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10.05.2026

Como ter prazer na palavra de Deus

  • Pr. Leandro B. Peixoto
  • Série: Salmo 119 - Lâmpada Para os Pés e Luz Para o Caminho
  • Livro: Salmos

Salmo 119.97-104 (NAA)

מ Mem
97Quanto amo a tua lei! É a minha meditação todo o dia! 98O teu mandamento me torna mais sábio do que os meus inimigos, porque eu o tenho sempre comigo. 99Compreendo mais do que todos os meus mestres, porque medito nos teus testemunhos. 100Sou mais entendido do que os idosos, porque guardo os teus preceitos. 101De todo mau caminho desvio os meus pés, para observar a tua palavra. 102Não me afasto dos teus juízos, pois tu me ensinas. 103Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! Mais que o mel à minha boca. 104Por meio dos teus preceitos, consigo entendimento; por isso, detesto todo caminho de falsidade.

O cristianismo jamais pode ser reduzido a uma questão de exigências, resoluções ou força de vontade. Nem mesmo pode ser reduzido à moralidade. O cristianismo é sobre aquilo que amamos, aquilo que nos dá prazer, aquilo que é realmente saboroso para nós.

Quando Jesus veio ao mundo, ele próprio dividiu a humanidade de acordo com aquilo que ela amava: “A luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz” (Jo 3.19). Os justos e os ímpios são separados por aquilo em que encontram prazer: a revelação de Deus em Jesus ou a direção e inclinação do mundo, da carne e do diabo (cf. Ef 2.1-3).

ENTÃO, ALGUÉM PODE PERGUNTAR: como posso passar a ter prazer na palavra de Deus — a qual dá testemunho de Cristo? A resposta pode ser encontrada aqui, no Salmo 119.97-104.

Aliás, que estrofe revigorante é esta, a estrofe Mem — a décima terceira deste salmo! Ela é repleta de alegria e de amor pela lei de Deus, a tal ponto que — não sei se você notou — não há nela sequer uma única petição. Só há testemunhos do encantamento de Davi pela Escritura Sagrada, começando pelo versículo 97:

“Quanto amo a tua lei!”

Poderia ser este o mesmo Davi que, apenas duas estrofes antes, estava tomado por um desespero quase total? Sim, é exatamente o mesmo salmista. E o motivo da mudança é precisamente aquilo pelo que ele declara todo o seu amor: a Bíblia.

“Quanto amo a tua lei!”

O amor pela lei de Deus

Davi já havia mencionado seu amor pela lei de Deus anteriormente. Lá na sexta estrofe, nos versículos 47 e 48, ele havia declarado:

47Terei prazer nos teus mandamentos, os quais eu amo. 48Para os teus mandamentos, que amo, levantarei as mãos e meditarei nos teus decretos.

Portanto, Davi já havia declarado seu prazer e amor pelas Escrituras, mas… não com a frequência que talvez esperássemos. Aqui, na estrofe Mem, esse amor se torna sua ênfase principal.

Em seu livro Reflexões sobre Salmos, publicado pela Thomas Nelson, C. S. Lewis dedica um capítulo ao amor, ao valor e ao prazer pela lei de Deus, intitulado “Mais doce do que o mel”. Nele, com sua habilidade singular, Lewis mostra como os salmistas saboreavam a palavra de Deus — e a valorizavam. Ele confessa que isso lhe parecia muito estranho quando começou a estudar o Saltério.

Lewis entendia que alguém pudesse respeitar os mandamentos, concordar com eles e até se esforçar para obedecer a eles. Afinal, a lei de Deus nos diz: não faça isto, faça aquilo; não minta, fale a verdade; não furte, trabalhe com as próprias mãos; não adulterará, seja fiel; não cobice, contente-se com o que Deus lhe deu; honre pai e mãe; ame o seu próximo. Etc.

Isso, Lewis conseguia compreender. O que lhe parecia difícil era entender como esses mandamentos poderiam ser experimentados como algo doce, agradável e revigorante, especialmente quando obedecer contraria desejos fortes do coração.

Nesses momentos, argumenta Lewis, a lei parece mais semelhante “ao bisturi do dentista ou à linha de frente no campo de batalha do que a qualquer coisa agradável e doce.” (p. 59-60).

Por isso, o seu espanto era este: como os salmistas podiam não apenas obedecer à lei de Deus, mas amá-la, saboreá-la e encontrar nela verdadeiro prazer?

Lewis percebeu que aquilo que os salmistas amam na lei de Deus é o que ele chama de “A Ordem da Mente Divina, incorporada na Lei Divina”, e por isso ela “é bela”, “doce” e tudo o mais.

Nós costumamos pensar no amor principalmente como uma emoção, mas o Salmo 119 não é um salmo marcado por explosões emocionais. Ele não é sobre euforia. É sobre alegria. É um salmo ordenado, cuidadosamente construído, que reflete em sua própria forma algo daquilo que o salmista via na mente de Deus — algo que ele não apenas respeitava e valorizava, mas amava profundamente e em que se deleitava — como quem prova o doce do mel.

Lewis escreveu:

A Ordem da Mente Divina, incorporada na Lei Divina, é bela. O que um homem deve fazer senão tentar reproduzi-la, na medida do possível, em sua vida diária? Seu deleite está nesses estatutos (v. 16); estudá-los é como encontrar um tesouro (v. 14); eles o afetam como música, são seus “cânticos suaves” (v. 54); têm gosto de mel (v. 103); são melhores que prata e ouro (v. 72). À medida que os olhos do poeta vão-se abrindo cada vez mais, ele vê cada vez mais neles, e isso provoca admiração (v. 18). Isso não é vaidade, nem mesmo escrupulosidade; é a linguagem de um homem arrebatado por uma beleza moral. Se não pudermos compartilhar a experiência dele, seremos os perdedores. (p. 63).

Lewis conclui sugerindo que talvez um cristão chinês fosse capaz de apreciar o Salmo 119 melhor do que a maioria dos ocidentais, uma vez que sua cultura tradicional valoriza a ideia de que a vida deve ser ordenada e de que essa ordem deve reproduzir uma ordem divina (p. 63-64).

Nós, em geral, não pensamos assim. Somos práticos demais. Somos pragmáticos. Talvez por isso encontremos tão pouco sabor e prazer na palavra de Deus. Nós a usamos como meio para resolver os problemas que nós mesmos definimos como prioridade para a nossa vida. Raramente nos aproximamos da Bíblia como o meio pelo qual o Espírito Santo nos conduz ao Senhor Jesus Cristo e, por meio dele, a Deus, o Pai.

Agora, se a Bíblia é tudo isso mesmo — e ela é: valiosa, bela, doce e, portanto, prazerosa em si mesma —, então a pergunta é inevitável: COMO PODEMOS APRENDER A AMÁ-LA? COMO PODEMOS CULTIVAR PRAZER NA LEI DO SENHOR?

Cultivando o prazer na lei de Deus

Se perguntássemos ao salmista: “Davi, que conselho você me daria? Eu não sei se amo a palavra de Deus como deveria. Sinceramente, não tenho prazer nela, mas quero ter. O que você me aconselharia a fazer? Seja prático, por favor.”

À luz do Salmo 119, creio que Davi resumiria sua resposta em três pontos fundamentais: ore, medite e pratique.

Primeiro: ore por novas papilas gustativas na língua do seu coração.

O prazer espiritual não nasce de autossugestão. Ele nasce de um sabor que só Deus pode nos fazer sentir. É o que Davi testemunha ter obtido: novas papilas gustativas na língua do seu coração —  versículo 103: “Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! Mais que o mel à minha boca”.

Sem a intervenção de Deus, a lei não terá gosto ou será amarga, jamais doce e saborosa ao coração. Portanto, ore.

Davi orou — versículo 18: “Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei.”

Ore por novas papilas gustativas na língua do seu coração.

Segundo: enquanto ora, medite nos benefícios que Deus promete ao seu povo.

A oração não elimina a meditação; ela a acompanha.

Depois de pedir que Deus abra seus olhos — e até enquanto você pede isso — medite no bem que Deus promete aos que pertencem a ele. Pense na alegria de ter o Deus todo-poderoso como seu auxílio agora e para sempre. Busque enxergar aquilo que Lewis chamou de “a Ordem Divina incorporada na lei de Deus.”

É nessa direção que Davi caminha quando diz — no versículo 97: “Quanto amo a tua lei! É a minha meditação todo o dia!”

O amor cresce quando contemplamos o valor daquilo que é amado. Davi não tratava a Palavra como um manual de regras cansativas, mas como a revelação do Deus que promete, sustenta, corrige, guarda e conduz o seu povo. Como ele mesmo diz no versículo 162: “Alegro-me nas tuas promessas, como quem acha grandes despojos”. O prazer nasce e se sustenta quando percebemos e nutrimos o quanto recebemos por meio daquilo que Deus diz.

Terceiro: pratique, pela fé, o que a Palavra exige ou instrui.

Muitas vezes, a obediência vem antes do sentimento. Agostinho nos ajuda aqui quando diz: “Creia para que compreendas.” A fé não espera compreender tudo para só então obedecer. Ela confia em Deus, dá o passo da obediência e, no caminho, começa a compreender melhor a bondade daquilo que Deus ordenou.

Assim também acontece com a Palavra: primeiro nos submetemos a ela pela fé; e, à medida que caminhamos sob sua direção, Deus nos ensina a perceber sua sabedoria, sua doçura e sua liberdade. Davi afirma no versículo 45: “Andarei em liberdade, pois tenho buscado os teus preceitos”.

Para o mundo, liberdade é ausência de leis. Para o salmista, liberdade verdadeira é ter um caminho seguro para andar. Os preceitos de Deus não são grades que nos aprisionam; são trilhos que impedem o descarrilamento — e nos leva ao destino.

Quando você pratica a Palavra, não se torna escravo de regras. Você é libertado do caos, da tirania dos próprios desejos e das escolhas autodestrutivas — e então acha o prazer; o verdadeiro prazer. A liberdade de Davi é a liberdade de quem sabe, pela lei do SENHOR, para onde está indo — Salmo 16.11:

[Pela tua lei, Senhor] Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, à tua direita, há delícias perpetuamente.

Portanto,

  • ore por novas papilas gustativas na língua do seu coração;
  • enquanto ora, medite nos benefícios que Deus promete ao seu povo; busque ver a doçura da “Ordem Divina incorporada na lei de Deus”; e
  • pratique, pela fé, o que a Palavra exige ou instrui.

Colocando em prática

Pois bem, à luz de tudo isso, voltemos nossa atenção para a estrofe Mem. Davi começa dizendo, no versículo 97: “Quanto amo a tua lei! É a minha meditação todo o dia!”

Na sequência, ele apresenta CINCO RAZÕES PELAS QUAIS APRENDEU A AMAR A LEI DE DEUS — e, consequentemente, cinco razões pelas quais nós também devemos amá-la.

Portanto, faremos o seguinte: olharemos para essas razões a fim de aprender pelo que devemos orar, em que devemos meditar e o que devemos praticar enquanto buscamos provar a doçura da palavra de Deus; enquanto buscamos prazer na palavra de Deus.

Davi nos mostrará: a sabedoria do alto (vs. 98-100), as veredas da justiça (v. 101), Deus como mestre (v. 102), a doçura da Palavra (v. 103) e a sabedoria que liberta (v. 104).

1. A sabedoria do alto (vs. 98-100)

A primeira razão pela qual Davi aprendeu a amar a Lei de Deus é esta: a palavra de Deus é a fonte da verdadeira sabedoria. Essa é a razão mais enfatizada nesta estrofe. Ela aparece três vezes, em forma paralela, nos versículos 98 a 100:

98O teu mandamento me torna mais sábio do que os meus inimigos, porque eu o tenho sempre comigo. 99Compreendo mais do que todos os meus mestres, porque medito nos teus testemunhos. 100Sou mais entendido do que os idosos, porque guardo os teus preceitos.

Davi fala da Palavra como “o teu mandamento”, no versículo 98; “os teus testemunhos”, no versículo 99; e “os teus preceitos”, no versículo 100. Ao mesmo tempo, descreve o que essa Palavra produz nele: ela o torna “mais sábio” que os inimigos (v. 98), dá-lhe mais compreensão que os mestres (v. 99) e o torna “mais entendido” que os idosos (v. 100).

Mas como Davi pode dizer isso? Seria arrogância? Não. Davi não está exaltando a si mesmo. Ele está exaltando a palavra de Deus. Ele está comparando a sabedoria que vem do alto com a sabedoria meramente humana.

No caso dos inimigos, a comparação é mais clara. Davi pensa na habilidade que eles têm de manipular a verdade e as circunstâncias em benefício próprio. Nesse sentido, eles são astutos. O próprio Jesus disse que “os filhos do mundo são mais espertos na sua própria geração do que os filhos da luz” (Lc 16.8).

Mas esperteza não é sabedoria. Na melhor das hipóteses, ela serve apenas para esta vida. Na pior, torna-se perversa e destrutiva. Por isso, Jesus também perguntou: “De que adiantará uma pessoa ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mt 16.26).

Portanto, Davi não está dizendo que a Palavra o tornou capaz de vencer os inimigos nos próprios termos deles. Ele está dizendo algo maior: enquanto seus inimigos se julgam superiores à lei de Deus, ele se torna mais sábio justamente por se submeter aos mandamentos do Senhor.

E quanto aos mestres e aos aos mestres e os idosos? O ponto também não é desprezar o ensino ou a experiência. Mestres acumulam conhecimento. Idosos acumulam vivência. Sempre há muito a aprender com pessoas sábias. O que Davi afirma é que a sabedoria recebida por meio da palavra de Deus vai além de qualquer instrução meramente humana ou anos de vida.

O conhecimento humano pode ser útil, mas é limitado. A experiência pode ajudar, mas não basta. Sem a palavra de Deus, conhecimento e experiência não salvam, não santificam e não conduzem o coração no temor do Senhor.

Além disso, a sabedoria deste mundo passa. Paulo escreveu: “havendo ciência, passará” (1Co 13.8). Ideias envelhecem. Métodos são substituídos. Teorias são revistas. Mas a sabedoria recebida da Escritura permanece. O que Deus nos ensina em sua Palavra será verdadeiro no dia da nossa morte como foi verdadeiro no primeiro dia em que o aprendemos.

Portanto, ore para ver que a palavra de Deus é a fonte da verdadeira sabedoria — e medite nisso. Pratique-a. Ela nos ensina a viver diante de Deus, a discernir o valor da alma, a resistir à astúcia do mundo e a andar no caminho que permanece para sempre.

98O teu mandamento me torna mais sábio do que os meus inimigos, porque eu o tenho sempre comigo. 99Compreendo mais do que todos os meus mestres, porque medito nos teus testemunhos. 100Sou mais entendido do que os idosos, porque guardo os teus preceitos.

2. As veredas da justiça (v. 101)

A segunda razão pela qual Davi aprendeu a amar a Lei de Deus é esta: a Palavra de Deus o mantém no caminho certo e afasta seus pés dos caminhos errados.

Ele diz, no versículo 101:

101De todo mau caminho desvio os meus pés, para observar a tua palavra.

Essa mesma ideia já havia aparecido antes, no versículo 9, quando o salmista perguntou: “De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho?” E respondeu: “Observando-o segundo a tua palavra.”

Agora, Davi afirma a mesma verdade por outro ângulo. No versículo 9, ele diz que a Palavra guarda o caminho puro. Aqui no 101, diz que, por causa da Palavra, desvia os pés “de todo mau caminho”.

É conhecida a frase que diz: “A Bíblia afastará você do pecado, ou o pecado afastará você da Bíblia.” É simples, mas verdadeiro. A Palavra e o pecado não caminham em harmonia. Quando a Palavra governa o coração, ela afasta os pés do mal. Quando o pecado domina o coração, ele afasta a pessoa da Palavra.

E o salmista não está dizendo que estudar a palavra de Deus é apenas uma boa maneira, entre muitas outras, de manter o caminho puro. Ele está dizendo que este é o caminho necessário. Só a palavra de Deus define o que é pecado diante de Deus e só a palavra de Deus mostra o caminho pelo qual devemos andar.

A lei dos homens pode definir crimes. A consciência pode perceber certas injustiças. A sociedade pode condenar determinados comportamentos. Mas somente a lei de Deus nos mostra aquilo que ofende a Deus. Somente ela nos ensina, com autoridade, o que é pecado e o que é justiça. Somente ela nos revela a doçura da “Ordem Divina” na mente de Deus.

É por isso que a Palavra não apenas nos impede de errar o caminho; ela também nos mostra por onde andar.

Mas precisamos dizer algo mais.

A lei, considerada apenas como lei, expõe o pecado e condena o pecador. Ela mostra o erro, mas não salva por si mesma.

Quem vivifica, ilumina e capacita é o Espírito Santo, por meio da Escritura. É ele quem nos leva a crer no evangelho da salvação pela vida perfeita obra consumada de Jesus Cristo e, depois, nos capacita a viver segundo os seus ensinos.

Portanto, ore para ver que a palavra de Deus mantém você no caminho certo e afasta seus pés dos caminhos errados — e medite nisso. Sem a Palavra, confundimos pecado com preferência pessoal, justiça com opinião humana e liberdade com seguir os próprios desejos. Mas, pela Palavra, o Espírito Santo corrige nossos passos, guarda nosso caminho e nos conduz pelas veredas da justiça — até o céu, à presença de Deus Pai, por meio de Jesus Cristo.

3. Deus como mestre (v. 102)

A terceira razão pela qual Davi aprendeu a amar a lei de Deus é esta: estudando a Palavra, ele tem o próprio Deus como mestre.

Ele diz, no versículo 102:

102Não me afasto dos teus juízos, pois tu me ensinas.

A ênfase está no próprio Deus: “tu me ensinas”. Quando Davi estudava as Escrituras, ele não ouvia apenas palavras humanas, embora Deus tenha usado homens para escrevê-las. Davi ouvia a voz do próprio Deus.

É isso que torna a Bíblia diferente de qualquer outro livro. Nas Escrituras, Deus fala. Deus instrui. Deus corrige. Deus consola. Deus conduz seu povo. Deus se revela.

Por isso, há algo precioso aqui. No Éden, antes da queda, Adão e Eva desfrutavam da presença de Deus — o Deus que “andava no jardim quando soprava o vento suave da tarde” (Gn 3.8). Eles viviam diante de Deus e eram ensinados por Deus.

Nós perdemos o Éden por causa do pecado. Mas, quando abrimos a Bíblia com fé, temos uma antecipação dessa comunhão: o próprio Deus se aproxima de nós por sua Palavra, fala ao nosso coração e nos ensina. Penso que é nessa direção que Pedro aponta, em seu sermão no templo de Jerusalém, quando fala dos “tempos de refrigério” que vêm “da presença do Senhor” (At 3.20).

É claro que, quando abrimos a Bíblia para a ler, não voltamos ao Éden em estado de inocência. Mas recebemos algo real: Deus fala conosco nas Escrituras. Por isso, estudar a Bíblia não é apenas lidar com um texto antigo. É sentar-se, pela fé, diante do Deus vivo e ser instruído por ele.

Foi algo assim que Calvino e os demais reformadores quiseram dizer quando afirmaram que a Escritura é autenticada por si mesma. Ela traz em si mesma as marcas de sua origem divina, e o Espírito Santo confirma no coração do crente que, nela, é o próprio Deus quem fala. Como escreveu Calvino, a Escritura “exibe evidência tão clara de sua verdade como as coisas brancas e pretas o fazem de sua cor, ou as coisas doces e amargas, de seu sabor” (Institutas, I.7.2). Por isso, quando o cristão abre a Bíblia com fé, ele não está apenas diante de palavras antigas. Ele reconhece, pela ação do Espírito, a voz viva do Deus que ensina o seu povo.

Portanto, ore para ver que, ao ler e estudar a Palavra, você tem o próprio Deus como mestre — e medite nisso. Cada vez que você abre a Escritura, não está apenas buscando informações religiosas. Está se colocando diante daquele que fala, ensina e conduz o seu povo.

4. A doçura da Palavra (v. 103)

A quarta razão pela qual Davi aprendeu a amar a lei de Deus é esta: a palavra de Deus é doce ao paladar espiritual.

Ele diz, no versículo 103:

103Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! Mais que o mel à minha boca.

Davi já havia dito algo semelhante no Salmo 19.10, ao afirmar que os juízos do SENHOR “são mais doces do que o mel e o destilar dos favos”.

Nós costumamos pensar em doçura quando falamos de alimento: mel, frutas, sobremesas. Mas o salmista fala da palavra de Deus como algo doce. Ele não apenas reconhece que a Palavra é verdadeira, correta e necessária. Ele a saboreia.

E repare: ele fala das “palavras” de Deus. Isso pode nos ajudar. Talvez ele não esteja pensando na Bíblia apenas como um grande bloco de revelação, mas nas palavras específicas de Deus, nas promessas, nos mandamentos, nos versículos que ele aprendeu, guardou e meditou repetidas vezes.

Ninguém absorve toda a Escritura de uma vez. Mas podemos tomar as palavras de Deus uma a uma, guardá-las no coração, repeti-las, meditá-las, orar com elas e aprender a amá-las.

Pense no Salmo 23: “O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará.” Pense em João 3.16: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira…”. Pense em Romanos 8.28: “Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus.” Pense na promessa final da Bíblia: “Certamente venho sem demora.” E a resposta da igreja: “Amém! Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22.20).

Essas palavras sustentam a alma. Elas corrigem o gosto do coração. Elas nos fazem provar a bondade de Deus no meio de uma geração cansada, dura, ansiosa e cheia de vozes agressivas.

Portanto, ore para ver que a palavra de Deus é mais doce que o mel — e medite nisso. Memorize porções preciosas da Escritura. Repita essas palavras. Ore com elas. Leve-as para o seu dia. Aos poucos, Deus vai educando o seu paladar espiritual, e aquilo que antes parecia apenas dever começa a se tornar alimento, consolo e alegria.

5. A sabedoria que liberta (v. 104)

A quinta razão pela qual Davi aprendeu a amar a Lei de Deus é esta: a Palavra nos dá entendimento para romper com todo caminho falso.

Ele diz, no versículo 104:

104Por meio dos teus preceitos, consigo entendimento; por isso, detesto todo caminho de falsidade.

A estrofe Mem termina de modo oposto ao seu começo. Davi começou com amor: “Quanto amo a tua lei!” (v. 97). Agora, termina com repulsa: “detesto todo caminho de falsidade” (v. 104).

Essa é a sabedoria que liberta. Ela não apenas nos ensina a reconhecer o que é verdadeiro; ela nos desprende do que é falso. Ela não apenas nos mostra o bem; também nos ensina a rejeitar o mal.

Derek Kidner observou que a atração pela verdade e a repulsa pelo falso são gostos adquiridos. A Palavra vai educando o coração. Ela nos ensina a amar o que antes desprezávamos e a abandonar o que antes tolerávamos.

Portanto, ore para ver que a palavra de Deus dá entendimento e liberta você de todo caminho falso — e medite nisso.

Não trate o pecado como algo inofensivo. Leia, estude, aprenda e medite na Palavra. Com o tempo, ela se tornará cada vez mais doce ao seu paladar, e o pecado se tornará cada vez mais amargo ao seu coração.

O prazer que conduz a Cristo

Davi começou a estrofe dizendo: “Quanto amo a tua lei!” E, ao longo desses versículos, ele nos mostrou por que aprendeu a amá-la.

  • Davi ama a Palavra porque ela é sabedoria do alto: torna-nos mais sábios que a astúcia do mundo, mais seguros que o conhecimento meramente humano e mais firmes que a experiência sem Deus.
  • Davi ama a Palavra porque ela nos conduz pelas veredas da justiça: afasta nossos pés do mau caminho e nos ensina a andar diante do Senhor.
  • Davi ama a Palavra porque, por meio dela, Deus é o nosso mestre: quando abrimos a Bíblia com fé, não lidamos apenas com palavras; somos ensinados pelo Deus vivo.
  • Davi ama a Palavra porque ela é mais doce que o mel: suas promessas, seus mandamentos e seus testemunhos vão corrigindo o paladar da alma.
  • Davi ama a Palavra porque ela nos dá a sabedoria que liberta: ensina-nos a amar a verdade e a detestar todo caminho de falsidade.

Portanto, a pergunta final é esta:

O que você ama? Onde está o seu prazer?

Jesus disse que “a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz” (Jo 3.19).

VEJA: O problema do ser humano não é apenas falta de informação. É amor desordenado. É prazer no caminho errado. É resistência à luz.

Por isso, ore para que Deus abra seus olhos. Ore para que ele eduque seu coração. Ore para que ele corrija seus afetos. Ore para que a Palavra deixe de ser apenas dever e se torne deleite; deixe de ser apenas leitura e se torne alimento; deixe de ser apenas mandamento e se torne caminho de vida.

E, enquanto ora, medite. Medite na Palavra. Guarde-a. Pratique-a. Caminhe por ela.

Porque o prazer na Palavra não termina na própria Palavra como objeto isolado. O prazer na Palavra conduz a Cristo. Ele é o Verbo eterno de Deus. Ele é a luz que veio ao mundo. Ele é a sabedoria de Deus, a nossa justiça, o nosso mestre, o pão da vida e aquele que nos liberta de todo caminho falso.

Quem aprende a amar a Palavra aprende a amar a luz. E quem ama a luz vem a Cristo, para que fique manifesto que suas obras são feitas em Deus.

S.D.G. L.B.Peixoto.

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