

23.11.2025
Hebreus 5.11-14 (NVT)
11Há muito mais que gostaríamos de dizer a esse respeito [a respeito de Melquisedeque, como um tipo de Cristo; cf. vs. 6,10], mas são coisas difíceis de explicar, sobretudo porque vocês se tornaram displicentes acerca do que ouvem. 12A esta altura, já deveriam ensinar outras pessoas, e no entanto precisam que alguém lhes ensine novamente os conceitos mais básicos da palavra de Deus. Ainda precisam de leite, e não podem ingerir alimento sólido. 13Quem se alimenta de leite ainda é criança e não sabe o que é justo. 14O alimento sólido é para os adultos que, pela prática constante, são capazes de distinguir entre certo e errado.
“Ah, vê se cresce, moleque!” Quem nunca ouviu isso? Talvez tenha vindo de um irmão mais velho impaciente. Ou foi um desabafo da sua mãe quando você se jogou no chão do supermercado fazendo birra porque queria um Kinder Ovo. Ou talvez tenha vindo de uma garota na escola, quando você agiu como uma criança querendo chamar a atenção.
Quando a gente finalmente cresceu, deixamos para trás as “coisas de menino”. Ou assim se espera. Paramos de comer Leite Ninho puro de colher escondido no armário. Paramos de chorar achando que o mundo ia acabar só porque ralamos o joelho no asfalto (na época que Merthiolate ardia de verdade). E paramos de ser o “dono da bola”, aquele que acabava com o jogo e levava a bola para casa assim que o time dele começava a perder.
Mas, vamos encarar a realidade: a gente cresce por fora, mas por dentro, às vezes, a criança continua lá. Figurativamente falando, todos nós ainda fazemos nosso “bico”. No trânsito, quando alguém nos fecha, a reação é infantil. No casamento, quando somos contrariados, fazemos a famosa “greve de silêncio” (o bico adulto). No trabalho, se não recebemos o elogio que queríamos, queremos “levar a bola embora”.
Quanto mais velhos ficamos, mais difícil é engolir as palavras “Ah, vê se cresce!” Especialmente na igreja. O texto de Hebreus hoje é exatamente isso: um “sacode” pastoral. O autor está olhando para uma igreja que já devia estar comendo feijoada teológica, mas ainda está pedindo mamadeira. Alguns de nós, com anos de conversão, ainda estamos espiritualmente de fraldas. Qualquer probleminha, qualquer “cara feia” de um irmão, e nós desmoronamos. Ainda precisamos que o pastor fique esquentando nosso leitinho e nos cobrindo com o cobertor da segurança, senão fazemos birra e mudamos de igreja.
Hoje, o convite é para mudar isso. Vamos jogar fora as chupetas espirituais. Vocês lembram como nossos pais mediam nosso crescimento? Muitos brasileiros têm aquela marca feita a caneta no batente da porta ou na parede da cozinha. Todo ano a gente encostava lá, esticava o pescoço (ficava na ponta do pé para roubar uns centímetros) e celebrava: “Cresci!”.
Fisicamente, todos nós passamos da marca. Uns mais, outros menos. Mas se Deus fizesse um risco na parede da alma hoje, qual seria a sua estatura espiritual? Será que o seu “homem interior” é um gigante ou ainda não alcançou a altura da mesa?
A Bíblia não aceita a síndrome de Peter Pan espiritual. O tempo passou. Você já deveria ser mestre.
Então, VAMOS CRESCER!
Se o crescimento físico é natural e monitorado por pediatras, o crescimento espiritual segue uma lógica diferente. Na vida biológica, basta comer e dormir que o tempo se encarrega de nos fazer crescer. Na vida com Deus, o tempo sozinho não amadurece ninguém; ele apenas envelhece.
A Bíblia é obcecada por esse progresso intencional. Observe como ela insiste nisso:
1Coríntios 14.20 (NVT) Irmãos, não sejam infantis no entendimento dessas coisas. Sejam inocentes como bebês com relação ao mal, mas sejam maduros no entendimento.
Efésios 4.14-15 (NAA) 14para que não mais sejamos como crianças, arrastados pelas ondas e levados de um lado para outro por qualquer vento de doutrina, pela artimanha das pessoas, pela astúcia com que induzem ao erro. 15Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo,
1Pedro 2.2 (NAA) Como crianças recém-nascidas, desejem o genuíno leite espiritual, para que, por ele, lhes seja dado crescimento para a salvação,
2Pedro 3.18 (NAA) cresçam na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Percebem o padrão? Nós entramos na família de Deus nascendo nela pelo Espírito (Jo 3.1-8), exatamente como na nossa família física. Mas, a partir daí, precisamos de nutrição (1Pe 2.2) e exercício (1Co 9.24-27).
Se continuarmos nos alimentando da Palavra e exercitando a fé, nos tornaremos maduros (Ef 4.11-16). Mas — e aqui está o perigo — não há garantia automática. O crescimento é o resultado natural da nutrição, mas não é inevitável.
Na maioria das vezes, algo atrofia esse processo. É exatamente isso que encontramos em Hebreus 5.11-14: um grupo de cristãos com “idade cronológica” suficiente para estar cortando a própria picanha, mas que ainda estava dependendo de alguém para dar papinha na boca. Observem, versículo 12: “A esta altura, já deveriam ensinar outras pessoas [vocês já deveriam ser mestres!], e no entanto precisam que alguém lhes ensine novamente os conceitos mais básicos da palavra de Deus.”
O autor de Hebreus não havia dito isso diretamente até agora. Mas ele deixou implícito. Havia algo errado com os cristãos para quem ele está escrevendo, e os avisos vinham se acumulando (todos na NAA):
Lendo todas essas advertências urgentes, você começa a ter a seguinte impressão: este autor está realmente preocupado com alguma situação nas igrejas de seus dias. Mas, até agora, ele apenas prescreveu a cura — apeguemos, com mais firmeza; considerem atentamente; tenham cuidado; guarde o coração; esforcemo-nos… tudo isso — sem dar o diagnóstico.
Agora, porém, ele nos diz o que está errado.
Ele chega ao final do texto da semana passada (5.1-10), dizendo que Cristo se tornou a fonte da salvação eterna e foi designado Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque (vs. 6,10). E então ele toma fôlego — você quase pode ouvi-lo suspirar — e diz no versículo 11 (NAA): “A esse respeito temos muitas coisas a dizer, coisas difíceis de explicar, porque vocês ficaram com preguiça de ouvir.”
E aí está o nosso primeiro diagnóstico explícito. Aqui está a doença com a qual ele está lidando nesta carta: a preguiça de ouvir.
Ou, conforme a NVT: a “displicência acerca do que ouvem.”
É isso que está por trás de todas aquelas exortações anteriores: Apegue-se com mais firmeza! Considere atentamente! Não endureçam o coração! Tenham cuidado! Esforcem-se! Conservem firme! Todas essas são prescrições médicas para a doença de ser tardio em ouvir.
Portanto, a pergunta mais urgente nesta manhã é: Você tem essa doença?
E, se sim: Como pode ser curado?
Mas, primeiro, precisamos ter certeza de que sabemos do que ele está falando. O que significa essa doença de ser “tardio em ouvir”? Vamos deixar que o próprio autor explique seus termos para nós; vamos analisar as palavras e olhar para o único outro lugar em Hebreus onde esse termo aparece.
Vamos analisar as palavras do autor. Primeiro, a palavra “displicentes” (v. 11, NVT). No grego (nothros), ela significa lento, preguiçoso ou indolente. Essa palavra aparece apenas mais uma vez no Novo Testamento, justamente em Hebreus 6.12. Vamos ler para entender o contraste:
Hebreus 6.11-12 (NVT)
11Nosso desejo é que vocês continuem a mostrar essa mesma dedicação até o fim, para que tenham plena certeza de sua esperança. 12Assim, não se tornarão displicentes [ou: indolentes, preguiçosos; é a mesma palavra traduzida como “displicentes” ou “preguiçosos” no nosso texto: Hb 5.1], mas seguirão o exemplo daqueles que, por causa de sua fé e perseverança, herdarão as promessas.
Entendam isso: O oposto de ser “displicente” ou “preguiçoso” (como lemos em Hb 5.11) não é ser apenas rápido. O oposto, biblicamente, é ser “dedicado” e “empenhado”(como vemos em Hb 6.11-12). É aquela seriedade santa de quem quer transformar a mensagem de esperança na certeza da esperança. É olhar para os heróis da fé e imitá-los.
Portanto, a “preguiça de ouvir” de Hebreus 5.11 não significa que há algo errado com a sua audição. Seus ouvidos físicos estão ótimos. O problema não é otológico, o problema é cardiológico.
Significa que há algo errado com o seu coração. O coração não está empenhado em abraçar as promessas para transformá-las em fé e perseverança. Acontece o seguinte: A Palavra entra pelo ouvido, desce até o coração, mas lá ela atinge uma parede. Ela bate em algo duro, resistente — ou em algo que está começando a calejar.
Isso é a “preguiça de ouvir”. As promessas de Deus chegam à porta, mas não há paixão por elas. Não há o “abraço de amante”. Não há o apreço. Não há o entesouramento daquela verdade.
E, porque não há amor pela Palavra, não há fé. Sem fé, não há perseverança. E se as coisas não mudarem — o alerta é grave — não haverá herança da vida eterna.
É por isso que o autor escreveu esta carta. E é por isso que prego este sermão nesta manhã. Essa “displicência acerca do que ouvem” (Hb 5.11) não é apenas um defeito do ouvido; é uma doença espiritualmente fatal — do coração.
Já entendemos o que é ser “displicente” ou “preguiçoso”. Agora, vamos rastrear a outra palavra do diagnóstico: “ouvir”. Essa palavra não está aqui por acaso. O autor já a usou antes, em Hebreus 4.2, e o paralelo é assustador. Veja o que ele diz (NAA):
“Porque também a nós foram anunciadas as boas-novas, exatamente como aconteceu com eles. Mas a palavra que eles ouviram [literalmente: a palavra do ouvir] não lhes trouxe proveito, porque não foram unidos por meio da fé com aqueles que a ouviram.”
Vocês percebem o padrão? É o mesmo problema. Temos uma Palavra de promessa (o evangelho). Temos o ato de ouvir. Mas o resultado é zero. Por quê? Porque a Palavra entrou no ouvido, mas não se misturou com a fé no coração. Isso é a “preguiça de ouvir” de Hebreus 5.11. A Palavra chega, bate na porta, mas encontra um coração lento, duro, fechado.
O oposto dessa preguiça é “ouvir com fé”, o tipo de fé que produz obediência.
Muitas vezes achamos que desobedecemos a Deus porque somos “fracos”. Mas esta carta diz que o problema é outro. Olhem, três versículos antes antes de Hebreus 4.2. Vejam Hebreus 3.18-19. O autor pergunta: Quem foram aqueles que Deus jurou que não entrariam no descanso? Os desobedientes, ele responde (Hb 3.18). E logo em seguida ele conclui: “vemos que não puderam entrar por causa da incredulidade” (Hb 3.19, NAA).
Notem a troca: o autor começa falando de desobediência e termina falando de incredulidade. O que isso nos ensina? Que a raiz de toda desobediência é a falta de fé. Você desobedece porque, no fundo, não confia que a promessa de Deus é melhor do que o prazer do pecado. Você ouve, mas não crê. Desobedece.
Então, a “preguiça de ouvir” de Hebreus 5.11 é ouvir a Bíblia sem fé e, consequentemente, sem fruto moral. É ouvir a pregação da Palavra do mesmo jeito que você ouve o barulho do trânsito na avenida. Está lá, é constante, mas você nem percebe mais — virou ruído de fundo. É como aquela música ambiente de consultório de dentista: ela toca, mas você não presta atenção na letra. É como os avisos do aeroporto: “Senhores passageiros…” Você ouve o som, mas se não for o seu voo, aquilo não significa nada para você. Entra por um ouvido e sai pelo outro.
Você ouve, mas não escuta. O som não desperta sua alma. Não gera temor, não gera amor, não gera ação. Você se tornou imune ao som da voz de Deus.
Isso é perigosíssimo!
Jesus nos deu uma advertência vital sobre isso em Lucas 8.18, logo após a parábola dos solos (NAA): “Portanto, vejam como vocês ouvem. Porque ao que tiver, mais será dado; e ao que não tiver, até aquilo que julga ter lhe será tirado.”
Entendam a gravidade disso: Se você tem a graça de ouvir com fé, receberá mais graça. Mas se você ouve com “preguiça” ou “displicência” ou “tardança” — se você ouve de forma passiva, apenas cumprindo tabela no culto; se você ouve apenas como ruído de fundo ou som ambiente, sem prestar atenção, com a intenção de transformar em ação — até o que você pensa que tem será tirado. A Palavra será removida de você.
É exatamente o que está acontecendo em Hebreus 5.11. O autor diz: “Há muito mais que gostaríamos de dizer a esse respeito… sim, são coisas difíceis de explicar… mas são tesouros… tenho tesouros sobre Melquisedeque para entregar a vocês… mas vocês se tornaram preguiçosos, displicentes, tardios em ouvir.” Ou seja: Se eles tivessem ouvidos para ouvir, receberiam mais. Mas como fecharam o coração, estão em perigo de perder até o básico.
Por isso, eu suplico a vocês nesta manhã. Acorde agora. Não ouça este sermão como quem ouve música de elevador. A preguiça de ouvir, a displicência, a tardança em ouvir — esse ouvir preguiçoso, passivo, desinteressado — é uma doença mortal. Ela pode estar matando sua alma neste exato minuto. Seja diligentes. Misture esta Palavra com fé. Agarre a promessa, antes que ela lhes seja tirada.
S.D.G. L.B.Peixoto.
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