O CAMINHO DA RESTAURAÇÃO

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O CAMINHO DA RESTAURAÇÃO

LUCAS 24.13-35

13Naquele mesmo dia, dois dos seguidores de Jesus caminhavam para o povoado de Emaús, a onze quilômetros de Jerusalém. 14No caminho, falavam a respeito de tudo que havia acontecido. 15Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a andar com eles. 16Os olhos deles, porém, estavam como que impedidos de reconhecê-lo.17Jesus lhes perguntou: “Sobre o que vocês tanto debatem enquanto caminham?”. Eles pararam, com o rosto entristecido.[…]

OS PEREGRINOS DE EMAÚS

O texto que acabamos de ler relata dois peregrinos no caminho para Emaús. Ambos estão seguindo na contramão, deixando Jerusalém, voltando para casa, totalmente arrasados com a experiência que tiveram nos últimos dias lá na capital sagrada dos judeus.

Fica ainda mais intrigante esta história quando nos damos conta de que aqueles peregrinos no caminho para Emaús estavam voltando para casa no mesmo dia em que Jesus Cristo havia ressuscitado. Era o domingo da ressurreição. Final de tarde. O céu estava entornando no poente, chamando para o palco a noitinha que começaria a por um fim ao maior de todos os dias da história: o dia em que Jesus Cristo venceu o pecado e a morte, ressuscitando dentre os mortos.

O que havia acontecido com aqueles peregrinos? Por que, em vez de celebrarem, eles retornavam cabisbaixos para casa? Como o Senhor Jesus tratou do coração deles? De que maneira o rei da glória os restaurou e quais foram os frutos desta restauração na vida desses dois peregrinos?

Nesta noite de domingo de Páscoa, eu convido você a caminhar comigo ao lado desses dois homens, mantendo os olhos no coração deles e no Cristo que tratou do coração deles. Pode ser que você esteja também arrasado, decepcionado, frustrado ou entristecido, desistindo e voltando para casa, e precise de restauração para a alma. Talvez o seu cristianismo tenha perdido a graça e o sabor, e nesta noite, junto com os discípulos no caminho para Emaús, você encontre o caminho da restauração, ao dar de cara com o Cristo ressurreto.

Faremos essa nossa peregrinação com quatro paradas para contemplação.

A primeira parada será para contemplarmos a situaçãodos discípulos de Emaús. A segunda parada será para contemplarmos a cosmovisãodesses peregrinos. A terceira parada nos permitirá contemplar a ministraçãode Jesus na vida daqueles homens. A quarta e última parada nos permitirá contemplar a restauraçãoexperimentada pelos dois. Então vamos lá: a situaçãodos discípulos, a cosmovisãodos discípulos, a atuaçãode Jesus Cristo e a restauraçãodos discípulos.

1 A SITUAÇÃO DOS DISCÍPULOS DE EMAÚS

Os peregrinos de Emaús estavam decepcionadoscom a experiência que tiveram:

13Naquele mesmo dia, dois dos seguidores de Jesus caminhavam para o povoado de Emaús, a onze quilômetros de Jerusalém.

Esses “dois seguidores de Jesus” começaram com uma expectativa, e quando não as viram ser realizadas, decepcionaram-se, desistiram de tudo e decidiram retornar para casa em Emaús. É importante nos lembrarmos de que esses homens estão decepcionados e desistindo de continuar em Jerusalém no mesmo dia em que Jesus ressuscitou (v. 12):

Mas Pedro se levantou e correu até o túmulo. Abaixando-se, olhou atentamente para dentro e viu os panos de linho vazios; então voltou para casa, admirado com o que havia acontecido.

Gente, no dia da ressurreição, em vez de celebrarem, de se alegrarem, de se regozijarem, esses homens decidiram peregrinar 11 quilômetros, duas horas de viagem à pé, em uma estrada cheia de pedras, e completamente decepcionados! Ou seja: a maior mensagem que a historia da humanidade jamais ouviu nem se quer os comoveu. Alias, é como se eles estivessem dizendo: “Conversa de fanático essa história de Jesus ter ressuscitado!”

O Cristo ressurreto não foi o bastante para fazê-los ficar em Jerusalem. Cristo ter vencido a morte não foi capaz de segurar esses homens na igreja. Eles estavam voltando decepcionados para casa.

A decepção desses peregrinos se agravava na medida em que ele ficavam debatendo e remoendotudo o que viram acontecer em Jerusalem (vs. 14-15):

14No caminho, falavam a respeito de tudo que havia acontecido. 15Enquanto conversavame discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a andar com eles.

Impressiona como as pessoas que estão, de alguma forma, decepcionadas tentam encontrar conforto em conversas, através de palavras lançadas ao vento, em bochicho e conversinha. Muitos até “teologizam”, justificam-se em suas próprias palavras, desculpas e falsas concepções. Veja o nosso texto.

O verbo conversarno versículo 14 é homiléō. A palavra homiléticaé derivada de homiléō. Homilética é a arte de preparar sermões ou discursos; é a arte da eloquência sagrada. Em outras palavras, esses homens estavam conversando bonito, eloquentemente sobre suas decepções e frustrações. Provavelmente, encontrando todas as razões do mundo para justificarem a desistência do Cristo e o retorno para Emaús.

No versículo 17, quando Jesus se aproxima e lhes pergunta: “Sobre o que vocês tanto debatemenquanto caminham?”, o Senhor nos atesta do que se tratava aquele diálogo no caminho para Emaús: ficavam jogando palavras (lit. lógos) um ao outro, debatendo. Em outras palavras, Jesus diz que eles estavam jogando conversa fora — um frescobol de palavras desperdiçadas.

Pois bem, eles conversavam bonito, justificavam-se, debatiam, encontravam conforto em suas desculpas, mas Jesus chama isso tudo de papo furado! Tanto que eles se irritaram com Jesus. Ouçam (vs. 17-18):

17Jesus lhes perguntou: “Sobre o que vocês tanto debatemenquanto caminham?”. Eles pararam, com o rosto entristecido. 18Entãoum deles, chamado Cleopas, respondeu: “Você deve ser a única pessoa em Jerusalém que não sabe das coisas que aconteceram lá nos últimos dias”.

Dois outros sintomas pipocam aqui nesses versos, revelando-nos a situação desses peregrinos decepcionados com a fé: tristeza(v. 17 — “Eles pararam, com o rosto entristecido”) e ceticismo(v. 18 — “Você deve ser a única pessoa em Jerusalém que não sabe das coisas que aconteceram lá nos últimos dias”). O conversa que corria de boca em boca era de que Jesus havia ressuscitado, mas Cleopas e o amigo não creram (vs. 22-25):

22“Algumas mulheres de nosso grupo foram até seu túmulo hoje bem cedo e voltaram contando uma história surpreendente. 23Disseram que o corpo havia sumido e que viram anjos que lhes disseram que Jesus está vivo. 24Alguns homens de nosso grupo correram até lá para ver e, de fato, tudo estava como as mulheres disseram, mas não o viram.” 25Então Jesus lhes disse: “Como vocês são tolos! Como custam a entendero que os profetas registraram nas Escrituras!

O boato corria na cidade. E em vez desses homens compararem as conversar, os testemunhos sobre o túmulo vazio e a fala dos anjos com a revelação das Escrituras, eles ficaram ouvindo o que as vozes da cidade estavam lhes dizendo, dosando tudo pelo próprio coração ou razão. Então, ficaram sem entender (v. 25) escolheram não acreditar.

Havia uma crença entre os judeus de que a alma de um morto levava três dias para ir do corpo ao Sheol, o mundo dos mortos. Os dois discípulos, com o resto da cidade, provavelmente esperaram até o terceiro dia, e já que não tinham visto Jesus, tomaram como sinal de que o Senhor já havia chegado ao Sheol(e alguém deveria ter roubado o corpo). Pobres homens! Estavam completamente doutrinados pela superstição do povo, envenenados pelas próprias opiniões e profundamente influenciados pela opinião pública.

Mas havia ainda uma situação mais profunda para tudo o que eles estavam passando. Seus olhos não conseguiam enxergar o Senhorressurreto (vs. 15-16):

15Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a andar com eles. 16Os olhos deles, porém, estavam como que impedidos de reconhecê-lo.

Os olhos deles não conseguiam enxergar que à frente deles estava o próprio Jesus! A dureza do coração, pressupostos, conversas fiadas e vazias de sustentação bíblica, desculpas, opiniões pessoais e sociais, superstição e outras coisas mais os impediam de ver a verdade logo a sua frente! A presença do Cristo ressurreto não foi capaz de abrir os olhos deles para o que eles estavam fazendo. Daí que partiram de volta para Emaús.

Eis, então, a situação desses homens que deixaram Jerusalém e partiram de volta para Emaús: estavam decepcionados, justificavam-se com conversa jogada fora, entristecidos, completamente levados pela opinião pública, a superstição e o achismo; e ainda pior, estavam cegos para a verdade encarnada bem ali na frente deles.

A pergunta a se fazer agora é a seguinte: Como eles chegaram àquele ponto? Afinal, eles haviam se disposto a seguir o Senhor Jesus, deixaram tudo e se tornaram discípulos sinceros. Então, como eles foram parar numa situação tão infeliz? Isso nos leva à próxima parada nesta peregrinação no caminho para Emaús.

2 A COSMOVISÃO DOS DISCÍPULOS DE EMAÚS

O problema daqueles discípulos é a forma como eles viam a Cristo e a vida cristã.

As palavras de uma pessoa revelam o coração. E o que ouvimos dos lábios desses homens, em resposta às perguntas de Jesus (perguntas dos versos 17 e 19) revelam no que de fato eles criam e expõem seus erros. A boca fala do que o coração está cheio.

Ouçam as perguntas de Jesus e as respostas dos discípulos de Emaús:

17Jesus lhes perguntou: “Sobre o que vocês tanto debatem enquanto caminham?”. Eles pararam, com o rosto entristecido. 18Então um deles, chamado Cleopas, respondeu: “Você deve ser a única pessoa em Jerusalém que não sabe das coisas que aconteceram lá nos últimos dias”. 19“Que coisas?”, perguntou Jesus. “As coisas que aconteceram com Jesus de Nazaré”, responderam eles. “Ele era um profeta de palavras e ações poderosas aos olhos de Deus e de todo o povo. 20Mas os principais sacerdotes e outros líderes religiosos o entregaram para que fosse condenado à morte e o crucificaram. 21Tínhamos esperança de que ele fosse aquele que resgataria Israel. Isso tudo aconteceu há três dias. 22“Algumas mulheres de nosso grupo foram até seu túmulo hoje bem cedo e voltaram contando uma história surpreendente. 23Disseram que o corpo havia sumido e que viram anjos que lhes disseram que Jesus está vivo. 24Alguns homens de nosso grupo correram até lá para ver e, de fato, tudo estava como as mulheres disseram, mas não o viram.”

Os erros desses homens — a cosmovisão deles, a forma como eles viam o mundo, a vida e o cristianismo, estão entrelaçados na trama desse texto com pelo menos quatro fios ou linhas de pensamento: pragmatismo (v. 19), modernismo (vs. 20), materialismo (v. 21) e cientificismo (vs. 22-24). Observe.

1.1 Pragmatismo (v. 19)

O pragmatismoé a filosofia que defende resultados rápidos e vantajosos, de maneiras práticas e objetivas, não importando os meios. Quer ver as coisas funcionando, quer ver retorno rápido e imediato. John Sittema (em Coração de Pastor, ed. Cultura Cristã) define pragmatismo(um dos dentes do lobo, parte II, seção I) como segue:

Sistema ou movimento filosófico que enfatiza consequências e valores práticos como parâmetro para análise e determinação da validade de conceitos.

Charles Colson chama o pragmatismo de

individualismo utilitarista, o sistema no qual o indivíduo realiza escolhas morais através de um cálculo racional de modo a multiplicar os seus prazeres e diminuir a sua dor.

Pois bem, agora ouçam as palavras dos discípulos de Jesus (vs. 18-19):

18Então um deles, chamado Cleopas, respondeu: “Você deve ser a única pessoa em Jerusalém que não sabe das coisas que aconteceram lá nos últimos dias”. 19“Que coisas?”, perguntou Jesus. “As coisas que aconteceram com Jesus de Nazaré”, responderam eles. “Ele era um profeta de palavras e ações poderosas aos olhos de Deus e de todo o povo.

Vocês conseguem ouvir o pragmatismo deles nas entrelinhas da definição que fizeram de Jesus e seu ministério? Ouçam: Jesus de Nazaré, profeta de palavras poderosas, de obras poderosas, tanto diante de Deus como diante dos homens. Ou seja:

Jesus saiu de Nazaré, nunca nada de bom saiu de lá; Jesus, porém, foi a exceção a esta regra; ele saiu de Nazaré e provou ser competente.

Tornou-se profeta, predisse o futuro, conseguiu ver o passado das pessoas, proferiu sermões encantadores, era homem de palavras poderosas.

Foi poderoso em obras e ações, operava milagres maravilhosos — alimentou a multidão, fez Pedro andar sobre o mar, acalmou tempestades, ressuscitou mortos, curou doentes, expulsou demônios.

Enfim, ele era poderoso em palavras, seu discurso era capaz de atrair multidões, e suas obras comprovavam seu poder. De Nazaré para a fama. Ficou famoso entre os homens, com certeza ele era um homem de Deus. Bom, assim nós pensávamos que fosse. Mas ele morreu!

O que está acontecendo aqui?

Por não terem visto mais nenhum resultado que pudesse multiplicar o prazer e diminuir a dor, por não entenderem que o ministério de Jesus não tinha nada a ver com pragmatismo de resultados neste mundo, isto é, números e resultados impressionantes, fama e prestígio diante dos homens, sair do nada e se tornar alguém famoso e influente, ajuntar multidões de seguidores, saber se projetar para a mídia… por não ser nada disto esses, homens, naturalmente, se decepcionaram com Jesus e decidiram voltar para Emaús.

O problema deles é que o cristianismo de Jesus Cristo nada tem a ver com um sistema ou movimento que enfatize consequências e valores práticos como parâmetro para análise e determinação da validade de conceitos, até porquê, a maioria dos resultados produzidos terão impactos na eternidade, não aqui e agora.

O cristianismo de Jesus Cristo nada tem a ver com individualismo utilitarista — sistema no qual o indivíduo realiza escolhas morais através de um cálculo racional de modo a multiplicar os seus prazeres e diminuir a sua dor. Seguir Jesus, muitas vezes, fará o discípulo sofrer perseguições. O pragmatismo não serve de parâmetro para a vida cristã.

1.2 Modernismo (v. 20)

O modernismoestá preocupado com ideias e métodos novos, sem levar em conta ou mesmo desprezando os tradicionais. Veja que versículo 20 é como se eles dissessem: “Ele deveria ter feito alguma coisa, ele poderia ter usado uma estratégia diferente, poderia ter usado da força. Afinal, ele era poderoso. Só discursos e milagres não foram suficiente!”

20Mas os principais sacerdotes e outros líderes religiosos o entregaram para que fosse condenado à morte e o crucificaram.

É como se esses homens estivessem dizendo que Jesus fracassou por não ter feito a coisa certa. Ou seja, os métodos simples de Cristo o deixaram vulnerável nas mãos das autoridades; daquela forma ele não poderia mesmo ter conquistado o império Romano; ele deveria ter sido agressivo, ousado e mais criativo.

O modernismo em nossas igrejas tem questionado a mesma coisa: só discurso não adianta, é muito simplório; só pregação não é suficiente, pois o povo não quer mais ouvir; só evangelho não é o bastante, o povo hoje em dia precisa de mais alguma coisa, senão nos tornaremos obsoletos. Precisamos nos envolver na política, fazer mais alguma coisa para que o mundo nos respeite e nos ouça, precisamos de teatro, dança, arte, algo mais que impressione. Se assim não fizermos em pouco tempo estaremos acabados.

A mentalidade do modernismo, de fato, tem invadido a igreja de hoje, achando que sua mensagem (a mensagem da cruz, do evangelho, da vida, morte e ressurreição de Jesus, a mensagem da Páscoa) não é suficiente. Daí que se recorre ao marketing (com receitas de como fazer a igreja crescer), à psicologia pop (com uma excessiva e até pecaminosa preocupação com a autoestima), à parapsicologia (com dicas de pensamento positivo e força de vontade com nome de fé), às filosofias diversas (questionando as Escrituras) e ao coaching (uma versão readaptada, mais moderna, elaborada e sofisticada do evangelho da prosperidade). Tudo isso e muito mais por não crerem que o evangelho e a pregação pura e simples da Bíblia, focada em Cristo, sejam suficientes.

1.3 Materialismo (v. 21)

O materialismoé a tendência de nos preocuparmos mais com possessões materiais e com o conforto físico do que com valores espirituais.

Ouçam, mais uma vez, o que esses homens dizem no versículo 21:

21Tínhamos esperança de que ele fosse aquele que resgataria Israel. Isso tudo aconteceu há três dias.

Em outras palavras: nós achávamos que Jesus traria o reino de Davi de volta a Israel; achávamos que reinaríamos com ele sobre o mundo novamente; achávamos que Jesus nos daria poder e prestigio politico, e daí dominaríamos Roma; achávamos que nunca mais nos submeteríamos a Roma; achávamos que teríamos Cristo como nosso imperador (nosso presidente!); achávamos que Jesus traria o céu para a terra… Tanto era assim que eles pensavam que, ao aparecer aos discípulos, após a ressurreição, Jesus os ouviu se expressarem como segue (At 1.6):

Então os que estavam com Jesus lhe perguntaram: “Senhor, será esse o momento em que restaurará o reino a Israel?”.

Assim é ainda hoje: pessoas preocupadas em prosperarem fisicamente, materialmente, dominarem sobre alguma coisa. Cristianismo hoje, lamentavelmente, é um meio de se obter o melhor desta terra. Nada mudou desde os dias dos discípulos de Emaús. Não é sem razão, portanto, que tantos estejam decepcionados com o cristianismo.

1.4 Cientificismo (v. 22-24)

Outra cosmovisão que enxergamos nesses homens é um tipo de cientificismoou racionalismo. Explico. O cientificismo é uma

concepção filosófica de matriz positivista que afirma a superioridade da ciência sobre todas as outras formas de compreensão humana da realidade (religião, filosofia metafísica etc.), por ser a única capaz de apresentar benefícios práticos e alcançar autêntico rigor cognitivo.

Ou seja: cremos, desde que vejamos, toquemos e possamos mensurar empiricamente; cremos desde que caiba na compreensão humana.

Pois bem, esses homens ouvem o testemunho das mulheres que foram ao túmulo e o viram vazio (vs. 22-23), ouvem o testemunho de alguns dos homens que também foram até lá (v. 24), mas não creram. Ouçam (vs. 22-24):

22“Algumas mulheres de nosso grupo foram até seu túmulo hoje bem cedo e voltaram contando uma história surpreendente. 23Disseram que o corpo havia sumido e que viram anjos que lhes disseram que Jesus está vivo. 24Alguns homens de nosso grupo correram até lá para ver e, de fato, tudo estava como as mulheres disseram, mas não o viram.”

Meu Deus! Eles ouviram dois testemunhos diferentes, mas que diziam a mesma coisa, vindos de pessoas que eles conheciam e confiavam, mas, como não viram a ressurreição acontecer, com seus próprios olhos, não viram sentido em tudo o que ouviram. Sendo assim, decidiram não crer.

Visto por esse ângulo, podemos falar de pelo menos dois tipos de racionalismo em nossas igrejas hoje: (a) o racionalismo secular, que ignora todo e qualquer sobrenatural da palavra de Deus, ignora os elementos básicos da fé, é a teologia liberal; e (b) o racionalismo religioso, que é o oposto do primeiro, pois precisa ver o sobrenatural para poder dizer que Deus é Deus; sem os arrepios, sem os sinais e maravilhas e sem os exageros da religião, essas pessoas não conseguem ver Deus sendo Deus, é a teologia pentecostal e neopentecostal.

Os erros dos discípulos de Emaús, a cosmovisão deles, a forma como eles viam o mundo, a vida e o cristianismo os fez padecer em desânimo. Como Jesus atuou para restaurá-los? Veremos a seguir.

3 A ATUAÇÃO DE JESUS CRISTO

Jesus atuou em etapas para restaurar Cleopas e seu amigo peregrino. Observe.

Primeiro, o Senhor se aproximou deles (v. 15):

15Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a andar com eles.

Veja que “Jesus se aproximou e começou a andar com eles”. Nada de especial, espetacular ou exuberante. Jesus apenas aproximou-se e caminhou com eles, ouvindo-os. O Senhor os alcançou na estrada do desânimo, no caminho da desistência, na peregrinação do desespero e da revolta.

Esse é o nosso Senhor Deus: Ele nos alcança, aproxima-se de nós e anda conosco na hora de maior dor. Nossos olhos é que não costumam ver — “Os olhos deles, porém, estavam como que impedidos de reconhecê-lo” (v. 16). Mas o Senhor está sempre próximo de nós nas horas que menos conseguimos perceber.

Segundo, o Senhor interagiu com os discípulos (vs. 16-19):

16Os olhos deles, porém, estavam como que impedidos de reconhecê-lo.17Jesus lhes perguntou: “Sobre o que vocês tanto debatem enquanto caminham?”. Eles pararam, com o rosto entristecido. 18Então um deles, chamado Cleopas, respondeu: “Você deve ser a única pessoa em Jerusalém que não sabe das coisas que aconteceram lá nos últimos dias”. 19“Que coisas?”, perguntou Jesus.[…]

Jesus puxa a língua deles, fazendo-os falar. Instiga-os a dialogar com ele, interagir com ele; de fato, instiga-os a orar. Aquilo que, havia muito, eles tinha parado de fazer — i.e., orar —, o Senhor os provoca a recomeçar. A oração é o fôlego da alma.

Na ora do sofrimento, somos tentados a falar com a gente mesmo, com quem pensa como a gente, remoendo os problemas (a exemplo dos discípulos de Emaús), e deixamos de falar com Deus. Assim, perdemos o fôlego da oração e a alma vai se asfixiando aos poucos. É nessa hora que o Senhor se aproxima e interage conosco.

Terceiro, o Senhor os levou para a palavra de Deus (vs. 25-27):

Não haverá restauração se não nos voltarmos para a palavra de Deus. A raiz de todos os nossos problemas está no coração que se blindou para os raios de luz que emanam das Escrituras, revelando-nos Jesus Cristo. Por isso que Jesus, tendo se aproximado e interagido com os discípulos, em seguida os levou para a Bíblia (vs. 25-27):

25Então Jesus lhes disse: “Como vocês são tolos! Como custam a entender o que os profetas registraram nas Escrituras! 26Não percebem que era necessário que o Cristo sofresse essas coisas antes de entrar em sua glória?”. 27Então Jesus os conduziu[diermēneúōdiá, através; e hermēneúō,interpretar, traduzir, explicar de forma clara e exata] por todos os escritos de Moisés e dos profetas, explicando o que as Escrituras diziam a respeito dele.

Quanto mais angustiada e deprimida e amedrontada estiver a alma, mais ela precisa da palavra de Deus nos revelando Jesus Cristo. John Stott (Entenda a Bíblia, ed. Mundo Cristão) escreveu assim:

Há apenas um modo de se adquirir concepções claras, verdadeiras, revigorastes e sublimes a respeito de Jesus Cristo, e esse modo é pela Bíblia. A Bíblia é o prisma através do qual a luz de Jesus Cristo decompõe-se em suas múltiplas e admiráveis cores. A Bíblia é um retrato de Jesus Cristo. Temos de contemplá-lo com tamanha intensidade de desejo que (pela obra graciosa do Espírito Santo) ele se torne vivo para nós, encontre-se conosco e preencha-nos com ele mesmo.

Quarto, o Senhor os serviu em comunhão (vs. 28-31):

28Aproximando-se de Emaús, o destino deles, Jesus fez como quem seguiria viagem, 29mas eles insistiram: “Fique conosco esta noite, pois já é tarde”. E Jesus foi para casa com eles. 30Quando estavam à mesa, ele tomou o pão e o abençoou. Depois, partiu-o e lhes deu. 31Então os olhos deles foram abertos e o reconheceram.

A comunhão com o Senhor se aprofunda na medida em que “insistimos” com ele para que fique conosco. É quando ele entra na intimidade do coração da gente, ceia conosco, serve-nos em amor, revela-nos seu sofrimento por nós e nossos olhos se abrem para ele em reconhecimento.

Eis, portanto, a cura par a alma deprimida, decepcionada, desistente: a proximidade de Jesus, sua interação conosco e a comunhão com ele pela Palavra. Devemos, pois, sentarmo-nos aos pés do ensino da Palavra— ler, estudar, memorizar e meditar na Palavra, ouvir a Palavra sendo ensinada; devemos também manter a alma orando, mesmo que apenas sussurrando, mas sempre orando; e pedir que Deus não deixe nossos olhos impedidos de vê-loconosco, andando conosco, servindo-nos. Nessas coisas está a nossa restauração.

4 A RESTAURAÇÃO DOS DISCÍPULOS DE EMAÚS

Veja que, tendo Jesus atuado na vida deles, eles foram se restaurando aos poucos, até se tornarem plenos de satisfação como no início. Só que agora com uma diferença: o entendimento estava correto, centrado em Jesus Cristo.

Leia a conclusão desta narrativa comigo, observando as mudanças provocadas nesses discípulos. Note que eles recobraram o interessepela palavra de Jesus (vs. 28-29), tiveram seus olhos abertos (vs. 30-31), o coração foi incendiadopela Palavra (v. 32), voltaram para o lugarde onde nunca deveriam ter saído (v. 33) e começaram a falar de JesusCristo (vs. 34-35). Aqueles homens estavam restaurados. Ouça (vs. 28-35):

28Aproximando-se de Emaús, o destino deles, Jesus fez como quem seguiria viagem, 29mas eles insistiram: “Fique conosco esta noite, pois já é tarde”. E Jesus foi para casa com eles. 30Quando estavam à mesa, ele tomou o pão e o abençoou. Depois, partiu-o e lhes deu. 31Então os olhos deles foram abertos e o reconheceram. Nesse momento, ele desapareceu. 32Disseram um ao outro: “Não ardia o nosso coração quando ele falava conosco no caminho e nos explicava as Escrituras?”. 33E, na mesma hora, levantaram-se e voltaram para Jerusalém. Ali, encontraram os onze discípulos e os outros que estavam reunidos com eles, 34que lhes disseram: “É verdade que o Senhor ressuscitou! Ele apareceu a Pedro!”. 35Então os dois contaram como Jesus tinha aparecido enquanto andavam pelo caminho, e como o haviam reconhecido quando ele partiu o pão.

A restauração do Senhor é completa! Ele nos acha onde estivermos.

O CAMINHO DA RESTAURAÇÃO

Nesta noite de domingo de Páscoa, domingo da ressurreição, pode ser que você esteja na pele daqueles discípulos de Emaús: desiludido, desesperançoso, desistindo, trilhando o caminho de volta ao seu mundinho sem Cristo. Pare onde você estiver!

Ore e peça que Jesus abra seus olhos e o faça ver o Senhor da glória.

Esforce-se para se fincar na palavra de Deus (peça a graça de Deus).

Olhe para o seu estado e olhe para a cruz; arrependa-se e creia; volte-se para Jesus.

Peregrinos, todos nós somos. Alguns seguem o próprio coração, enquanto outros seguem a razão, superstições ou religiosidade. Devemos todos seguir Jesus, sob a sombra da cruz, com os olhos em Jesus, o autor e consumador de nossa fé.

S.D.G. L.B.Peixoto

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