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15.03.2026

A consolação do Criador

  • Pr. Leandro B. Peixoto
  • Série: Salmo 119 - Lâmpada Para os Pés e Luz Para o Caminho
  • Livro: Salmos

Salmo 119.73-80 (NAA)

י Iode
73As tuas mãos me fizeram e me formaram; dá-me entendimento para que eu aprenda os teus mandamentos. 74Aqueles que te temem se alegram quando me veem, porque na tua palavra tenho esperado. 75Bem sei, ó SENHOR, que os teus juízos são justos e que com fidelidade me afligiste. 76Que a tua bondade me sirva de consolo, segundo a palavra que deste ao teu servo. 77Venham sobre mim as tuas misericórdias, para que eu viva; pois na tua lei está o meu prazer. 78Envergonhados sejam os soberbos por me haverem oprimido injustamente; eu, porém, meditarei nos teus preceitos. 79Voltem-se para mim os que te temem e os que conhecem os teus testemunhos. 80Seja o meu coração irrepreensível nos teus decretos, para que eu não seja envergonhado.

Em Memórias do Subsolo, Fiódor Dostoiévski (1821–1881) sustenta que o sofrimento é a única causa/origem da consciência. Para seu narrador, a dor atua como um atrito necessário que interrompe o automatismo da vida e nos impede de ser meras “teclas de piano” — objetos previsíveis movidos apenas pela busca de prazer ou por uma lógica puramente racional. No entanto, o homem do subsolo permanece estagnado nesse diagnóstico. Ele desperta para a própria existência através da dor, mas termina encarcerado em sua amargura, sem encontrar um caminho de saída ou um Deus a quem recorrer.

O movimento que falta a Dostoiévski aparece em Boécio (c. 480–525 d.C.). Em A Consolação da Filosofia, escrito enquanto aguardava a execução, o lamento ganha uma direção intelectual e espiritual. Boécio compreende que sua angústia nasce de uma amnésia sobre quem governa o cosmos. Ao desviar o olhar da instabilidade cega da roda da Fortuna e fixá-lo na Providência, o filósofo reconhece que o universo possui um Artífice cuja ordem permanece intacta, mesmo quando o destino humano parece desmoronar. O consolo de Boécio surge ao alinhar sua razão à mente do Governante que sustenta a estrutura do mundo.

O Salmo 119.73-80 leva essa lógica ao seu destino final: o SENHOR. O salmista não apenas reconhece que a dor gera consciência (como fez Dostoiévski) ou que o mundo possui um Criador (como concluiu Boécio). Davi identifica esse Artífice como o SENHOR, um Consolador pessoal e relacional. O teólogo Derek Kidner observa que, pela primeira vez neste salmo, o autor conecta Deus como Criador a Deus como Legislador. Se Deus o fez, Deus é quem sabe a maneira correta de ele viver.

É na compreensão de que o Fabricante possui o manual de instrução da criatura que a alma encontra o seu consolo. Davi entende que a resposta para o seu gemido — a sua consolação — não está em apenas tomar consciência de si mesmo ou da existência através da dor; tampouco está na fuga, mas na submissão à pedagogia divina. O texto nos mostra a trajetória desse consolo estruturada em três realidades progressivas:

  • Primeiro, vemos que Deus nos criou para o conhecermos (v. 73), concedendo o entendimento necessário para assimilarmos a sua vontade.
  • Segundo, compreendemos que Deus nos aflige para o desfrutarmos (vs. 74-77), usando a dor com fidelidade para que provemos o consolo de sua bondade e de suas misericórdias.
  • E, por fim, constatamos que Deus nos santifica para o vermos (v. 78-80), forjando na aflição um coração irrepreensível que permanecerá firme diante dos soberbos.

Vejamos um ponto de cada vez.

Caminhemos pela décima estrofe do Salmo 119.

1. Deus nos criou para o conhecermos

No Catecismo Nova Cidade, publicado em 2017, a Pergunta 4 indaga: “Como e por que Deus nos criou?”. A resposta: “Deus criou-nos homem e mulher à sua própria imagem para o conhecer, amá-lo, viver com ele e glorificá-lo. É totalmente justo que, se fomos criados por Deus, vivamos para sua glória.”

Seria fácil pensar que, além de Gênesis 1.27 — “Assim Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (NAA) —, os autores do catecismo tinham este versículo em mente, ao menos em parte: o Salmo 119.73, que diz: “As tuas mãos me fizeram e me formaram; dá-me entendimento para que eu aprenda os teus mandamentos.”

Davi estabelece aqui o fundamento da sua petição apelando diretamente ao direito de propriedade de Deus sobre a sua vida. Ele utiliza dois verbos complementares para descrever essa ação: Deus o “fez” (ʿāśâ) e o “formou” ou estabeleceu (kûn). O argumento do salmista segue uma lógica irrefutável: se o SENHOR é o projetista que desenhou e executou a estrutura física e espiritual do ser humano, ele é o único legislador legítimo para essa criatura. Não somos o produto de forças impessoais ou do acaso; somos um projeto intencional.

É exatamente por haver um design intencional que Davi faz o seu pedido principal neste versículo: “dá-me entendimento”. A criatura caída não possui a intuição natural de como deve viver. Ela não sabe funcionar por conta própria. A consequência de reconhecer que fomos feitos pelas mãos de Deus é a admissão de que precisamos da mente de Deus.

Outro aspecto importante a se notar no versículo 73b é a fonte na qual Davi busca entendimento: a palavra de Deus. Ele pede ao SENHOR, o seu Criador: “dá-me entendimento para que eu aprenda os teus mandamentos.”

Davi não pede alívio imediato para os seus problemas, mas capacidade cognitiva e espiritual para aprender os mandamentos. Ele entende que a Lei não é um fardo imposto de fora, mas o Manual do Fabricante. Conhecer a Deus exige a instrução do próprio Deus. Sem esse entendimento, a criatura se desvia do propósito para o qual foi montada e inevitavelmente entra em colapso moral e espiritual. Fomos criados para conhecê-lo, e esse conhecimento só nos é acessível quando o Criador ilumina o nosso entendimento por meio da sua Palavra.

Para o fim de conhecê-lo, Deus também nos abençoa com mestres terrenos dentro da Igreja — pastores-mestres (Ef 4.11). Eles são as suas boas dádivas e nós precisamos deles. Ainda assim, não há substituto para o nosso instrutor celestial, o próprio Deus. Paulo nos diz em 1Coríntios 2.12-13 (NAA):

12E nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente. 13Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais.

Não importa quão inteligentes ou instruídos sejamos, nunca superamos a necessidade de que o Mestre divino tome a sua palavra e nos dê entendimento, como clama a oração do Salmo 119.73: “As tuas mãos me fizeram e me formaram; dá-me entendimento para que aprenda os teus mandamentos.”

Deus nos fez por uma razão: para que pudéssemos conhecê-lo. E esse conhecimento atinge o seu ápice em Jesus Cristo, que é “a expressão exata do seu Ser” (Hb 1.3) e “a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15). O apóstolo João chega a dizer que “Ninguém jamais viu Deus; o Deus unigênito [o Filho unigênito, Jesus Cristo], que está junto do Pai, é quem o revelou” (Jo 1.18).

Contudo, Cristo não é conhecido por deduções humanas, experiências religiosas ou de qualquer outra maneira, mas pela revelação das Escrituras. O próprio Senhor afirmou aos seus ouvintes: “Vocês examinam as Escrituras… e são elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5.39; cf. Lc 24.27).

Por fim, quem abre os nossos olhos para enxergarmos o Filho no texto sagrado é o próprio Espírito Santo. Jesus prometeu que o Espírito da verdade, o Consolador, enviado da parte dele mesmo e do Pai, “dará testemunho de mim” (Jo 15.26) e “Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e anunciará isso a vocês” (Jo 16.14).

O entendimento que o salmista suplica no Salmo 119.73 alcança a sua plenitude quando o Espírito Santo ilumina a palavra de Deus para nos apresentar o Filho, em quem conhecemos perfeitamente o Pai. Para isto é que fomos criados, e é nisto que consiste a vida eterna: conhecer o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem ele enviou (Jo 17.3).

2. Deus nos aflige para o desfrutarmos

Davi busca o entendimento da Palavra com o objetivo prático de suportar a sua aflição (119.73ss.). O tema do sofrimento é recorrente no Salmo 119. A própria palavra — “aflição”— aparece em dois versículos da estrofe anterior (vs. 67 e 71) e reaparece aqui (v. 75). A verdade central que aprendemos nestes versículos é que a aflição e a dor podem ser obras do próprio Deus. Na vida dos justos, elas jamais são sinais de maldição. Pelo contrário, podem muito bem ser um sinal da sua fidelidade. Deus pode causá-las para o nosso bem, como o versículo 71 deixa claro: “Foi bom que eu tivesse passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos.”

Portanto, sim, existe ganho na dor. O ganho na dor é a conversão da ortodoxia em vivência. A aflição estava fazendo o salmista aprender os estatutos de Deus na mente e no coração. Isso porque a dor tem o potencial de retirar a compreensão ou o conhecimento de Deus do campo das ideias e inseri-los na biografia do indivíduo. A teologia não testada é apenas uma teoria; a aflição é o ambiente onde a doutrina é provada — e se torna a verdade do próprio indivíduo, a ponte para Deus.

A mecânica desse conhecimento experiencial opera de três formas diretas nos versículos 74 a 77. É aqui que cada um de nós pode se enxergar no texto:

1. A alma ancorada em Deus se torna fonte de alegria para os que a estão observando

74Aqueles que te temem se alegram quando me veem, porque na tua palavra tenho esperado.

Esperar em Deus quando tudo está bem não impressionará tanto os que nos cercam. Entretanto, quando a nossa fé nos mantém ancorados no SENHOR e é sustentada por meio da Palavra, mesmo em meio à dor e ao sofrimento, tanto mais as pessoas se alegrarão em nosso Deus. Esse contraste obedece à lógica descrita em 1Pedro 1.6-7, onde o apóstolo diz que a provação atua como o mecanismo que comprova a genuinidade da fé, testando-a como o ouro no fogo para que resulte em louvor e glória. A firmeza na adversidade torna a fé irrefutável para quem a observa.

Aqui no Salmo 119.74, o ganho ultrapassa a experiência individual e afeta quem senta ao seu lado no banco da igreja. A esperança sustentada pelo salmista durante a dor torna-se uma prova visível para os outros. Essa dinâmica de encorajamento é a mesma registrada por Paulo em Filipenses 1.12-14, quando explica que as suas próprias algemas serviram para o progresso do evangelho, motivando os irmãos a anunciar a palavra com maior destemor.

Quando você atravessa um vale profundo e, ainda assim, reúne forças para frequentar um pequeno grupo e congregar nos cultos de domingo, confessando a bondade de Deus em meio às lágrimas, os seus irmãos são confrontados e encorajados. A congregação observa que a promessa se mantém intacta sob pressão. Ocorre, na prática, a transferência de suporte ensinada em 2Coríntios 1.4-6: a consolação que o sofredor recebe de Deus transborda para consolar e dar paciência àqueles que enfrentam as suas próprias lutas.

O seu sofrimento — quando vivido em alegria na esperança, paciência na tribulação e perseverança na oração (Rm 12.12) — transforma-se na evidência da confiabilidade de Deus para toda a igreja, e todos os demais ao seu redor, cotidianamente.

74Aqueles que te temem se alegram quando me veem, porque na tua palavra tenho esperado.

A alma ancorada em Deus se torna fonte de alegria para os que a estão observando.

2. A alma ancorada em Deus prova do banquete promovido pela aflição

75Bem sei, ó SENHOR, que os teus juízos são justos e que com fidelidade me afligiste. 76Que a tua bondade me sirva de consolo, segundo a palavra que deste ao teu servo. 77Venham sobre mim as tuas misericórdias, para que eu viva; pois na tua lei está o meu prazer.

Perceba quanto de Deus essa alma afligida provou. Davi aponta aqui para quatro das infinitas faces do diamante da glória divina: justiça (v. 75a), fidelidade (v. 75b), bondade (v. 76a) e misericórdia (v. 77a). Ele deseja viver (v. 77a) e ser consolado (v. 76a), mas compreende que a vida é fruto da misericórdia e o consolo é o resultado do amor leal e da bondade de Deus. Ou seja: nada disso ele poderá ter: vida e consolação, se ele não tiver o próprio Deus.

Mas veja: a âncora que sustenta toda essa estrutura é a soberania absoluta de Deus. Davi confessa no versículo 75: “Bem sei, ó SENHOR, que os teus juízos são justos e que com fidelidade me afligiste.”

O ganho experiencial aqui é a constatação de que a provação não é um erro de percurso ou um sinal de abandono. Pense no momento em que você recebe um diagnóstico médico severo, enfrenta a falência de um negócio ou lida com uma perda aguda. A inclinação imediata é questionar a competência e a bondade de Deus. Igualmente trágico é tentar “poupar” a reputação de Deus, jogando-o para o escanteio e dizendo que ele não tem relação com a sua dor — como se outras forças estivessem em operação e Deus fosse apenas um espectador passivo, aguardando ser chamado para oferecer um consolo paliativo.

O sofredor instruído pela Palavra, contudo, adquire a capacidade prática de analisar a própria aflição e identificar nela a coerência do caráter divino. O conhecimento de que Deus é soberano, justo, fiel, bondoso e misericordioso deixa de ser um postulado lógico e torna-se uma percepção testada no meio da adversidade. Você passa a olhar para a sua dor e dizer: “O Senhor sabe o que está fazendo comigo. E isso me fará provar mais dele; ele é justo e me fará provar de sua fidelidade, de sua bondade e de sua misericórdia.”

A âncora da alma de Davi é a fé na soberania absoluta de Deus, equilibrada por seus atributos. Esse conhecimento não apenas firma o homem segundo o coração de Deus, mas também o alimenta com delícias espirituais. Ele é consolado, possui vida plena e prazer real, mesmo quando as circunstâncias rugem.

Aplicação prática

A aplicação prática desse “banquete na dor” exige, primeiro, o exercício da reclassificação espiritual.

Diante de uma perda ou de uma crise de saúde, a nossa tendência é rotular o evento como um erro do destino ou uma ausência de Deus. Aplicar o versículo 75 é mudar o vocabulário da alma: em vez de perguntar “Por que eu?”, o aflito instruído pelas Escrituras aprende a dizer: “Senhor, eu sei que isto não é um ruído aleatório; pela tua fidelidade, o Senhor me trouxe a este ajuste para que eu prove um aspecto do teu caráter que eu jamais conheceria no conforto”. É o ato de reconhecer a mão do Criador mesmo quando o golpe do escultor parece ferir a pedra.

Além disso, esse banquete nos convida à oração baseada nos atributos. Frequentemente, nossas petições em tempos de aflição limitam-se ao pedido de livramento. Contudo, os versículos 76 e 77 nos ensinam a clamar por provisões específicas: a benignidade que consola na aflição e a misericórdia que sustenta o fôlego de vida na hora do desespero. Então… Se você está enfrentando uma fase de esgotamento emocional ou o silêncio do luto, sua oração deixa de ser apenas “tira-me daqui” e passa a ser: “Senhor, serve-me agora do teu amor leal; que a tua compaixão seja o meu oxigênio hoje”. O consolo real não é encontrado na ausência de problemas, mas na descoberta de que a misericórdia de Deus é a única condição estrita para a nossa sobrevivência psíquica e espiritual.

Por fim, essa alma que se alimenta de Deus na dor torna-se uma âncora visível para a comunidade. Quando você atravessa um vale profundo e, ainda assim, mantém-se firme na esperança da Palavra, você oferece aos seus irmãos uma prova viva da confiabilidade de Deus. O seu testemunho no pequeno grupo ou no banco da igreja não é o de alguém que não sofre, mas o de alguém que, ao sofrer, encontrou uma mesa farta. A sua estabilidade sob pressão demonstra para todos que o fundamento em que você se apoia não oscila com as marés da vida. Assim, a consolação que você recebe de Deus transborda para dar paciência e coragem àqueles que enfrentam suas próprias lutas.

A alma ancorada em Deus prova do banquete promovido pela aflição: ela prova mais de Deus — e serve de Deus às pessoas.

Pois bem, Deus nos criou para o conhecermos (v. 73); Deus nos aflige para o desfrutarmos (vs. 74-77); por fim…

3. Deus nos santifica para o vermos

O salmista vinha orando desde o versículo 76, onde pediu que a bondade de Deus o trouxesse consolo, e no versículo 77, onde clamou para que as misericórdias de Deus o mantivessem vivo. Agora, neste trecho final (vs. 78-80), o seu clamor se expande em três direções: ele ora pelos soberbos, pelos santos e pela sua própria santificação.

O julgamento dos soberbos (v. 78)

“Envergonhados sejam os soberbos por me haverem oprimido injustamente; eu, porém, meditarei nos teus preceitos.”

A alma que geme muitas vezes sofre sob o escárnio daqueles que não temem a Deus. O pedido de Davi não é por vingança pessoal, mas por justiça divina. Ele pede que os soberbos sejam “envergonhados” — ou seja, que a futilidade e a mentira de suas vidas sejam expostas diante da realidade dos juízos de Deus. Enquanto o mundo o oprime, a reação do salmista é o recuo para a Palavra: “eu, porém, meditarei nos teus preceitos”. O consolo aqui é saber que a última palavra sobre a nossa biografia não pertence aos nossos críticos, mas ao nosso Criador.

A comunhão dos santos (v. 79)

“Voltem-se para mim os que te temem e os que conhecem os teus testemunhos.”

O sofrimento pode gerar isolamento, mas o salmista deseja o oposto. Ele ora para que sua vida — marcada pela aflição e pelo consolo — sirva de ponto de encontro para os fiéis. Ele deseja que os outros crentes se aproximem para ver o que Deus fez. Há uma “pedagogia da observação” aqui: os santos se fortalecem ao contemplar um irmão que foi provado no fogo e não foi consumido.

A santificação individual de Davi torna-se um patrimônio para toda a igreja. E a vida dos santos ao seu redor, em contrapartida, o fortalece também.

Escrevendo aos romanos, Paulo expressou este desejo:

Romanos 1.11-12 (NAA) 11Porque desejo muito vê-los, a fim de repartir com vocês algum dom espiritual, para que vocês sejam fortalecidos, 12isto é, para que nos consolemos uns aos outros por meio da fé mútua: a de vocês e a minha.

A santidade pessoal (v. 80)

“Seja o meu coração irrepreensível nos teus decretos, para que eu não seja envergonhado.”

Este é o clímax da estrofe. O maior medo do salmista não é a dor física, mas a falha moral: ser envergonhado. Ele pede um “coração irrepreensível”, que remete à ideia de inteireza, pureza e integridade. Ele entende que a finalidade de ter sido “feito e formado” pelas mãos de Deus (v. 73) e “afligido em fidelidade” (v. 75) é que, ao final do processo, reste um homem santo.

Ser “envergonhado” aqui é o oposto de “ver a Deus”. O salmista sabe que, sem santidade, ninguém verá o Senhor. Portanto, Davi pede que a obra de Deus em sua alma seja tão profunda que ele possa subsistir no dia do juízo e na presença da glória divina, com um coração que não se desvia dos decretos do Rei — que ele não se envergonhe do SENHOR para que no final o SENHOR não se envergonhe dele (cf. Mc 8.38; Lc 9.26).

A aplicação deste encerramento para a nossa vida é direta:

  • Resiliência no silêncio: Diante da injustiça, sua maior defesa não é o contra-ataque, mas a meditação. A santificação ocorre quando você escolhe os preceitos de Deus em vez da autodefesa reativa.
  • Vulnerabilidade cooperativa: Não esconda suas cicatrizes. Permita que os que temem a Deus se voltem para você. Sua história de aflição e consolo é o que Deus usará para instruir outros que estão entrando no vale agora. E as histórias deles também fortalecerão a sua alma.
  • O foco no coração: Avalie o propósito da sua vida hoje. Você busca apenas o alívio da dor ou a integridade do coração? Lembre-se: Deus nos aflige não para nos destruir, mas para nos purificar, preparando-nos para a visão gloriosa de sua face em Jesus Cristo.

A resolução em Cristo

Dostoiévski viu a dor como despertar; Boécio viu a Providência como ordem; mas o Salmo 119 vê Deus como Redentor. Essa trajetória encontra sua resolução final na Cruz. Em Cristo, vemos o Criador vindo em nossa direção. No Calvário, Jesus experimentou a aflição máxima — não por infidelidade dele, mas pela fidelidade de Deus ao plano de resgatar seu povo dos pecados deles (Mt 1.21).

Diferente do “homem do subsolo”, você não precisa ficar preso ou presa na amargura, pois Cristo saiu do túmulo para garantir que nossa consciência desperte para a vida eterna. Diferente de Boécio, nosso consolo não é apenas uma harmonia intelectual com o cosmos, mas uma união vital com o Salvador Jesus Cristo que sofreu em nosso lugar e morreu como propiciação pelos nossos pecados, aplacando no próprio corpo a ira de Deus.

A consolação do Criador é esta: em Jesus, a dor não é o fim, mas o caminho de volta para Deus. Cristo foi afligido para que pudéssemos desfrutar de Deus; ele foi morto para que pudéssemos viver; ele ressuscitou para que pudéssemos, com corações irrepreensíveis, contemplar a sua face para sempre.

S.D.G. L.B.Peixoto.

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A consolação do Criador

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