

18.10.2026
Você já freou no último segundo?
O carro da frente para sem aviso. Você pisa fundo no freio. O pneu frita no asfalto. O coração dispara. E o outro carro fica ali, a menos de um palmo do seu para-choque.
Você respira. As mãos tremem. Você pensa: foi por pouco.
Dois minutos depois, o que você está fazendo? Mudando a estação do rádio. Voltando à conversa. Reclamando do trânsito.
Pra onde foi o susto?
Acontece também com coisas maiores. O exame que finalmente deu bom. O desemprego que acabou. A dívida que foi paga. Alguém pergunta: “E aí, como você está?” E a gente responde com um aceno de mão, dizendo: “Ah! Já passou.”
Mas passou como? Passou por quê? Passou graças a quem?
Com o tempo, a história muda. O perigo vai encolhendo. O susto vira detalhe. E o livramento, sem que a gente perceba, vira coisa que a gente resolveu.
Será que foi mesmo por pouco? E, se foi, por pouco de quê?
Tem um salmo que não deixa o susto passar em branco. Ele volta pro perigo e faz o povo inteiro lembrar. Vamos ler.
Salmo 124 (NAA)
Cântico de peregrinação. De Davi.
1Não fosse o SENHOR, que esteve ao nosso lado — Israel que o diga —; 2não fosse o SENHOR, que esteve ao nosso lado, quando os nossos inimigos se levantaram contra nós, 3eles nos teriam engolido vivos, quando a sua ira se acendeu contra nós. 4As águas nos teriam submergido, e a torrente teria passado por cima de nós; 5águas impetuosas teriam passado por cima de nós. 6Bendito seja o SENHOR, que não nos deu por presa aos dentes deles. 7A nossa alma foi salva, como um pássaro do laço dos passarinheiros; rompeu-se o laço, e nós nos vimos livres. 8O nosso socorro está no nome do SENHOR, que fez o céu e a terra.
O salmo traz uma indicação logo no começo: “Cântico de peregrinação. De Davi.” Era canção de gente subindo para adorar em Jerusalém.
Sobre o “De Davi”, alguns comentaristas lembram que a tradução grega antiga e alguns manuscritos hebraicos não trazem essas palavras. E o perigo de que o salmo fala? Os estudiosos não chegam a um acordo.
Alguns veem aqui a volta do exílio. Outros objetam: as imagens lembram mais um ataque militar do que um cativeiro. E há quem pense em Davi diante dos filisteus (2Sm 5.17-25).
Um comentarista conclui que nada no salmo exige um cenário. Outro vai além: o salmo alcança todas as ocasiões em que Deus socorreu o seu povo.
Não sabemos qual foi o susto. E isso nos ajuda. Porque o salmo cabe no seu susto, no meu, no de qualquer um de nós.
Veja de onde o povo vem. Há quem leia a sequência assim: o Salmo 120 clama. O 121 ergue os olhos ao SENHOR. O 122 chega a Jerusalém. O 123 fica de olhos em Deus. E agora, no Salmo 124, o povo olha para trás.
É desse olhar para o livramento que sai a frase que o salmo quer deixar em nós:
Não estamos de pé por força nossa. O SENHOR esteve ao nosso lado, e é dele o nosso socorro.
Guarde essa frase. Vamos voltar a ela.
O salmo ensina algo muito prático para o susto que passa: como lembrar bem. Lembrar o tamanho do perigo, para reconhecer quem nos guardou. E isso serve a quem já saiu do aperto e a quem ainda está no meio dele.
O salmo faz isso em três movimentos. Primeiro: lembre-se de quem esteve ao seu lado (vv. 1-2). Segundo: veja o tamanho do que você atravessou (vv. 3-5). Terceiro: diga a quem você deve (vv. 6-8).
Foi por pouco. Mas nunca foi por conta própria.
Nunca foi por conta própria. Mas é aí que a gente tropeça. Passado o susto, a história vai mudando na boca da gente. Quem estava do nosso lado some da cena.
Como o salmo evita isso? Começando pelo nome de quem nos guardou. Antes de qualquer perigo, ele diz quem esteve conosco.
Leia o versículo 1: “Não fosse o SENHOR, que esteve ao nosso lado — Israel que o diga —”. Note: a frase começa e não termina. Fica suspensa. Se parasse aí, a gente poderia até pensar que nada de grave chegou a acontecer. Como se o salmista estivesse dizendo: era impossível o SENHOR não estar do lado deles. Por isso o desastre nunca pôde se completar.
Mas o texto continua. Leia o versículo 2: “não fosse o SENHOR, que esteve ao nosso lado, quando os nossos inimigos se levantaram contra nós”. O salmista repete. Por quê? Porque a gente esquece. E porque ele não quer que a frase termine ainda.
No versículo 1, ele nos segura suspensos. Diante do que quase aconteceu. Antes de dizer o que seria. E no versículo 2, ele completa: os nossos inimigos se levantaram contra nós. Mas, ah!, graças a Deus, o SENHOR esteve ao nosso lado.
Do versículo 3 em diante, o salmista vai dizer o que quase aconteceu. Mas aqui, nos versículos 1-2, ele quer, antes de tudo, que a gente lembre de quem esteve ao nosso lado. O SENHOR.
Você sabe como é. No perigo, o medo é enorme. Passou o perigo, a gente encolhe a coisa. Inventa explicação.
“Foi sorte.”
“Eu dei um jeito.”
“Ia passar de qualquer jeito.”
“O médico era muito bom.”
E, sem perceber, nós apagamos da memória quem realmente nos guardou. A repetição aqui, nos versículos 1-2, é um freio. Ela segura a gente no lugar, pra não sair correndo do susto.
Ninguém aqui está livre da amnésia espiritual. Nem quem já passou pelo aperto, nem quem ainda está nele. Esquecer é o que todos nós fazemos. O salmo não nos acusa. Ele nos ensina a lembrar.
Veja o convite: “Israel que o diga” (v. 1).
Alguém puxa, e o povo inteiro responde. O salmo não manda pensar baixinho. Manda dizer, junto.
Talvez alguém aqui esteja pensando: “O SENHOR esteve ao lado deles. Ao meu lado, não.”
Se é o seu caso, ouça o que o salmo faz. Ele não tenta explicar por que Deus agiu assim. Nem defende Deus. Ele conta o que o povo viu. Estávamos em perigo, e o SENHOR esteve ao nosso lado.
Isso é testemunho. E quem testemunha não fala de longe. Fala de dentro do perigo. Ninguém pagou pra cantar isso. É oração honesta, de quem passou pelo pior e viu o SENHOR ali.
É um convite a você: tenha fé.
Agora, uma tarefa pra você.
Pense num “Ufa! já passou.” da sua vida. Um só. Complete a frase: “Não fosse o SENHOR…” E diga em voz alta pra alguém. Não solte um “graças a Deus” no automático. Diga o que teria acontecido, não fosse o SENHOR que esteve ao seu lado.
E se o seu aperto ainda não passou, o salmo não promete que termina amanhã. Ele dá pra você o nome de quem esteve ao lado do povo em todo perigo. Comece por aí. Crendo: o SENHOR está ao seu lado. Tenha fé.
Quem esteve ao nosso lado tem nome. Mas lembrar o nome não basta. A frase ainda está suspensa. O salmo vai terminá-la agora, partindo do versículo 3.
A frase estava suspensa. Agora ela termina. E o que o salmista diz é duro. Ele não suaviza o que quase aconteceu. Porque só quem vê o tamanho do perigo tem o parâmetro correto para reconhecer quem de verdade o guardou.
Leia o versículo 3: “eles nos teriam engolido vivos, quando a sua ira se acendeu contra nós”.
Engolido vivo. Sem espada, sem batalha. Quem engole não precisa lutar. Só abre a boca — e devora.
Há quem note aqui a desproporção. De um lado, uma fera faminta. Do outro, um rebanho indefeso. Não havia disputa possível. Só entrega. Há também quem veja nessa fera uma figura maior, a do inimigo que espreita esperando a nossa distração — para nos tragar.
Seja qual for o rosto do perigo, a pergunta é a mesma. Você já esteve diante de algo grande demais para as suas próprias forças?
Agora o versículo 4. Leia a primeira parte: “As águas nos teriam submergido”. Quem conhece aquela terra sabe como é. A chuva cai na serra, escorre pelos vales secos, e em minutos o leito vazio vira rio. Sem aviso.
Conhecendo aquela topografia, Jesus falou de uma casa construída assim, sobre areia, nalgum vale, atingida pela enchente (Mt 7.27). Sobre o que você construiu a sua vida?
Leia o restante do versículo 4: “e a torrente teria passado por cima de nós”. A torrente não pede licença. Não olha o que encontra. Passa, esmaga e segue viagem.
Há dores que são assim. Não ficam morando com a gente. Atropelam e vão embora. Quando você olha pra trás, a coisa já passou, mas o estrago ficou.
Veja o versículo 5: “águas impetuosas teriam passado por cima de nós”. O salmista insiste. A água não só chega. Ela leva tudo. O emprego que parecia firme. A saúde que a gente nem notava. A juventude que a gente ostentava. A pessoa em quem a gente se apoiava. Não é assim? O que você achava que nunca sairia do lugar — e saiu?
Perceba como o salmista fala. Ele amplia o perigo de propósito. Não está exagerando. Está fazendo o povo sentir de novo o tamanho do abismo de onde foi tirado. E repare: o perigo é o cenário do salmo, não o assunto. O assunto é quem esteve ao lado.
Agora responda de si pra si, sem pressa. Diante de quê você se viu sem forças? O que quase levou você? Do que você diz “foi por pouco”? Dê nome a isso. Sem correr pro alívio. Se ainda está dentro, o salmo não pede que você finja calma. Pede que você reconheça o tamanho. E que saiba: você não está sozinho nele.
Então foi por pouco. Muito mais do que a gente admite. E, se foi por pouco, o que resta a quem escapou? Resta dizer a quem se deve o livramento.
É o que o salmo faz agora. Desça o dedo pro versículo 6.
Você já sabe o nome de quem esteve ao seu lado. Falta agora dizer isso em voz alta. Não basta saber que escapou. É preciso confessar, publicamente, a quem se deve essa graça.
Leia o versículo 6: “Bendito seja o SENHOR, que não nos deu por presa aos dentes deles.”
Note a imagem. Dentes. A mesma fera do versículo 3 volta aqui, mas agora do lado de fora da boca dela. O povo não foi entregue.
Há quem lembre aqui de um rei pagão que correu de madrugada até a cova dos leões, sem saber se encontraria o profeta Daniel com vida (Dn 6.19-20). E o encontrou inteiro. Não porque os leões estivessem mansos. Porque alguém fechou a boca deles.
“Bendito seja o SENHOR” não é frase de quem nunca viu dentes de perto. É frase de quem os viu e foi tirado de lá.
Leia o versículo 7: “A nossa alma foi salva, como um pássaro do laço dos passarinheiros; rompeu-se o laço, e nós nos vimos livres.”
O pássaro não escapou porque era esperto. Escapou porque o laço se rompeu. Ou melhor: o laço foi rompido — pelo SENHOR.
No fim do século XVII, o rei da França proibiu a fé protestante. Quem continuasse praticando era preso, perdia bens, podia morrer. Centenas de milhares de huguenotes, como eram chamados, fugiram do país, muitos rumo à América do Norte.
De um deles sobrou um selo, ainda hoje registrado nos livros de história da fé cristã. Não sabemos o nome dele. Mas sabemos o que mandou gravar ali. Uma rede embaixo, um pássaro escapando, e as palavras do versículo 7, que acabamos de ler: “rompeu-se o laço, e nós nos vimos livres.”
Esse homem sabia bem o que era ser caçado. E sabia de quem tinha vindo a liberdade.
Agora o versículo 8: “O nosso socorro está no nome do SENHOR, que fez o céu e a terra.”
“Nome” aqui quer dizer o próprio SENHOR, com tudo o que ele é. Há quem note que a frase até poderia ser lida assim: nosso socorro é o próprio SENHOR. E o salmo termina lembrando que esse SENHOR fez o céu e a terra.
Outros confiam em carros e cavalos. Em plano de saúde, em reserva no banco, em quem conhece de dentro, em sua própria força. Nada disso é necessariamente errado. Mas nada disso segura o mundo de pé. Só um Criador amoroso guarda o universo inteiro e ainda se importa com o seu aperto. O SENHOR que sustenta as estrelas é o mesmo que esteve ao seu lado no que quase te destruiu.
E note: mesmo quem já confessou isso com a boca esquece de novo, ao primeiro sinal de perigo. Não é falta de fé nova. É esquecimento velho, o mesmo do início do sermão. Por isso o salmo repete. E por isso a gente precisa repetir também.
Se você já saiu do perigo, diga hoje, com nome: “Bendito seja o SENHOR, que…” Complete com o que ele fez. Não guarde isso só pra você.
E se você ainda está no meio do aperto, o versículo 8 é pra você também. Você ainda não viu o fim da história. Mas já sabe de quem é o nome que sustenta a história e a sua própria vida.
O SENHOR esteve ao seu lado. E é dele o socorro que você tem agora, mesmo sem ver o fim.
Mas há um livramento maior do que este. Um perigo que nenhuma fera, nenhuma enchente e nenhum laço conseguem representar direito. E é pra esse livramento que o salmo, sem perceber, está apontando o dedo.
Toda fera, toda enchente, todo laço deste salmo apontam pra um perigo maior. Um perigo que nenhuma imagem dá conta de descrever direito.
Pense em alguém que jurou nunca abandonar Jesus. Prometeu morrer antes de ter que negá-lo. E, na primeira pressão, negou três vezes. Sozinho, ele teria se perdido ali mesmo, na queda e na vergonha. Mas Jesus tinha orado por ele antes.
E foi essa oração, não a força de Pedro, que o trouxe de volta. Se o SENHOR não tivesse intercedido, Pedro não teria se levantado. Foi por pouco. E não foi por conta própria.
Talvez você seja como Pedro. Confiante demais na própria fidelidade, até o dia em que ela falha. Mas o evangelho não começa dizendo “se esforce mais”. Começa dizendo: você precisa de alguém que já está ao seu lado antes mesmo de você pedir.
Não é à toa que foi justamente Pedro, depois de cair e ser restaurado, quem mais tarde escreveu que o nosso adversário, o diabo, anda ao redor como leão que ruge, buscando a quem possa devorar.
A mesma fera do salmo, a que quase engoliu Israel, tem hoje outro rosto. Ela não quer só o seu corpo ou os seus bens. Quer engolir a sua fé, a sua esperança, a certeza de que o SENHOR está ao seu lado.
E há algo ainda maior por trás disso. Lembra da enchente do salmo? A imagem de águas que engolem um povo inteiro não é nova. Ela vem de um dilúvio bem mais antigo, quando Deus julgou o mundo com água. Ninguém escapou daquele juízo por esperteza própria. Só quem estava dentro da arca. E lá foram colocados pelo próprio Deus.
Jesus chamou a própria morte de um batismo que precisava atravessar. Ele entrou nas águas do juízo que eram nossas. Pra que, quando você entra na água do batismo, isso signifique que você está unido a ele, pela fé. Morto pro pecado, vivo pra uma vida nova. O dilúvio afogou o mundo. A cruz afogou a dívida do seu pecado.
Lembra da torrente que passava por cima e seguia viagem, lá nos versículos 4-5 deste salmo? Ela só arrasta quem construiu na areia. O próprio Jesus disse isso. Quem ouve as suas palavras e as pratica é como o homem que edificou a casa sobre a rocha. Vieram as chuvas, transbordaram os rios, sopraram os ventos, e a casa não caiu. Porque estava fundada na rocha. Cristo é essa rocha. Quem está fundado nele não é arrastado pra sempre. Ele sustenta.
Lembra do carro que parou a centímetros do outro à frente, lá no começo? “Foi por pouco”, você disse. Mas há um perigo que você não viu chegando. E do qual só escapou porque alguém tomou o seu lugar debaixo da água da fúria de Deus.
Você tem contado essa história também como mérito seu?
“Sou uma pessoa boa.”
“Eu me esforço.”
“Não fiz nada tão grave assim.”
Essa é a versão mais perigosa do “eu me virei sozinho”. Porque é sobre a sua alma, não sobre um susto no trânsito.
O SENHOR está ao seu lado nisso, se você está em Cristo. Mas a história ainda não terminou. Um dia o livramento será completo. Sem fera, sem enchente, sem laço, nunca mais. Até lá, vivemos como quem já foi tirado da água, mas ainda navega rumo à outra margem. E como quem está sobre a rocha, mas ainda sente o vento e a força da água bater.
Se você nunca entregou essa dívida a Jesus, hoje é dia de fazer isso. Não é questão de tentar de novo, com mais esforço. É reconhecer que, sozinho, você já teria sido engolido. E voltar-se pra quem pode romper o laço do pecado e livrar você das presas do diabo que, como leão, anda ao derredor buscando a quem devorar.
Esse voltar-se se chama arrependimento: parar de contar a história como mérito seu. E fé: confiar que Cristo já atravessou a água do juízo de Deus por você, e que ele é a rocha onde você pode ficar de pé.
Se você nunca foi batizado nem caminha com uma igreja, essa é a confissão pública que o próprio salmo pede. “Israel que o diga” também é você dizendo, à vista de todos, a quem se deve a salvação.
E essa fé não fica só na confissão da boca. O mesmo Espírito que ressuscitou Jesus começa, em quem crê, um trabalho de troca. Menos “eu me viro sozinho”, mais “o SENHOR está ao meu lado”. Isso aparece nas coisas pequenas. Na oração que você recomeça. Na palavra dura que você não solta. No perdão que você concede sem mais achar que merece.
Então, ainda nesta noite, faça duas coisas.
Primeiro, escolha um perigo, físico ou não, do qual você foi ou está sendo tirado. E diga em voz alta, pra alguém: “Não fosse o SENHOR que está ao meu lado… eu já teria sido engolido vivo!”
Depois, examine-se. Onde você tem contado a história como mérito seu? O trabalho, a criação dos filhos, a sua própria fé, é tudo isso mérito seu, mesmo? Leve isso a Deus em oração, nomeando o que precisa do SENHOR.
Foi por pouco! Foi muito mais por pouco do que a gente imagina. Mas nunca foi por conta própria. O SENHOR esteve ao nosso lado. E estará para sempre. Dele, somente dele, é o nosso socorro.
S.D.G. L.B.Peixoto.
Mais Sermões
Mais Séries
Foi por Pouco
Pr. Leandro B. Peixoto