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30.08.2026

O caminho de volta para Deus

  • Pr. Leandro B. Peixoto
  • Série: Salmo 119 - Lâmpada Para os Pés e Luz Para o Caminho
  • Livro: Salmos

Salmo 119.169-176 (NAA)

ת Tau
169Chegue a ti, SENHOR, a minha súplica; dá-me entendimento, segundo a tua palavra. 170Chegue a minha petição à tua presença; livra-me segundo a tua palavra. 171Que os meus lábios te louvem, pois me ensinas os teus decretos. 172Que a minha língua celebre a tua lei, pois todos os teus mandamentos são justos. 173Que a tua mão venha me socorrer, pois escolhi os teus preceitos. 174Anseio pela tua salvação, SENHOR; a tua lei é o meu prazer. 175Que eu possa viver para te louvar; e que os teus juízos me ajudem. 176Ando errante como ovelha perdida; procura o teu servo, pois não me esqueço dos teus mandamentos.

Há um sentimento que talvez você conheça bem. Você ama a Palavra de Deus. Você ora, você luta, você toma decisões para andar com Deus e você se disciplina. E, ainda assim, de tempos em tempos, você se pega pensando: “Eu deveria estar mais adiante do que estou.” Você tenta, cai, se levanta, tenta de novo — e vira e mexe se sente exatamente como o salmista descreve no último verso do texto que acabamos de ler: uma ovelha perdida.

Isso é estranho, porque na estrofe anterior, Chim (vv. 161-168), o mesmo Davi falava com a confiança de quem já chegou lá: “A minha alma tem observado os teus testemunhos; eu os amo profundamente” (v. 167). Mas agora, na última estrofe do maior poema da Bíblia, do maior capítulo da Bíblia, depois de 176 versos declarando amor à lei de Deus, Davi termina admitindo: eu me perdi, estou perambulando sem saber o rumo. Preciso ser encontrado.

Se você já se sentiu assim — cristão há anos, ama a Deus, conhece a Palavra, e mesmo assim se acha andando em círculos — este texto foi escrito para você. Porque a estrofe Tau (vv. 169-176) não é sobre um fracasso da fé. É sobre a mais madura expressão dela: o cristão maduro não é aquele que nunca se desvia, mas aquele que, quando desviado, sabe para quem clamar.

Chegamos, hoje, ao fim de uma longa jornada. Há 23 domingos, espalhados desde setembro do ano passado, estamos caminhando pelo Salmo 119, verso a verso, estrofe por estrofe — e chegamos, finalmente, à vigésima segunda e última (a última letra do alfabeto hebraico): Tau.

Esta noite, quero que vejamos como esse caminho de volta para Deus se desenrola — um caminho que começa num clamor, passa pela adoração, é sustentado pela mão de Deus, e finalmente é encontrado quando o Bom Pastor sai à nossa procura.

1. O caminho começa com clamor

169Chegue a ti, SENHOR, a minha súplica; dá-me entendimento, segundo a tua palavra. 170Chegue a minha petição à tua presença; livra-me segundo a tua palavra.

Davi vem diante do SENHOR com um clamor e uma súplica — “chegue a ti… chegue à tua presença.” Há ousadia nisso: ele se dirige diretamente a Deus, esperando ser recebido. Mas há também humildade: não é uma invasão súbita de arrogância na presença de Deus. Davi vem como quem tem intimidade com o Pai, mas nunca perde a reverência de quem sabe diante de quem está.

E o que ele pede?

Duas coisas, que caminham juntas: entendimento (v. 169) e livramento (v. 170). Ele não está pedindo só para compreender melhor as coisas — quer que Deus ordene as suas circunstâncias exteriores, exatamente como só Deus sabe ordenar os seus pensamentos interiores. Precisa de graça nas duas direções: para dentro e para fora. “Trabalha no meu coração por meio da tua Palavra (v. 169) — e ajuda-me também na situação em que estou vivendo agora (v. 170).”

E repare que os dois pedidos vêm com a mesma âncora: “segundo a tua palavra.” Davi não está pedindo o que bem entende, do jeito que quer. Ele pede aquilo que Deus já prometeu — nem mais, nem menos.

Isso, ao mesmo tempo, limita e garante o seu pedido: limita, porque ele não exige de Deus o que Deus nunca disse que faria; garante, porque, sendo promessa de Deus, ele pode pedir com plena confiança de que será ouvido. “Segundo a tua palavra” é, no fundo, a diferença entre exigir de Deus e suplicar a Deus.

E esse entendimento que ele pede é o que vai impedi-lo de tomar as coisas em suas próprias mãos. Porque, se bancarmos de tolos, os nossos inimigos ou o pecado levam a melhor.

Mas se respondemos com a sabedoria que vem da Palavra, eles são derrotados. Não à toa Spurgeon dizia que o Senhor, em resposta à oração, costuma libertar os seus filhos tornando-os prudentes como as serpentes, e ao mesmo tempo, inofensivos como as pombas.

É assim que o caminho de volta para Deus começa.

Começa com um clamor — clamor por entendimento (v. 169), clamor por livramento (v. 170): “Dá-me um coração igual ao teu; e livra meu coração de pecar contra ti.”

2. O caminho passa pela adoração

171Que os meus lábios te louvem, pois me ensinas os teus decretos. 172Que a minha língua celebre a tua lei, pois todos os teus mandamentos são justos.

A súplica de Davi agora vira louvor. Ele está confiante: sua oração vai ser ouvida e respondida pelo SENHOR, o Pastor da sua alma. E veja a progressão entre os dois versos.

No verso 171, o verbo é de efusão — “que os meus lábios te louvem”, como uma fonte que jorra água, transbordando. É a reação imediata, quase instintiva, ao que acabou de ser ensinado: “pois me ensinas os teus decretos.” John Piper chamaria isso de exultar sobre a palavra de Deus. Ou seja: primeiro vem o ensino; depois, sem pensar duas vezes, vem o louvor que brota do coração.

Já no verso 172, Davi repete a mesma ideia com outras palavras: lábios viram língua, louvor vira celebração — “que a minha língua celebre”. Mas o verbo também muda de tom — não é mais um transbordar espontâneo, é um celebrar deliberado. Davi já não está apenas reagindo; está refletindo, articulando o motivo do seu louvor. E aí ele acrescenta algo importante: esses mandamentos são justos. Não é só que Deus ensina; é que o que ele ensina é reto, é bom, é confiável.

Ou seja: o coração instruído transborda; e a mente confirma — e celebra. E, na vida real, os dois nunca deveriam estar separados — louvor sem entendimento vira emoção vazia; entendimento sem louvor vira teologia fria.

Esse Deus diante de quem Davi traz sua súplica e seu louvor é justo em tudo — nos seus caminhos, na sua vontade, na sua Palavra. E é por isso que podemos confiar nele: porque ele é justo em si mesmo.

Spurgeon dizia bem: quando alguém tem uma opinião tão elevada dos mandamentos de Deus, não é de se estranhar que seus lábios estejam sempre prontos para exaltar o eterno e glorioso SENHOR.

É assim que o caminho de volta para Deus continua. Depois do clamor, vem a adoração — louvor pelo que Deus ensina (v. 171), louvor pela justiça de quem ele é (v. 172).

3. O caminho é sustentado pela mão de Deus

173Que a tua mão venha me socorrer, pois escolhi os teus preceitos. 174Anseio pela tua salvação, SENHOR; a tua lei é o meu prazer. 175Que eu possa viver para te louvar; e que os teus juízos me ajudem.

O pedido de livramento (lá do verso 170) volta com força nestes três versos. Ele se intensifica no anseio pela salvação (v. 174) e culmina no pedido pela própria vida (v. 175). E o que chama atenção é como Davi ancora cada um desses pedidos na sua devoção à Palavra.

No verso 173, ele pede: “Que a tua mão poderosa esteja pronta para me ajudar” — para fazer por mim aquilo que eu não consigo fazer sozinho. E por que ele pode pedir isso com confiança? Porque escolheu honrar e obedecer aos preceitos de Deus.

Se pensarmos nesses versos em termos espirituais, o que Davi está pedindo é força para obedecer. Porque não conseguimos viver uma vida reta pela nossa própria determinação. Foi exatamente isso que Paulo descobriu: “Eu, porém, sou carnal, vendido à escravidão do pecado… não faço o que prefiro, e sim o que detesto… Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”  (Rm 7.14-15, 24). Paulo mesmo, logo em seguida, dá a resposta: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!” (Rm 7.25). O apóstolo sabe que não encontrará a solução em si mesmo, mas fora de si — em Deus, por meio de Cristo, no poder do Espírito Santo.

É exatamente esse o movimento que Davi faz aqui: ele sabe que não tem força para obedecer sozinho; por isso não tenta se esforçar mais, nem se disciplinar melhor — ele ora: “que a tua mão venha me socorrer.” Se realmente cremos que não conseguimos viver para Deus por nós mesmos, mas ainda assim queremos viver para ele, a resposta não é redobrar o esforço — é vir a Deus pedindo ajuda.

No verso 174, o anseio se aprofunda: “anseio pela tua salvação, SENHOR.” Davi precisa ser livrado dos seus inimigos — e, no fundo, precisa ser livrado de si mesmo, do próprio pecado. E não há nada que possamos fazer para nos livrarmos sozinhos disso. Mais uma vez ele pode pedir com confiança, porque completa: “a tua lei é o meu prazer.”

E chegamos ao verso 175, o pedido pela própria vida: “Que eu possa viver para te louvar.” Se queremos viver uma vida reta não só por um momento, mas até o fim, vamos continuar orando assim — pedindo que os juízos de Deus nos sustentem, dia após dia.

Como observa John Goldingay, o nosso relacionamento com o Senhor se funda na graça e na compaixão dele; mas também depende da nossa obediência. Somos responsáveis por andar no caminho de Deus — e, ainda assim, dependemos da ajuda dele para conseguir andar nele.

Davi admite, com alegria, o que precisa: preciso da tua ajuda para viver. Tu, Senhor, és quem eu preciso.

É assim que o caminho de volta para Deus continua a ser sustentado — não pela força do próprio peregrino, mas pela mão de Deus: socorro para obedecer (v. 173), salvação que só ele dá (v. 174), vida sustentada pelos seus juízos até o fim (v. 175).

4. O caminho é encontrado quando o Bom Pastor sai à nossa procura

Até aqui, vimos, primeiro, o caminho de volta para Deus começar com um clamor — Davi pedindo entendimento e livramento, ancorado na promessa de Deus (vv. 169-170).

Vimos, em segundo lugar, esse clamor virar adoração — o coração instruído transbordando em louvor, a mente confirmando que os mandamentos de Deus são justos (vv. 171-172).

E, em terceiro lugar, vimos esse caminho ser sustentado pela mão de Deus — o pedido de força para obedecer, o anseio pela salvação, o pedido de vida para continuar louvando (vv. 173-175).

Mas todo esse caminho — clamor, adoração, socorro — nos leva a um lugar surpreendente. Porque, no último verso da estrofe, depois de tudo isso, Davi confessa algo que ele já tinha dito em outro lugar do salmo (cf. v. 67): ele está perdido. Desgarrado.

176Ando errante como ovelha perdida; procura o teu servo, pois não me esqueço dos teus mandamentos.

Chegamos ao verso que dá nome a esta última estrofe, e que na verdade resume toda a jornada dos 176 versos do Salmo 119. É um verso chocante, quando você para para pensar nele.

Depois de tudo o que Davi já disse — depois de declarar, repetidas vezes, o seu amor pela lei de Deus, o seu prazer nela, depois de descrever a sua vida de oração, de demonstrar o seu louvor persistente, e de relatar o seu histórico de obediência — o homem segundo o coração de Deus termina o maior capítulo da Bíblia com uma confissão surpreendente: “eu me perdi.” Isso não é o que esperaríamos. Não é assim que os grandes poemas de fé costumam terminar.

Vamos olhar para esse verso em três partes.

Observe:

“Ando errante como ovelha perdida…”

Davi é, sem dúvida, um santo. Ele mesmo já disse, ao longo desta série: “Quanto amo a tua lei! É a minha meditação todo o dia!”  (v. 97). Ele descreveu sua vida inteira de oração — o salmo inteiro é isso. Ele falou do seu louvor constante: “Sete vezes por dia, eu te louvo pela justiça dos teus juízos” (v. 164). E ele tem um histórico real de obediência, que ele mesmo menciona várias vezes ao longo da estrofe: “guardo os teus preceitos” (v. 100), “não me desvio dos teus preceitos” (v. 110), “tenho praticado juízo e justiça” (v. 121).

E, ainda assim, ele se perdeu. E confessa isso abertamente, aqui, no último verso. Não é a primeira vez que isso acontece — ele já havia admitido antes: “Antes de ser afligido, eu andava errado” (v. 67). E o fato de ele trazer de novo essa confissão para o último verso talvez não seja acidental. Talvez seja exatamente o ponto: depois de tudo — depois de todo o sucesso espiritual, depois de tantos anos de fidelidade — a batalha pela santidade continua. Ela não termina nesta vida.

E note a imagem que ele escolhe: “ovelha perdida.” Em hebraico, essa palavra (“perdida”) também carrega o sentido de “perecer”. Não é uma ovelha que apenas se distraiu um pouco do caminho — é uma ovelha em perigo real; “perecendo”. Ovelhas, se não forem encontradas, morrem.

“…procura o teu servo…”

Mas Davi não se contenta em ficar perdido. Ele não resolve o problema sozinho, tentando se recompor pelas próprias forças. Ele clama: “Procura o teu servo”. Esse é o sinal do verdadeiro crente — não é nunca se desviar, mas, quando desviado, clamar para ser encontrado, o mais depressa possível.

E olhe como, ao longo de toda a estrofe, ao longo de todo o salmo, Davi já vinha antecipando essa intervenção de Deus: “sê generoso” (v. 17), “vivifica-me” (v. 25), “desvenda os meus olhos” (v. 18), “inclina o meu coração” (v. 36), “ensina-me” (v. 12), “fortalece-me” (v. 28). Ele sabe, de antemão, como Deus costuma agir — e é exatamente por isso que ele pode pedir com confiança agora: “Ando errante como ovelha perdida, PROCURA O TEU SERVO”.

E veja algo importante: Davi não culpa Deus pelo seu desvio. Ele dá a Deus o crédito por ter o poder de resgatá-lo, mas não o responsabiliza por ter se perdido. Deus não é culpado pela nossa tendência a vagar. E Deus também não está obrigado a nos resgatar no tempo que escolhemos — apenas no tempo dele, se ele assim decidir.

“…pois não me esqueço dos teus mandamentos.”

E aqui está a terceira parte, a que fecha o verso — e fecha o salmo inteiro. O verdadeiro crente não consegue apagar de vez a lei que o Espírito de Deus escreveu em seu coração. Ela continua ali, chamando, atraindo, mesmo quando ele se desvia. O gosto espiritual por Deus nunca é totalmente destruído no coração dos santos.

E repare: Davi não apenas clama para que Deus o busque — ele também busca a Deus, por meio da sua Palavra. “Não me esqueço” é uma forma de dizer, com força total: “eu me lembro, e continuo me lembrando.” E o que ele não esquece, de modo especial, são os mandamentos que o chamam a confiar nas promessas de Deus — como diz Provérbios: “Confie no SENHOR de todo o coração e não se apoie no seu próprio entendimento” (3.5-6).

E essa confissão final de Davi nos leva direto ao coração do evangelho. Porque a promessa que sustenta seu pedido não é uma promessa qualquer — é a promessa do próprio Deus, que se revela como Pastor. Em Ezequiel, o SENHOR diz: “eu mesmo procurarei as minhas ovelhas e as buscarei” (34.11-12).

Jesus diz de si mesmo: “o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido” (Lc 19.10); e ainda: “as minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem… jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10.27-28). Na parábola, Cristo é quem deixa as noventa e nove para ir atrás de uma só ovelha perdida (Lc 15.3-4).

E Judas nos lembra que Deus é poderoso para nos guardar e nos apresentar diante da sua glória (vv. 24-25).

Davi ainda não conhecia o nome de Jesus. Mas ele já conhecia o Pastor. E o mesmo Pastor que buscou Davi é quem busca cada um de nós — porque, como diz Isaías, “todos nós andávamos desgarrados como ovelhas” (53.6), e foi justamente esse Pastor, o Bom Pastor, que deu a sua vida pelas suas ovelhas (Jo 10.11).

Esta noite, esse texto foi escrito, primeiramente, para você que já é do aprisco — que já ama a Deus, já conhece a Palavra, mas se sente perdido, cansado, andando em círculos. Se é esse o seu caso, clame agora mesmo, de todo o coração, com Davi: “Ando errante como ovelha perdida; procura o teu servo, pois não me esqueço dos teus mandamentos.”

Mas se você está aqui esta noite e nunca seguiu a Jesus — se, mais do que desviado, você está totalmente fora do aprisco — saiba que o mesmo Bom Pastor que busca as ovelhas que se perderam é quem também vai atrás de quem nunca esteve nele. Se você ouve a voz de Jesus chamando você agora, esta pode ser a noite em que você o segue pela primeira vez. Venha. Negue a si mesmo. Tome a sua cruz. E siga a Jesus, o Bom Pastor.

Chegando em casa

Começamos esta série lá em setembro do ano passado, no verso 1: “Bem-aventurados os irrepreensíveis no seu caminho, que andam na lei do SENHOR.” E terminamos aqui, no verso 176: “Ando errante como ovelha perdida.” À primeira vista, pareceria que o salmista fracassou — que começou bem e terminou mal.

Mas o Salmo 119 nos ensina o contrário: a bênção do verso 1 e a confissão do verso 176 fazem parte da mesma vida de fé. Ninguém que caminha com Deus por muito tempo escapa de se ver, em algum momento, como aquela ovelha — cansada, desorientada, precisando ser encontrada.

Vimos, esta noite, o caminho de volta para Deus começar com um clamor, virar adoração, ser sustentado pela mão de Deus, e finalmente ser encontrado porque o Bom Pastor sai à nossa procura. A lei que amamos não nos salva pela nossa perfeita obediência a ela — ela nos conduz, sim, mas quem nos carrega para casa é o Pastor. Somos nós que perambulamos; é ele que busca, porque nos ama.

Há um filme ainda em cartaz, dirigido por Christopher Nolan, que reconta a Odisseia de Homero. E uma das ideias centrais ali é que Odisseu não é amado por nenhum deus — está por conta própria, precisando confiar apenas em si mesmo para encontrar o caminho de volta para casa. É assim que muita gente vive, mesmo sem assistir ao filme: como se estivesse sozinha no mundo, sem nenhum Deus que a ame, tendo que se virar com as próprias forças para encontrar o caminho, enquanto procura aplacar a consciência.

Mas isso não poderia estar mais longe da verdade. Nós temos um Pastor que nos ama — e que sai em busca de quem se perdeu. Como diz o Salmo do Pastor: “O SENHOR é o meu pastor [então]… Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do SENHOR para todo o sempre” (Sl 23.1,6).

Martinho Lutero, comentando o último verso do Salmo 119, escreveu palavras que servem como conclusão para esta jornada:

Se ele tivesse se desviado como um leão ou um lobo, não haveria por que lamentar; mas, por ser um pequeno cordeiro que se desgarra, precisa de um pastor, de pastagem, de um aprisco — e o desgarrado carece de tudo isso. E o mais miserável é que não sabe voltar sozinho, mas precisa que o busquem. Por isso este verso é tão comovente, pois todos nós, de fato, andamos assim desgarrados, de modo que devemos orar para sermos visitados, buscados e carregados de volta pelo mais piedoso Pastor, o Senhor Jesus Cristo, que é Deus, bendito para sempre. Amém.

(Luther’s Works, vol. 11, 534).

S.D.G. L.B.Peixoto.

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