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12.07.2026

Justiça que permanece

  • Pr. Leandro B. Peixoto
  • Série: Salmo 119 - Lâmpada Para os Pés e Luz Para o Caminho
  • Livro: Salmos

Salmo 119.137-144 (NAA)

צ Tsadê
137Justo és tu, SENHOR, e retos são os teus juízos. 138Os teus testemunhos, tu os ordenaste com retidão e com absoluta fidelidade. 139O meu zelo me consome, porque os meus adversários se esquecem da tua palavra. 140Puríssima é a tua palavra; por isso, o teu servo a estima. 141Sou pequeno e desprezado, mas não me esqueço dos teus preceitos. 142A tua justiça é justiça eterna, e a tua lei é a própria verdade. 143Sobre mim vieram tribulação e angústia, mas os teus mandamentos são o meu prazer. 144Eterna é a justiça dos teus testemunhos; dá-me entendimento, e viverei.

Há palavras que usamos com tanta frequência que esquecemos o seu peso. “Justiça” é uma delas. Falamos dela quando cobramos o governo, quando reclamamos de um patrão, quando brigamos com um irmão por causa de uma herança, quando choramos diante de uma sentença que nos parece injusta ou de um crime que nunca foi punido.

O Brasil inteiro vive, hoje, sedento por justiça — nas manchetes, nos tribunais, nas redes sociais, onde cada um grita a sua versão do que é certo. E, no entanto, quanto mais gritamos por justiça, menos parecemos concordar sobre o que ela realmente é.

O que é justiça, afinal?

O dicionário vai dizer que justiça é a qualidade do que está em conformidade com o que é direito. Mas o que é direito? Ora, continua o dicionário, direito é o que segue a lei e os bons costumes — o justo, o correto, o honesto.

Qual lei?

O que são os bons costumes?

O que é, de fato, o correto?

Percebem, gente? O dicionário não resolve o problema — apenas o empurra adiante. De justiça, ele nos manda para o direito; do direito, para a lei e os bons costumes; e ali, a explicação simplesmente para, sem nunca tocar o chão. Isso significa que justiça não é um ponto de partida — é uma qualidade, e toda qualidade pertence a alguém.

Não existe “reto” sem alguém que seja a régua; não existe “justo” sem alguém que seja a fonte daquilo que chamamos de justiça. A pergunta certa, então, não é “o que é justiça”, mas: de quem é essa qualidade? A quem ela pertence, originalmente?

Quando os cristãos estudam a doutrina de Deus, uma das categorias que investigamos são os seus atributos. Como bem diz Timothy George, teólogo batista americano, quando perguntamos “Como é Deus?”, falamos justamente dos atributos divinos — também chamados de perfeições, qualidades, virtudes e predicados. Os atributos caracterizam a natureza e o caráter de Deus.

Os atributos de Deus são numerosos demais para listar, diz George, mas incluem infinitude, imutabilidade, eternidade, santidade, sabedoria, amor — e justiça. É justamente sobre este atributo que o salmista se debruça hoje, com uma intensidade que não encontramos em nenhuma outra estrofe do Salmo 119.

Esta estrofe tem uma marca que a diferencia de quase todas as outras: cada um dos oito versículos, no hebraico original, começa com a letra tsadê — porque a palavra hebraica para “justo”, tsedeq, começa exatamente com esse som.

Alguma forma dessa palavra se repete diversas vezes: justo és tu (v. 137), retos são os teus juízos (v. 137) teus testemunhos são retos (v. 138), tua justiça é justiça eterna (v. 142), a justiça dos teus testemunhos é eterna (v. 144).

E Wayne Grudem, outro teólogo batista, nos dá a resposta que o dicionário não conseguiu dar: a justiça de Deus significa que ele sempre age de acordo com o que é certo, e é ele mesmo o padrão final do que é certo. Não é uma régua que Deus consulta fora de si mesmo — ele é a própria régua; ele é a própria retidão. Encontramos, enfim, a raiz de onde a justiça é fruto: Deus, o SENHOR; o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.

E há algo mais que chama atenção na estrofe tsadê: em meio a oito versículos de confissão e testemunho pessoal, há uma única oração — e ela vem só no final, no versículo 144.

Só depois de estabelecer quem Deus é, o salmista ousa pedir alguma coisa. E o que ele pede não é alívio, nem vingança contra os adversários. Ele pede entendimento. Diz Davi, no versículo 144: “Eterna é a justiça dos teus testemunhos; dá-me entendimento, e viverei.” Uma oração que bem poderia ser a nossa, sempre que a injustiça bater à porta — na política do nosso país, na empresa onde trabalhamos, ou dentro da nossa própria casa.

Por isso, caminharemos hoje verso a verso por esta estrofe, em três movimentos (137-138, 139-141, 142-144), buscando responder a uma só pergunta: o que sustenta um homem, uma família, uma igreja ou um país, quando a injustiça parece vencer?

A resposta do salmista é uma só, sob diferentes luzes: a justiça de Deus permanece. Ela nasce do seu próprio caráter (vs. 137-138), desperta em nós zelo, amor e fidelidade (vs. 139-141), e, por fim, vivifica quem sofre (vs. 142-144). É esse o caminho que o texto nos convida a trilhar: Justiça que Permanece.

1. A justiça permanece porque nasce do próprio caráter de Deus

137Justo és tu, SENHOR, e retos são os teus juízos. 138Os teus testemunhos, tu os ordenaste com retidão e com absoluta fidelidade.

Então, de quem é a justiça? A quem ela pertence? O salmista responde sem rodeios: “Justo és tu, SENHOR” (v. 137). Escrito assim, SENHOR, em letras maiúsculas, introduz-se o nome pessoal de Deus, YAWEH (em hebraico: יהוה) — aquele que se revelou a Moisés na sarça, aquele que fez aliança com Abraão e seus descendentes. Não é um Deus genérico. É Alguém que se conhece pelo nome.

E o que se diz dele aqui é definitivo: justo és tu. Não “ages com justiça, às vezes”. Justo és tu — no próprio ser, não apenas nas ações. A justiça de Deus não é uma conduta que ele escolhe seguir num dia e noutro não; é a substância do que ele é.

Moisés já cantava isso antes de Davi: “Eis a Rocha! Suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são juízo. Deus é fidelidade, e nele não há injustiça; é justo e reto.” (Dt 32.4). E Paulo dirá que essa mesma justiça se revela agora no evangelho (Rm 1.16-17) — não é justiça nova, é a mesma justiça eterna, revelada primeiramente no Sinai e, agora, manifesta na cruz de Cristo.

Se a justiça de Deus fosse uma política adotada, poderíamos perguntar se, um dia, ele mudaria de política. Mas se a justiça é o seu próprio ser, esperar que Deus seja injusto seria esperar que Deus deixasse de ser Deus. Fora dele, não existe uma única partícula de justiça em lugar nenhum — nem nos tribunais, nem nas leis dos homens, nem nas nossas consciências, tão bem treinadas para justificar os nossos erros e condenar os alheios.

A justiça, aliás, não é uma ideia popular na nossa cultura — e, por isso mesmo, poucos entendem realmente o que ela seja. James Montgomery Boice, expondo este texto, disse com propriedade que quem se importa com a justiça precisa estudar a Bíblia. Não há outro lugar onde ela esteja delineada e definida com tanta clareza.

No ano de 602, o imperador de Constantinopla, Maurício, foi deposto num golpe militar liderado por um oficial chamado Focas, e levado à execução depois de assistir à morte dos próprios filhos, um a um, diante de si. Não pela justiça de um tribunal — mas pela violência de uma usurpação. Conta a tradição bizantina que, a cada golpe, repetia o versículo 137 do Salmo 119: “Justo és tu, SENHOR, e retos são os teus juízos.”

Ninguém precisa ter atravessado uma tragédia dessa dimensão para entender o que está em jogo: se essa confissão se sustenta ali, no fundo mais escuro que um pai pode chegar — sofrendo por mãos injustas, não por culpa própria — ela sustenta qualquer um de nós, em qualquer dor que estejamos carregando hoje.

Mas de onde vem essa sustentação? O próprio versículo 137 responde, na frase complementar. Tendo dito: “Justo és tu, SENHOR, — Davi emenda: — e retos são os teus juízos.” Davi não está falando só de sentenças judiciais — está falando de toda a forma como Deus governa o mundo: suas decisões providenciais, as promessas que cumpre, as ameaças que também cumpre. Cada veredito que sai da boca de Deus é reto, porque o coração de onde ele sai é reto.

Pense em quem já se sentou diante de uma sentença judicial e sentiu, na pele, que a justiça deste mundo falhou. Pense na mãe que enterrou um filho vítima de bala perdida e nunca viu ninguém pagar por isso. Pense no trabalhador esmagado por um sistema que não o protege, e no empresário brasileiro que não consegue prosperar sob tanto peso de impostos e burocracia. Pense na impunidade que se acumula entre a classe política, escândalo depois de escândalo, sem que quase ninguém pague de fato. Os tribunais dos homens falham. As leis mudam com o vento da política. Mas há um juízo que nunca falhou, e nunca falhará: o de Deus. Deus é justo e retos são os seus juízos — retos são os seus decretos, reta é a sua providência, retos são os seus caminhos (v. 137).

O versículo seguinte aprofunda a mesma verdade, agora voltada para a Palavra: “Os teus testemunhos, tu os ordenaste com retidão e com absoluta fidelidade” (v. 138). Deus é justo em quem é; por isso, é justo no que revela. A Bíblia Sagrada é inteiramente confiável porque foi inspirada por Deus (2Tm 3.16) — um Deus justo não poderia inspirar senão o que é justo.

Duvidar da Bíblia, então, nunca é exercício neutro de crítica literária. É duvidar do próprio caráter de Deus.

E esse duvidar tem um padrão bem conhecido, ontem e hoje: primeiro se ergue um critério de fora da Escritura — a cultura do momento, o sentimento pessoal, um “espírito de Jesus” reinventado à nossa imagem — e depois se usa esse critério para julgar a própria palavra de Deus.

É assim que se ouve, cada vez com mais naturalidade, que uma parte da Bíblia já não se aplica, ou que contém erro, ou que precisa ser atualizada, ou que foi escrita para outra cultura, ou que não tem o espírito de Jesus.

Mas vale indagar: essa afirmação não acaba separando a Palavra do caráter de quem a revelou? Se ela reflete fielmente um Deus imutavelmente justo, não pode ter validade parcial, como se algumas partes fossem mais “Deus”, ou mais “Jesus”, do que outras. Afinal, atestou Davi, inspirado por Deus (v. 138): “Os teus testemunhos, tu os ordenaste com retidão e com absoluta fidelidade.”

E se alguém perguntar onde essa justiça, onde essa retidão, onde esses testemunhos podem ser vistos em carne e osso, o apóstolo João responde: quando pecamos, “temos Advogado [prefiro ler: Intercessor; alguém do nosso lado, intercedendo por nós;  do grego: parakletos] junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo.” (1Jo 2.1). Se você quer conhecer a justiça de Deus, olhe para Jesus.

Há algo profundamente estável nisso tudo que vimos até aqui — na confissão de Maurício diante da morte dos filhos, na justiça que nunca falha mesmo quando a dos tribunais falha, na Palavra que permanece justa mesmo quando tentam esvaziá-la. Esse algo é simples: Deus é justo, e reto é o seu juízo — não porque somos capazes de dar prova disso, mas porque Deus o é e ponto, antes e independentemente de qualquer prova.

E é isso que sustenta quem vive cercado de injustiça, seja ela grande e barulhenta como as manchetes dos jornais e das redes sociais, seja pequena e silenciosa como um lar onde ninguém pede desculpas, ou uma empresa que nunca reconhece o erro.

Antes de entendermos o motivo de qualquer aflição, já temos onde nos apoiar. Essa confissão não resolve a injustiça ao nosso redor. Mas nos dá o único chão firme onde ficar de pé, enquanto o problema não se resolve — e é exatamente esse chão que o salmista vai pisar com mais firmeza ainda, nos versículos que seguem.

2. A justiça de Deus permanece — e por isso desperta zelo, amor e fidelidade

139O meu zelo me consome, porque os meus adversários se esquecem da tua palavra. 140Puríssima é a tua palavra; por isso, o teu servo a estima. 141Sou pequeno e desprezado, mas não me esqueço dos teus preceitos.

Deus não nos deu sua Palavra justa apenas para contemplação distante. Ele a deu para ser amada, guardada, vivida pela fé — e o salmista mostra, em três movimentos, o que essa Palavra desperta em quem a leva a sério.

“O meu zelo me consome, porque os meus adversários se esquecem da tua palavra” (v. 139). Repare: o salmista não diz que seus inimigos o perseguem, o caluniam, ou tramam contra ele — embora fizessem tudo isso. O que o consome não é o que fazem contra ele. É o que fazem contra Deus. Eles se esquecem da Palavra. E isso consome Davi por dentro. Ele ferve de zelo.

Aqui cabe uma pergunta desconfortável. Somos, em geral, extremamente sensíveis quando alguém erra contra nós — uma palavra maldosa, uma injustiça pessoal, e já nos inflamamos de indignação. Mas quando a Palavra de Deus é ridicularizada, distorcida, ou simplesmente ignorada diante de nós, quantas vezes sentimos alguma coisa? Calvino já notava essa desproporção: somos delicados demais ao suportar ofensas contra nós mesmos, e superficiais demais diante das ofensas mais graves cometidas contra Deus.

Esse zelo, aliás, não é exclusividade de Davi. Séculos depois, os discípulos veriam Jesus expulsar os vendilhões do templo, e se lembrariam do que estava escrito: “O zelo da tua casa me consumirá.” (Jo 2.17) — quase a mesma frase de Salmo 119.139. Se alguém já sentiu esse zelo em plenitude, foi o próprio Filho de Deus.

E de onde vem esse zelo, senão do amor? “Puríssima é a tua palavra; por isso, o teu servo a estima” (v. 140). O amor de Davi pela Palavra não nasce de obrigação — nasce da pureza que ele enxerga nela, como quem reconhece ouro puro em meio a tanta liga barata. E é preciso dizer com honestidade: seria hipocrisia condenar quem despreza a palavra de Deus, se nós mesmos não estivermos unidos a ela pelos laços do amor. Não adianta postar indignação, se em casa a Bíblia junta poeira na estante.

Jesus disse bem: “O ser humano não viverá só de pão, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.” (Mt 4.4). A Escritura não é apenas regra ou lei — é alimento, é vida, é aquilo que Davi ama como quem ama a própria existência.

E esse amor é testado precisamente quando custa caro. “Sou pequeno e desprezado, mas não me esqueço dos teus preceitos” (v. 141). Aos olhos do mundo, quem ama e vive pela Palavra de Deus é, muitas vezes, tratado como tolo, atrasado, ingênuo. Ninguém aqui precisa de muita imaginação para sentir isso: o cristão que é o único crente, na família ou na faculdade, que ainda acredita que existe verdade absoluta e que sustenta que Jesus Cristo é o único caminho para Deus; o adolescente, o jovem, quem quer que seja, que é motivo de piada por não seguir o script do mundo; o profissional que perde oportunidades por recusar um acordo que sabe ser errado.

Davi já vivia isso — pequeno e desprezado — e, ainda assim, não esquecia os preceitos de Deus. Não porque fosse mais forte que os outros, mas porque sabia, como ensina a Escritura em outro lugar, que não estava buscando o favor dos homens, e sim o de Deus (Gl 1.10).

E há algo mais: às vezes é precisamente quando somos rebaixados, desprezados, esvaziados de qualquer vantagem terrena, que aprendemos que nossa felicidade nunca esteve neste mundo — e que a fé genuína não é aquela que serve a Deus só na fartura, e o abandona na escassez. Jesus mesmo repreendeu quem o buscava só pelo pão que enchia a barriga, e não pelo que ele realmente oferecia — a si mesmo como o pão da vida (Jo 6.26).

A pergunta que o versículo 141 nos deixa é simples e direta: sua fidelidade a Deus resiste quando ela custa alguma coisa, ou só existe enquanto for conveniente?

Zelo, amor, fidelidade — não são três virtudes soltas, competindo entre si. São uma só resposta, a mesma resposta, a uma só Palavra que permanece justa — a palavra de Deus, não importa o que o mundo diga ou que o mundo, ainda que silenciosamente, cobre um alto preço.

3. A justiça de Deus permanece — e por isso vivifica quem sofre

142A tua justiça é justiça eterna, e a tua lei é a própria verdade. 143Sobre mim vieram tribulação e angústia, mas os teus mandamentos são o meu prazer. 144Eterna é a justiça dos teus testemunhos; dá-me entendimento, e viverei.

Tudo neste mundo quebrado se desgasta. Contratos vencem, promessas políticas se esquecem no dia seguinte à eleição, amizades e casamentos (até casamentos!) que pareciam eternos se desfazem. Mas Isaías já dizia: a erva seca, a flor cai — mas a palavra do nosso Deus permanece para sempre (Is 40.8). É essa mesma permanência que o salmista retoma aqui, agora com um acento ainda mais forte.

“A tua justiça é justiça eterna, e a tua lei é a própria verdade” (v. 142). Não é apenas justiça hoje — é justiça que não expira. Enquanto todas as demais normas humanas de vida, por mais atraentes que pareçam, não passam de sombra que logo se desfaz, a lei de Deus permanece firme, porque é a expressão de um Deus que não muda. E há mais: essa mesma justiça um dia julgará cada um de nós — não como ameaça a temer sem esperança, mas como certeza que deveria nos levar, hoje, a buscar refúgio Naquele que a cumpriu perfeitamente em nosso lugar: Jesus Cristo, o Justo.

E é exatamente aqui que o texto vira. Porque Davi não fala dessa eternidade como quem discute teologia à distância — ele fala como quem está sofrendo agora: “Sobre mim vieram tribulação e angústia, mas os teus mandamentos são o meu prazer” (v. 143). Note o verbo: vieram. Não foi ele que procurou o sofrimento — ele o encontrou, ou melhor, foi encontrado por ele, como um caçador encurrala a presa.

Isso é mais do que o salmista já havia dito. No versículo 141, Davi apenas afirmava que servia a Deus com reverência, apesar do tratamento duro que recebia. Agora, angustiado e atormentado, ele vai além: encontra na lei de Deus não apenas resignação, mas o mais suave prazer — um prazer que não apenas modera a amargura do sofrimento, mas a tempera com uma doçura que só quem já esteve ali consegue reconhecer.

Fica, então, uma pergunta, não como cobrança, mas como espelho sincero: você já encontrou mais alegria em ser santificado do que tristeza em ser disciplinado? Já sentiu, no meio da sua própria tribulação — seja ela um diagnóstico, uma demissão, uma traição dentro de casa, ou a injustiça silenciosa que ninguém mais enxerga além de você — já sentiu no meio disso tudo que a palavra de Deus, de alguma forma, adoça o que costuma só amargar?

Essa é a marca de quem pertence a Cristo: não a ausência de dor, mas a presença de um prazer que a dor não consegue apagar — mas aguçar.

Foi lembrado, pelo saudoso pregador presbiteriano James Montgomery Boice, um velho costume entre cristãos de outros tempos: quando uma promessa de Deus se cumpria em suas vidas, anotavam nas margens da própria Bíblia as letras T e P — “testado e comprovado”, ou, como diziam em inglês, “tried and proven”. Cada promessa cumprida virava uma prova a mais de que aquele Deus, de fato, nunca falha.

Talvez valha a pena, esta semana, revisitar as promessas que Deus já cumpriu em sua própria história — não para colocar Deus a prova, mas para lembrar que ele próprio já deu provas, muitas vezes, de ser digno de confiança.

E a estrofe termina onde talvez devesse ter começado: numa súplica. “Eterna é a justiça dos teus testemunhos; dá-me entendimento, e viverei” (v. 144). Repare que, depois de sete versículos de confissão e testemunho pessoal, só agora o salmista pede alguma coisa — e não pede alívio, não pede vingança, não pede que a tribulação cesse. Pede entendimento.

Porque viver, na Bíblia, nunca foi apenas nascer, crescer, reproduzir e morrer; jamais foi respirar, comer, sobreviver mais um dia. Viver, no sentido pleno que Davi busca aqui, é conhecer a Deus, é ser guiado por sua sabedoria, é ter a mente iluminada por aquilo que só ele pode revelar. Sem esse entendimento, dizia Calvino, a vida do homem é pior que mil mortes — por mais que o corpo continue respirando, o coração já está morto para o que realmente importa.

O Justo que justifica

A justiça de Deus permanece. Nasce do seu próprio caráter (vs. 137-138). Desperta em nós zelo, amor e fidelidade (vs. 139-141). E vivifica quem sofre (vs. 142-144). Mas resta uma pergunta que só o evangelho responde: como pode um Deus absolutamente justo acolher pecadores absolutamente injustos, sem deixar de ser justo?

Há Alguém que viveu esta estrofe inteira sem falhar em uma só linha. O zelo que consumiu Davi (v. 139) consumiu ainda mais o Filho, ao expulsar os vendilhões do templo. Pequeno e desprezado (v. 141), Jesus foi o mais desprezado dos homens (Is 53.3). Tribulação e angústia (v. 143) o levaram ao Getsêmani e à cruz, onde foi feito pecado por nós — e, ainda assim, fazer a vontade do Pai era o seu prazer (Jo 4.34).

Na cruz, Jesus não relativizou a justiça de Deus — ele a satisfez. O pecado foi punido de fato, no corpo do Filho, até a última gota de sangue. Por isso ele é justo.

E, tendo pago essa pena, pode declarar justos todos os que nele confiam. Por isso ele é também justificador.

Como escreveu Paulo, Deus se mostrou justo e justificador de todo aquele que tem fé em Jesus (Rm 3.26).

A ressurreição é a prova de que esse pagamento foi aceito por Deus: se Cristo permanecesse na sepultura, a dívida ainda estaria em aberto; mas ele ressuscitou, e há vida real do outro lado do túmulo vazio.

O entendimento que Davi só pôde pedir — “dá-me entendimento, e viverei” — nós o recebemos plenamente em Cristo, onde a justiça eterna de Deus e a vida do pecador se encontram sem contradição.

Faça sua, agora mesmo, a única oração desta estrofe: dá-me entendimento, e viverei. Entenda que a justiça plena ainda aguarda sua manifestação completa, quando Cristo estabelecer os novos céus e a nova terra, nos quais habita a justiça (2Pe 3.13). Enquanto isso, vivemos na tensão entre o que já recebemos e o que ainda esperamos ver cumprido diante de todos.

Talvez você tenha entrado aqui hoje carregando uma injustiça que ainda dói — um abuso, uma agressão, uma mentira, uma sentença, uma traição, uma conta nunca ajustada. Antes de sair, entregue esse peso a Deus em oração, agora mesmo: não peça que ele resolva tudo já, peça o entendimento de que a justiça que permanece já é sua em Cristo, e um dia se revelará por completo.

E que os membros desta igreja vivam com fé, esperança e amor — tratando até o injusto como Cristo nos tratou, pois foi assim, amando quem não merecia, que a justiça de Deus finalmente nos alcançou. Não adianta tentarmos definir justiça para um mundo que, tal como barata tonta exposta à luz repentina, sai dando trombadas de desespero, sem saber de onde veio nem para onde vai. O mundo não precisa de mais uma definição. Precisa ver a justiça encarnada — na graça e na verdade com que tratamos uns aos outros, e até os que nos perseguem. Que a justiça brilhe em você.

S.D.G. L.B.Peixoto.

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