deus ser desonrado — e é o segundo que realmente o incomoda.

Isso é um retrato maduro de fé: alguém que não se abala apenas quando é ferido, mas que se entristece quando Deus é desprezado, mesmo quando isso não o atinge pessoalmente. É esse tipo de coração — fiel em meio à pressão, sensível à glória do nome de Deus — que Davi apresenta a Deus como base para pedir, mais uma vez: vivifica-me segundo o teu decreto, segundo o teu plano.

3. Vivifica-me segundo a tua bondade (vv. 159-160)

Davi já pediu “vivifica-me” apoiado na promessa (v. 154) e no decreto de Deus (v. 156). Agora, pela terceira e última vez nesta estrofe, ele pede de novo — e desta vez o fundamento é o mais pessoal de todos. Versículo 159: “Vê como amo os teus preceitos; vivifica-me, SENHOR, segundo a tua bondade.”

Repare no verbo “vê”. Não é a primeira vez que Davi usa essa palavra nesta estrofe. No versículo 153, ele já havia dito: “Olha para a minha aflição”. Agora, no versículo 159, ele pede algo diferente: “vê como amo”. Antes, ele queria que Deus olhasse para sua dor. Agora, quer que Deus olhe para o seu afeto.

E note bem o que ele não diz. Ele não diz “vê como cumpro os teus preceitos” ou “vê como obedeço perfeitamente”. Ele diz: vê como amo. Davi sabe que sua obediência é falha — é o mesmo homem que, mais adiante, neste mesmo salmo, vai confessar, concluindo este salmo: “Ando errante, como ovelha perdida” (v. 176). Mas o amor, esse ele pode apresentar a Deus sem hesitação, porque não depende de desempenho perfeito, depende apenas de ser real. E é: “Vê como amo os teus preceitos” (v. 159).

Isso é bom para nós. Porque, se Deus só ouvisse quem cumpre perfeitamente, nenhum de nós teria coragem de orar. Mas Davi nos ensina que o que Deus busca primeiro não é performance, é amor genuíno — o tipo de amor que, mesmo falhando em ação, continua se voltando para Deus e para a sua palavra.

E é sobre esse amor que Davi apoia o terceiro “vivifica-me”  — não na sua própria bondade, mas na bondade de Deus. Ele não está dizendo “vivifica-me porque eu sou bom”. Está dizendo: “vivifica-me segundo a tua bondade” (v. 159) — porque a bondade que sustenta essa oração não é a de Davi, é a de Deus mesmo.

A estrofe termina sem mais nenhum pedido.

Depois de nove “vivifica-me” ao longo do salmo até aqui, Davi encerra com uma afirmação, não com uma súplica. Versículo 160: “As tuas palavras são em tudo verdade desde o princípio, e cada um dos teus justos juízos dura para sempre.”

É como se ele dissesse: já pedi tudo o que precisava pedir. Agora só resta descansar naquilo que já sei. E o que ele sabe é isto: a palavra de Deus é verdadeira do começo ao fim — não parcialmente verdadeira, não verdadeira só em alguns capítulos, mas verdade “desde o princípio” e “para sempre”.

Essa é a base última de toda a estrofe. A promessa em que Davi se apoiou (v. 154) só vale alguma coisa porque é verdadeira. O decreto que o sustentou (v. 156) só é confiável porque dura para sempre. A bondade que ele reivindicou (v. 159) só tem poder porque não muda com o tempo. Tudo o que Davi pediu nesta estrofe depende, no fim, desta única certeza: a palavra de Deus não falha, nem no início, nem no fim, nem em nenhum ponto no meio.

E aqui a estrofe nos entrega mais do que uma lição sobre a Bíblia — nos entrega uma lição sobre o próprio Deus. A Palavra é verdadeira, pois quem a pronuncia é a própria verdade.

Séculos depois deste salmo, o próprio Filho de Deus diria a seus discípulos: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14.6). Toda promessa, todo decreto, toda bondade que Davi invocou nesta estrofe encontra, em Jesus, não apenas uma confirmação — encontra um rosto.

A oração que ainda precisamos fazer

Chegamos ao fim da estrofe Rexe, mas não ao fim do clamor. Vimos Davi pedir “vivifica-me” três vezes — apoiado na promessa (v. 154), no decreto (v. 156), na bondade de Deus (v. 159) — e fechar tudo com a certeza de que a palavra de Deus é verdade do princípio ao fim (v. 160).

Lembra da chave que anunciamos no início? Quando o crente se sente enfraquecido pela aflição de adversários que rejeitam a palavra de Deus, ele pode orar com confiança para que Deus o vindique e o vivifique. Foi exatamente isso que vimos, verso a verso: um homem atribulado, mas não angustiado; perplexo, mas não desanimado; perseguido, mas não abandonado; derrubado, mas não destruído; pressionado, mas nunca sem fundamento para orar.

E talvez você esteja aqui hoje em algum desses lugares. Talvez esteja na aflição do versículo 153, esperando que Deus olhe para o seu caso. Talvez esteja cercado de adversários, como no versículo 157, tentado a se desviar só para aliviar a pressão. Ou talvez esteja, como no versículo 159, precisando lembrar que o que Deus busca em você não é performance perfeita, mas amor sincero.

Seja qual for o seu lugar nesta estrofe, o remédio é o mesmo — é suplicar: vivifica-me, Senhor. Não porque eu mereça. Não porque tenha cumprido tudo direito. Mas porque tu prometeste, porque teu caráter é justo e compassivo, porque tua bondade não muda com o tempo.

E há algo maior ainda sustentando essa oração. A promessa que Davi invocou, o decreto que ele confiou, a bondade que ele reivindicou — tudo isso encontrou seu cumprimento definitivo em Cristo, que morreu e ressuscitou por nós. Por isso Paulo pôde escrever o que Davi só pressentia: nem tribulação, nem angústia, nem a perseguição “poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.35-39).

A vida que Davi pedia nove vezes, nós já a recebemos em Cristo. E, mesmo assim, continuamos precisando pedir: Senhor, vivifica-me. Hoje. De novo. Até o dia em que essa vida for, enfim, plena e eterna.

A fonte da vida

E é justamente aqui que o Novo Testamento nos ajuda a entender de onde vem essa vida. O apóstolo Pedro escreve que fomos gerados de novo “não de semente corruptível, mas de semente incorruptível, por meio da palavra de Deus, viva e permanente” (1Pe 1.23).

Tiago acrescenta que esse novo nascimento não parte de nós: foi “segundo a sua própria vontade” que Deus “nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas” (Tg 1.18).

O novo nascimento — a vida que Davi tanto suplicava — não vem de nosso esforço ou de nossa vontade, mas da vontade de Deus, operando por meio de sua palavra. A mesma palavra que Davi guardava, meditava e amava era, sem que ele plenamente soubesse, a semente daquela vida que ele buscava — e o começo de uma nova criação que Deus, em sua soberania, decidiu inaugurar.

Por isso, pedir “vivifica-me, Senhor” não é apenas pedir alívio ou ânimo passageiro: é reconhecer que só a palavra de Deus gera e sustenta vida verdadeira — a mesma palavra que, plena, se fez carne e habitou entre nós.

Como ser vivificado

A forma de Deus nos vivificar — nós já vimos isto aqui neste salmo — é pela palavra: “O que me consola na minha angústia é isto: que a tua palavra me vivifica” (Sl 119.50). Ser vivificado, então, não é um sentimento que caia do céu sem motivo. É o fruto de uma palavra conhecida, lida, guardada.

E é a mesma resposta para a outra pergunta que ficou no ar: como amar a palavra de Deus como Davi amou? Porque não dá para pedir “vivifica-me segundo a tua bondade” (v. 159) sem primeiro conhecer essa bondade — e não há como conhecê-la senão na própria palavra que a revela.

Amar a Bíblia e ser vivificado por Deus não são duas coisas separadas: são a mesma coisa, vista de dois lados.

Por isso a pergunta prática desta noite é: como cultivamos esse amor? Como ser vivificado por Deus? Não há atalho. (1.) É lendo a Bíblia todos os dias, não só quando sobra tempo. (2.) É lendo de forma organizada, não aos pedaços aleatórios. (3.) É lendo de ponta a ponta, sem pular as partes difíceis. (4.) É lendo com o coração aberto, não só com a mente informada. E (5.) é lendo em oração, pedindo ao mesmo Deus que a escreveu que também a explique e a aplique em nós.

S.D.G. L.B.Peixoto.

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