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26.04.2026

O Julgamento do Servo

  • Pr. Leandro B. Peixoto
  • Série: Os Cânticos do Servo
  • Livro: Isaías

Nesta quarta etapa da nossa jornada, voltamos os nossos olhos para o texto de Isaías 50.4-10. Este cântico específico do Servo possui uma característica que o torna singular: aqui, o Servo fala de modo profundo sobre sua própria vida devocional e sua confiança íntima em Deus.

Nos outros dois poemas que estudamos, o cenário era povoado por uma alternância de vozes. No primeiro, o SENHOR o apresentava ao mundo (42.1); no segundo, o Servo anunciava sua missão às nações distantes (49.1).

No entanto, neste terceiro cântico (50.4-10), a perspectiva muda para um monólogo interior. O Servo assume a palavra não apenas para declarar o que fará, mas para revelar como ele vive na presença do Pai e como sustenta sua obediência em meio ao escárnio.

Leremos agora este texto, que é uma das descrições mais primorosas de Jesus em toda a Escritura, ecoando títulos que ouvimos desde a infância, como o de “Maravilhoso Conselheiro”:

Isaías 50.4-10 (NAA)
4O SENHOR Deus me deu uma língua erudita, para que eu saiba dizer boa palavra ao cansado. Ele me desperta todas as manhãs; desperta o meu ouvido para que eu ouça como aqueles que aprendem. 5O SENHOR Deus me abriu os ouvidos, e eu não fui rebelde nem me retraí. 6Ofereci as costas aos que me batiam e o rosto aos que me arrancavam a barba; não escondi o rosto dos que me afrontavam e cuspiam em mim. 7Porque o SENHOR Deus me ajuda. Por isso, não serei humilhado; por isso, fiz o meu rosto como uma pedra e sei que não serei envergonhado. 8Perto está o que me justifica. Quem ousará entrar em litígio comigo? Compareçamos juntos diante do juiz! Quem é o meu adversário? Que se aproxime de mim! 9Eis que o SENHOR Deus me ajuda. Quem poderá me condenar? Eis que todos eles envelhecerão como a roupa; a traça os comerá. 10Quem de vocês teme o SENHOR e ouve a voz do seu Servo? Aquele que anda em trevas, sem nenhuma luz, confie no nome do SENHOR e se firme sobre o seu Deus.

O Profeta, o Político e o Servo

A figura que aparece na visão de Isaías não apenas traça um paralelo com outros personagens históricos, mas claramente os supera.

Primeiramente, o profeta enxerga Ciro, o futuro rei da Pérsia. Isaías olha para o futuro, para os dias em que o povo de Deus estaria no exílio na Babilônia — tempos que conhecemos bem pelas histórias de Daniel, Nabucodonosor, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. Isaías vê que Deus levantará Ciro como um instrumento providencial para libertar o povo daquela estranha experiência de exílio e reconduzi-lo à Terra Prometida.

Contudo, Isaías enxerga algo ainda maior, talvez por ter compreendido a profundidade de sua própria necessidade.

Exceto por Davi, não há figura no Antigo Testamento que tenha visto tão a fundo o próprio coração quanto Isaías. Em sua famosa experiência no templo, ao ver a majestade de Deus e ouvir os serafins clamarem “Santo, santo, santo” (Is 6.3), a confissão de Isaías foi: “Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de lábios impuros; e os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos!”.

O que torna essa experiência tão profunda é que não existe autor nas Escrituras que alcance maior eloquência do que Isaías. Nem mesmo em Romanos 8 encontramos expressões tão magníficas do ápice da linguagem humana: Isaías descobriu que o pecado se esconde de forma mais sinistra não em nossas fraquezas, mas em nossas forças. Ele percebeu que a principal manifestação de sua pecaminosidade estava justamente em seu maior dom: seus lábios.

Esta é a grande necessidade da igreja hoje — o exato oposto do que ela acredita precisar. A igreja acredita que precisa ser forte, relevante, ouvida e tratada com dignidade; mas o que realmente precisamos é — sob a luz da revelação de Deus, em sua Palavra — descobrir as profundezas sombrias de nossa pecaminosidade.

Existe uma ligação intrínseca: quem valoriza pouco a graça de Deus no dia a dia conhece muito pouco da corrupção de seu próprio coração . Essa consciência preparou Isaías para ver o Servo que traria uma libertação muito mais profunda do que a de Ciro.

Este é um enorme teste para nós, cristãos conservadores de classe média: se achamos que nossa maior necessidade é de um grande Presidente (de direita ou de esquerda) ou de um grande Salvador (do céu, da parte de Deus).

O teste é simples: falamos mais sobre política do que sobre o Senhor Jesus? O que nos empolga mais?

Reinos e governantes ascendem e caem, e o melhor dos homens é apenas um homem; nenhum deles pode responder às necessidades dos tempos. A política é a arte do possível, mas nós precisamos do impossível. Precisamos de alguém que nos liberte do egoísmo, da obstinação e da rebelião contra Deus.

Isaías aprendeu a não confiar em príncipes, e isso o capacitou a retratar o Servo. Como vemos no encontro de Filipe com o eunuco etíope (At 8.14-40), estes Cânticos do Servo em Isaías tratam do Senhor Jesus. E o cântico de Isaías 50.4-10 é uma das mais requintadas descrições a respeito de Cristo — e ecoa os títulos de Isaías 9: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte e Príncipe da Paz.

Vejamos como essa profecia é maravilhosamente — e, por vezes, literalmente — cumprida em Jesus Cristo.

1. Como o Servo se torna o Maravilhoso Conselheiro

Deixe-me sugerir que olhemos para este texto da seguinte maneira: primeiro, Isaías nos mostra como o Servo se torna o Maravilhoso Conselheiro prometido anteriormente (Is 9.6).

Notem as palavras iniciais do Servo — Isaías 50.4:

O SENHOR Deus me deu uma língua erudita, para que eu saiba dizer boa palavra ao cansado. Ele me desperta todas as manhãs; desperta o meu ouvido para que eu ouça como aqueles que aprendem.”

Ao examinarmos o ministério terreno de Cristo, notamos que sua oratória não era meramente técnica, mas carregada de uma origem celestial. Ele falava de uma maneira inteiramente distinta de seus contemporâneos. As multidões que o ouviam ficavam “maravilhadas com a sua doutrina, porque ele as ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas” (Mt 7.28-29). O testemunho geral era de espanto diante das “palavras cheias de graça que lhe saíam dos lábios” (Lc 4.22).

De onde vinha toda essa autoridade? Como era possível suas palavras serem tão repletas de graça?

A resposta reside na fonte de sua comunicação: suas palavras fluíam de alguém que vinha da própria presença de Deus. Havia uma precisão sobrenatural em seu ensino; suas palavras pareciam encontrar os ouvintes exatamente onde eles estavam, sondando as profundezas dos corações e trazendo respostas perfeitamente ajustadas às necessidades reais e mais íntimas. Essa capacidade não era um artifício retórico, mas o resultado de uma vida inteiramente dedicada àquilo que o Pai lhe ensinava manhã após manhã.

O SENHOR Deus me deu uma língua erudita, para que eu saiba dizer boa palavra ao cansado. Ele me desperta todas as manhãs; desperta o meu ouvido para que eu ouça como aqueles que aprendem.” (Is 50.4)

LEMBRE-SE: o Senhor Jesus não surgiu subitamente aos 30 anos dotado dessa capacidade. Antes, por três décadas, a cada manhã, — informa-nos o profeta Isaías — Cristo fora despertado na presença de seu Pai celestial para aprender. Durante pelo menos 25 desses 30 anos, ele esteve memorizando as Escrituras Hebraicas. Dia após dia, Jesus Cristo trazia à memória passagens como esta e perguntava ao Pai como elas se aplicavam ao seu ministério e como deveria colocá-las em prática. Ele estava totalmente dedicado ao ensino do Pai, crescendo em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens (Lc 2.52).

O OBJETIVO desse aprendizado todo era específico: “para que eu saiba dizer boa palavra ao cansado” (Is 50.4). Esta é, talvez, a tarefa mais difícil do mundo.

O que dizer a alguém dominado pela exaustão e pela depressão? O que dizer a alguém aprisionado ao pecado? O que dizer a alguém que está endurecido?

Ora, pense na depressão. Dizer simplesmente frases de efeito é um conselho de desespero, pois a pessoa cansada e sobrecarregada não possui forças para tal. Quando a depressão se instala no próprio instrumento que usamos para pensar — a mente —, e para sentir — o coração —, a vida perde a cor.

Mas Jesus conhece a palavra exata. Se você é cristão, conhece este convite há décadas — Mateus 11.28-30:

28Venham a mim todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu os aliviarei. 29Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração; e vocês acharão descanso para a sua alma. 30Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.

A precisão e a relevância da palavra de Jesus são inigualáveis, pois ele conhece exatamente o estado do seu coração. Seria uma tragédia negligenciar o recurso principal e não recorrer primeiro a ele em busca de direção.

Infelizmente, em nossa sociedade, muitos buscam apenas um conselho de “arrumação” de vida — um ajuste externo e superficial, um diarista para solução rápida —, enquanto evitam o ministério da Palavra que, de fato, promove uma mudança profunda.

Essa resistência ocorre porque vivemos imersos no que os sociólogos definem como “cultura terapêutica”.

No entanto, a regra fundamental para a alma é que precisamos de muito mais do que terapia; precisamos de um Salvador. Jesus ministra essa salvação e santificação por meio da comunhão dos santos, da adoração congregacional e da pregação fiel de sua Palavra — dominicalmente, manhã e noite, nos cultos da igreja — e nos relacionamentos discipuladores.

É uma glória indizível ter um Conselheiro que nos conhece de ponta a ponta. E nós o temos na pessoa do Senhor Jesus Cristo, o Verbo encarnado, revelado de forma plena e poderosa em sua Santa Palavra.

2. Como o Servo sofre para se tornar o Príncipe da Paz

À medida que o poema avança, aprendemos algo mais. Não apenas como o Servo se torna um Maravilhoso Conselheiro (Is 50.4), mas também como o Servo sofre; e por trás disso — e ficará claro na próxima mensagem (Is 53) — o Servo sofre para se tornar, naturalmente, o Príncipe da Paz .

Na primeira seção, o Servo havia dito — Isaías 50.4:

O SENHOR Deus me deu uma língua erudita, para que eu saiba dizer boa palavra ao cansado. Ele me desperta todas as manhãs; desperta o meu ouvido para que eu ouça como aqueles que aprendem.

Mas agora o poema vai um pouco além, e você e eu precisamos aprender não apenas com o ensino do Servo, mas também com o seu exemplo — Isaías 50.5: “O SENHOR Deus me abriu os ouvidos, e eu não fui rebelde nem me retraí”.

É muito bom receber conselhos, mas apenas obter um bom conselho não é o mesmo que abandonar a sua rebeldia e segui-lo.

E isso é algo marcante, pois a linguagem utilizada é carregada de significado jurídico e afetivo: “O SENHOR Deus me abriu os ouvidos” (Is 50.5).

Jamais deveríamos ler estas palavras sem recordar o que um escravo podia fazer nos dias da lei mosaica — caso decidisse não deixar a casa de seu senhor.

Se esse homem, movido pelo sustento recebido e pelo amor à sua família, declarasse perante os juízes: “Meu senhor, eu te amo. Não quero jamais ser livre de ti”, tal senhor levaria o servo até o umbral da porta da casa e, com um prego, furaria sua orelha contra a madeira (Êx 21.5-6) . Esta é a primeira menção a uma orelha furada nas Escrituras, representando uma marca permanente de servidão voluntária por amor.

Pois bem, o Pai celestial — que imagem extraordinária! — abriu o ouvido do Servo e ele não foi rebelde nem se retraiu; e o que se segue é quase literalmente cumprido nos Evangelhos — Isaías 50.6: “Ofereci as costas aos que me batiam e o rosto aos que me arrancavam a barba; não escondi o rosto dos que me afrontavam e cuspiam em mim”.

O Servo não apenas ouviu o conselho.

Por amor, o Servo se tornou o Escravo que, tendo a orelha furada no umbral da obediência, seguiu adiante para oferecer o próprio corpo ao sofrimento.

UM ALERTA PARA OS INICIANTES: Há passagens nos Evangelhos que a pessoa mais sensível mal conseguirá ler sem sentir um mal-estar no estômago pelo que os homens fizeram ao nosso amado Senhor Jesus, cuspindo em seu rosto, fazendo seus jogos miseráveis com ele, humilhando-o, fazendo-o padecer a mais excruciante dor.

Por que ele estava disposto a fazer isso? Por que ele entrou neste mundo de terrível sofrimento, falta de paz e caos?

Se quisermos compreender a extensão do sacrifício do Servo, precisamos olhar para a natureza da violência que ele sofreu.

Frequentemente, lemos relatos entristecedores sobre abusos e degradação moral ocorrendo em contextos militares ao redor do mundo. O que choca nessas notícias é o contraste: homens e mulheres treinados sob as disciplinas mais rigorosas, que deveriam ser exemplos de ordem, às vezes entregam-se a uma pecaminosidade imunda no trato com os outros — seus prisioneiros de guerra.

Essa mesma realidade sombria desabou sobre Jesus.

Cristo foi entregue ao sistema militar de sua época — soldados romanos treinados na disciplina mais implacável do mundo antigo — e tornou-se o alvo de seus jogos cruéis, escárnios gratuitos e violência sarcástica.

Os Evangelhos registram com sobriedade a execução dessa brutalidade: após ser açoitado por ordem de Pilatos, Jesus foi levado ao pretório, onde toda a coorte se reuniu ao seu redor (Mt 27.26-27). Ali, os soldados o despiram e o cobriram com um manto vermelho-vivo, teceram uma coroa de espinhos e a cravaram em sua cabeça, colocando um caniço em sua mão direita como um cetro de deboche (Mt 27.28-29). Ajoelhavam-se diante dele em uma paródia de adoração, gritando: “Salve, Rei dos Judeus!”. Em seguida, cuspiam em seu rosto e, tirando-lhe o caniço da mão, batiam com ele em sua cabeça (Mt 27.30).

Esse cenário de “jogos vorazes” revela o caos moral de homens disciplinados que, no entanto, usaram sua força para esmagar Aquele que não oferecia resistência.

Por que o Messias se submeteu a isso?

Por que, meu Deus!?

Porque o Servo veio para estabelecer a paz e, para cumprir essa missão, ele não poderia permanecer à distância. Cristo teve de mergulhar diretamente no epicentro da desordem e do caos moral da humanidade — para arrancar de lá as suas ovelhas.

Vocês precisam entender Jesus desta forma, meus queridos amigos: quando se sentirem envergonhados ou horrorizados com o que leem sobre a brutalidade humana, lembrem-se de que o nosso Senhor não foi poupado de nada disso. Jesus adentrou ao epicentro da nossa falta de paz para poder desconstruí-la a partir de dentro. Ele aceitou ser a vítima dessa estrutura corrompida para que pudesse, por fim, oferecer um descanso real e uma paz que o mundo, com toda a sua disciplina externa, jamais seria capaz de forjar.

Isso é verdade em todas as nações. E foi verdade com o nosso Senhor Jesus; ele foi a vítima. Ele se tornou uma vítima para que nunca houvesse uma vítima no mundo que pudesse dizer ao Senhor Jesus: “Ninguém me entende”.

Talvez você seja uma vítima. Uma vítima real.

Mas nós vivemos em uma sociedade saturada por uma mentalidade de vitimização, onde somos tentados a nos definir apenas pelas opressões que sofremos ou pelas categorias em que nos encaixamos. Somos todos vítimas de alguma coisa: de ser goiano, nortista ou nordestino, de ser brasileiro, de ser preto, asiático, mulher ou pobre. Há uma inclinação cultural para que nunca assumamos a culpa por nada; a responsabilidade é sempre do sistema, da origem ou do outro. As teorias críticas, essas novas doutrinas seculares, estão todas por aí, virando a cabeça de todo mundo.

Contudo, precisamos fazer uma distinção vital.

Embora o vitimismo possa ser uma muleta retórica, a vitimização real existe. Alguns de vocês podem ser, de fato, vítimas de um tratamento abusivo, cruel, injusto e ofensivo — até criminal, realmente. E é precisamente aqui que o evangelho de Jesus Cristo nos oferece algo que nenhuma militância ou terapia pode oferecer: o consolo de um Salvador que não apenas observa a dor, mas que a habitou. Você pode ir a Jesus e dizer: “Eu sei que tu podes me trazer paz, porque tu fostes profunda e injustamente vitimizado. Tu me entendes, meu Senhor Jesus. Tu me salvas. E tu me ensinas como tratar meus algozes.”

A diferença é que, enquanto o mundo nos incentiva a permanecer no ressentimento da nossa condição de vítima, Jesus nos convida a olhar para Aquele que foi a Vítima Suprema. Ele atravessou a injustiça absoluta e saiu do outro lado com a alma resolvida, oferecendo-nos uma paz que não depende de reparação humana, mas da sua própria vitória sobre o caos.

Essa é a diferença fundamental em Jesus.

Há um fenômeno espalhado em todo o mundo ocidental: um número impressionante de pessoas ingressa nas profissões terapêuticas e sociais na tentativa de resolver os conflitos de suas próprias vidas (ou: grupo minoritário). É um dado frequente.

Mas, veja bem: se você está em profunda necessidade, não precisa de alguém que esteja apenas tentando organizar a própria existência enquanto tenta ajudar a sua; alguém que tenta organizar a própria cabeça, enquanto tenta arrumar a sua. Não! Nada disso.

Você precisa de alguém cuja vida já esteja resolvida.

Você precisa de alguém que tenha atravessado a vitimização mais cruel e saído do outro lado sem um único pingo de ressentimento na alma. Alguém que foi moído pela injustiça, mas que não retribuiu com amargura. Esse é Jesus. Ele não é um terapeuta em busca de autocura; ele é o Salvador que, por ter vencido o caos e o ódio com amor e obediência, tornou-se o único capaz de pacificar o nosso coração e nos conceder descanso real.

Em Cristo — e somente em Cristo —, a “vítima” (pela graça, por meio da fé) encontra não apenas acolhida segura, mas a libertação do peso do próprio ressentimento: a libertação do pecado.

3. A Vitória e a vindicação do Deus Forte

Há ainda um terceiro elemento neste quadro. O Servo torna-se o Maravilhoso Conselheiro (50.4), sofre para ser o Príncipe da Paz (50.5-6) e, finalmente, surge como uma imagem incrível de triunfo (50.7-9). É a visão de sua vindicação: ele é o Deus Forte.

Mas como o Servo suporta tamanha agressão sem retroceder? A resposta está em Isaías 50.7: “Porque o SENHOR Deus me ajuda. Por isso, não serei humilhado; por isso, fiz o meu rosto como uma pedra e sei que não serei envergonhado.”

Notem a psicologia dessa obediência.

Jesus, em sua humanidade, dependia inteiramente do auxílio do Pai. Ele não enfrentou a cruz com um estoicismo frio, mas com uma decisão da vontade: ele “fez o seu rosto como uma pedra”.

Isso nos remete diretamente ao que Lucas registra (9.51): “E aconteceu que, ao se completarem os dias em que seria elevado ao céu, Jesus manifestou, no semblante, a firme resolução de ir para Jerusalém.”

Em outras palavras: Cristo endureceu sua face contra o medo e as distrações, fixando o olhar no objetivo, certo da alegria que lhe estava proposta (Hb 12.2), pois sabia que, no tribunal de Deus, jamais seria envergonhado. Aos olhos do mundo, ele foi o homem mais humilhado da história; aos olhos do Pai, ele estava sendo coroado de glória.

É por essa confiança que, em Isaías 50.8, o Servo desafia o tribunal humano: “Perto está o que me justifica. Quem ousará entrar em litígio comigo? Compareçamos juntos diante do juiz! Quem é o meu adversário? Que se aproxime de mim!”

Vocês já notaram essa ironia nos Evangelhos?

Todos os que declararam Jesus digno de crucificação também declararam, em algum momento, que ele não era culpado de crime algum. O veredito do mundo é um colapso de contradições:

  • Pilatos afirmou repetidas vezes: “Eu não acho nele crime algum” (Jo 18.38; 19.4), e lavou as mãos diante da multidão (Mt 27.24).
  • Herodes Antipas não encontrou nele nada digno de morte (Lc 23.15).
  • Até o traidor Judas confessou ter entregado “sangue inocente” (Mt 27.4).
  • E o centurião romano, ao pé da cruz, declarou: “Verdadeiramente este homem era justo” (Lc 23.47).

O mundo o mata, mas é forçado a admitir sua justiça.

Contudo, o veredito final pertence a Deus.

E então o profeta usa estas palavras — Isaías 50.9: “Eis que o SENHOR Deus me ajuda. Quem poderá me condenar? Eis que todos eles envelhecerão como a roupa; a traça os comerá.”

Sinclair Ferguson recorda que, em seus tempos de estudante, visitou pequenas igrejas na costa norte da Escócia. Em uma delas, o ambiente exalava o mofo de um lugar em desuso. Acompanhado de um amigo, ele entrou na sala do pastor e, movidos pela curiosidade juvenil, abriram um armário antigo — uma experiência que ele descreve como “entrar em Nárnia”. Ali, encontraram uma túnica de pregação pendurada há décadas. Ao estender a mão e tocá-la, a veste simplesmente se esfarelou; as traças haviam consumido silenciosamente cada fibra do tecido. Ferguson observou:

“Nunca usei tão pouca energia para causar tamanha destruição; bastou um toque”.

Essa é a imagem da vitória de Cristo sobre seus opositores (Is 50.9). Ao final de sua vida terrena, parecia que os inimigos haviam triunfado e que a morte o havia sepultado definitivamente.

Contudo, bastou um toque do SENHOR para desmascarar a fragilidade de todos os adversários do Servo. Como uma veste roída por traças, o poder das trevas se desintegra diante dele, pois o Servo sofredor é, em verdade, o Deus Forte. No tribunal da eternidade, enquanto seus acusadores se desfazem como trapos velhos corroídos por dentro pela traça do pecado, Jesus permanece inabalável em sua vindicação.

Então o Servo faz o apelo final — Isaías 50.10: “Quem de vocês teme o SENHOR e ouve a voz do seu Servo? Aquele que anda em trevas, sem nenhuma luz, confie no nome do SENHOR e se firme sobre o seu Deus.” Esse apelo é seguido por uma advertência terrível, versículo 11:

Todos vocês que acendem fogo e se armam com flechas incendiárias, andem entre as labaredas do fogo de vocês e entre as flechas que vocês acenderam! De mim lhes sobrevirá isto: vocês se deitarão em tormentos.

O Salvador que nos conhece por inteiro

Embora tenhamos percorrido este retrato impressionante do Servo, Isaías ainda não nos revelou o cerne absoluto da questão — o que faremos, Deus permitindo, na próxima mensagem ao contemplar a profundidade da expiação.

Contudo, o profeta já nos conduziu longe o suficiente para enxergarmos que Jesus é o Salvador, o Conselheiro e o Deus Forte de que desesperadamente precisamos. Ele é necessário demais para ser desprezado, grande demais para ser ignorado e sábio demais para ser evitado.

Nossa resposta imediata deve ser o abandono dos “gravetos” nos quais nos apoiamos — as seguranças superficiais, os conselhos meramente terapêuticos e as ideias revolucionárias, disruptivas deste mundo… temos de abandonar tudo isso — para recorrermos Àquele que nos conhece de ponta a ponta.

Se ele foi vitimizado para nos entender e triunfou para nos salvar, por que buscaríamos socorro em qualquer outro lugar?

Aplicações Práticas

  1. A disciplina da audição: Assim como o Servo era despertado “todas as manhãs” para ouvir o Pai, nossa capacidade de enfrentar o cansaço e aconselhar outros depende da nossa submissão diária às Escrituras. Não espere ter sabedoria aos 30 ou 60 anos se você não cultiva o ouvido de aprendiz hoje.
  2. Identidade na vitimização: Se você foi alvo de injustiça ou crueldade, não busque cura em ressentimentos ou em uma identidade de “vítima” moldada pelo mundo. Vá a Jesus. Ele é o único que passou pela vitimização absoluta e saiu sem amargura, sendo capaz de oferecer paz real a quem sofreu o que Ele sofreu.
  3. Confiança no Veredito de Deus: Diante das críticas ou da oposição por causa da sua fé, lembre-se de que o “tribunal dos homens” é incoerente e passageiro. Se Deus o justifica em Cristo, a opinião do mundo se esfarelará como uma roupa velha, roída pela traça. Fixe seu rosto “como uma pedra” na vontade de Deus e você jamais será envergonhado.

S.D.G. L.B.Peixoto.

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