17.08.2025
A história da nossa vida, aos nossos olhos, é escrita pelas escolhas que fazemos — momento a momento. Cada escolha, cada ação, cada palavra, cada silêncio ou omissão. Fio a fio, tecemos o tecido da nossa existência.
Quando nos encontramos em lugares desconfortáveis, distantes do que planejamos ou sonhamos, instintivamente fazemos um balanço da consciência. Talvez este seja o seu momento: você olha ao redor e enxerga um presente sem cor, sem alento para impulsionar o próximo passo. E, para piorar, sente o peso da culpa por escolhas que jamais deveriam ter sido feitas.
Mas aqui está a verdade que muda tudo: se o enredo da vida fosse escrito apenas pela sua mão, haveria motivos para desesperar. Contudo, a palavra de Deus afirma que a mão soberana do Senhor está acima das nossas mãos trêmulas. Ele governa não apenas os grandes eventos da história, mas também cada instante aparentemente banal da vida. Nada lhe escapa — nem o erro que você cometeu, nem a ferida que carrega, nem o caminho incerto que vê à frente.
Deus não escreve certo em linhas tortas; ele sempre escreve certo e reto, sem jamais sair da linha de sua vontade. Nós é que entortamos o papel. Mas ele toma os nossos garranchos — as linhas tortas que traçamos em rebeldia ou descuido — e, com graça soberana, integra tudo à sua história perfeita. Deus não aprova o pecado, mas o subjuga. Não se agrada da nossa teimosia, mas a transforma em testemunho da sua paciência. Assim, aquilo que parecia falha e desperdício, nas mãos do SENHOR, transforma-se em parte de um enredo que glorifica o seu nome e, ao mesmo tempo, assegura o nosso bem.
Veja o exemplo da vida de José do Egito. Traído pelos irmãos e vendido como escravo, percorreu um caminho que nenhum de seus sonhos de juventude poderia ter imaginado. No entanto, ao reencontrá-los, já no auge do poder, declarou com convicção inabalável, em Gênesis 50.20 (NVT):
— “Vocês pretendiam me fazer o mal, mas Deus planejou tudo para o bem. Colocou-me neste cargo para que eu pudesse salvar a vida de muitos.”
Ainda mais profundo é o que ocorreu com Jesus. A mão de Deus, invisível aos olhos humanos, escrevia a história por meio daquilo que parecia tragédia — as linhas tortas dos pecados dos homens. Como lemos em Atos 2.23 (NVT):
— “Ele foi entregue conforme o plano preestabelecido por Deus e seu conhecimento prévio daquilo que aconteceria. Com a ajuda de gentios que desconheciam a lei, vocês o pregaram na cruz e o mataram.”
E novamente, em Atos 4.27-28 (NVT):
— “De fato, isso aconteceu aqui, nesta cidade, pois Herodes Antipas, o governador Pôncio Pilatos, os gentios e o povo de Israel se uniram contra Jesus, teu santo Servo, a quem ungiste. Tudo que fizeram, porém, havia sido decidido de antemão pela tua vontade.”
Como lembra John Piper, a soberania absoluta de Deus não é uma ameaça para o crente — e a tão celebrada “liberdade”. A soberania absoluta de Deus é a rocha sobre a qual o crente descansa. Um Deus soberano e gracioso não apenas sustenta a vida, mas também redime aquilo que parecia irremediavelmente perdido. É nessa certeza que encontramos ânimo para prosseguir — mesmo quando as circunstâncias gritam o contrário, mesmo quando nossas escolhas foram equivocadas e nossos atos, vergonhosos até de lembrar.
Em Cristo, pela graça, por meio da fé, com arrependimento sincero e disposição para recomeçar com o poder do Espírito de Deus, é possível, sim, reescrever uma história torta. Por isso, cai por terra o ditado popular que afirma: “pau que nasce torto até a cinza é torta”. Mentira! Nas mãos do Carpinteiro de Nazaré, pau que nasce torto se endireita.
E é com essa verdade no coração que chegamos a Deuteronômio.
Deuteronômio é, sem dúvida, um dos livros mais importantes do cânon bíblico. Seu contexto histórico liga, como uma ponte, as experiências vividas por Israel após o êxodo do Egito — do Sinai à peregrinação no deserto — até as margens do Jordão, às vésperas da conquista de Canaã. Esse momento também marca a transição da liderança de Moisés para Josué.
Além de concluir o Pentateuco, Deuteronômio, sob inspiração divina, relê e interpreta os livros anteriores de Moisés, especialmente a Lei, tal como registrada em Êxodo, Levítico e Números. Não é apenas o desfecho histórico de uma etapa, mas a exposição e aplicação fiel da Lei, preparando o povo para viver plenamente a aliança na terra prometida.
Deuteronômio é também a base sobre a qual os profetas — de Josué a Malaquias — compreenderam e ensinaram a Lei. Suas ênfases teológicas revelam como Israel deveria viver na terra que o Deus soberano lhe concedera, e seu estilo literário, que une exortação e ensino, serviu de modelo para historiadores, profetas, salmistas e sábios de todo o Antigo Testamento.
É, portanto, um livro central para entendermos as Escrituras — uma chave que abre a porta para a leitura de toda a revelação de Deus no Antigo e no Novo Testamento.
Para se ter uma ideia mais concreta de sua importância, Deuteronômio está, junto com Gênesis, Salmos e Isaías, entre os quatro livros mais citados no Novo Testamento. O próprio Jesus, quando sob ataque no deserto, recorre a ele para resistir às tentações de Satanás (cf. Mt 4.1-11).
O livro se organiza em torno de três grandes discursos de Moisés ao povo de Israel. Podemos dar a essas pregações os seguintes títulos:
A história dos atos do SENHOR — onde Moisés revisa e interpreta as ações passadas de Deus em favor de Israel (1.1–4.43).
A expressão da vontade do SENHOR — onde Moisés interpreta a aliança do Sinai para o povo e os exorta a amar e obedecer a Deus na nova terra; é aqui que ele expõe os Dez Mandamentos (4.44–26.19).
A revelação da promessa do SENHOR — quando Moisés convoca Israel à renovação da aliança (caps. 27–30).
A última parte do livro apresenta a transição do SENHOR; esse trecho é composto pelos seguintes episódios: a de liderança de Moisés para Josué, a bênção final sobre Israel, a morte de Moisés e a conclusão do Pentateuco (caps. 31–34).
Moisés, portanto, prega a Israel sobre a história, a aliança e a transição conduzida pelo SENHOR. Esses temas percorrem todo o livro, lembrando à nova geração que não havia motivo para temer: podiam confiar que Deus agiria novamente em seu favor, como já havia feito no passado.
O chamado para obedecer ao SENHOR, ainda hoje, permanece firmado na graça que ele derrama abundantemente sobre nós, o seu povo. Permanece firmado, também, na Palavra que ele nos revelou e nas promessas que jamais falham.
Não há, portanto, o que temer — mesmo quando tudo parece sem cor, ou quando a culpa insiste em corroer o coração.
O livro de Deuteronômio começa com a apresentação de Moisés, o mediador, e as circunstâncias em que a aliança foi renovada com o povo (1.1-5). Essa renovação aconteceu no deserto, nas planícies de Moabe, a leste do Jordão (1.1). Deu-se após quarenta anos de peregrinação por caminhos no deserto que, normalmente, poderiam ser percorridos em aproximadamente onze dias (1.2-3). Ocorreu também depois das primeiras vitórias sobre dois povos cananeus, ainda antes de cruzarem o rio Jordão (1.4-5).
O primeiro parágrafo do livro conclui com estas palavras, Deuteronômio 1.5 (NVT): “Enquanto estavam na terra de Moabe, a leste do Jordão, Moisés começou a lhes explicar as seguintes instruções.”
A partida do Sinai (1.6-46)
A seguir, Moisés contará a história de Israel, partindo do Sinai. E para Moisés, a história tem seu ponto de partida em Deus, que criou os céus, a terra, os seres humanos e as nações. Ela não possui poder autônomo em si mesma; só tem sentido porque o próprio Deus lhe confere sentido, ao lidar com os seres humanos no espaço e no tempo.
Por isso, quando Moisés relata a história de Israel nesses capítulos, ele o faz consciente de que o SENHOR criou e sustentou a vida nacional de Israel. Ele proclama que a história dessa nação foi determinada, desde o princípio, por Deus — que a elegeu, firmou aliança com ela e a guiou. Em outras palavras, Moisés demonstra a fidelidade e a singularidade do SENHOR ao destacar seus atos poderosos na história em favor de Israel — apesar dos pecados desse povo. Leia, Deuteronômio 1.6-8 (NVT) — o ponto de partida no deserto:
6“Quando estávamos no monte Sinai, o SENHOR, nosso Deus, nos disse: ‘Vocês já ficaram muito tempo neste monte. 7É hora de levantar acampamento e seguir viagem. Vão à região montanhosa dos amorreus e a todas as regiões vizinhas: o vale do Jordão, a região montanhosa, as colinas do oeste, o Neguebe e a planície costeira. Vão à terra dos cananeus e ao Líbano, e avancem até o grande rio Eufrates. 8Vejam, eu lhes dou toda esta terra! Entrem e tomem posse dela, pois é a terra que o SENHOR jurou dar a seus antepassados Abraão, Isaque e Jacó, e a todos os seus descendentes’.”
Moisés inicia o relato da história de Israel destacando a iniciativa de Deus, desde o Sinai até Cades-Barneia, e mostrando, em contraste com a graça do SENHOR, a rebeldia da nação — rebeldia que provocou a ira divina (1.6-46).
Durante esse percurso, o SENHOR cuidou de Israel por meio de Moisés e de seus auxiliares, enquanto o povo marchava em direção a Canaã, obedecendo à sua ordem. É por isso que Moisés relembra o episódio do conselho de seu sogro, Jetro, quando o orientou a separar líderes para auxiliá-lo, conforme registrado em Êxodo 18.
Leia Deuteronômio 1.9-18 (NVT):
9Moisés continuou: “Naquela ocasião, eu lhes disse: ‘Vocês são um peso grande demais para eu carregar sozinho. 10O SENHOR, seu Deus, aumentou sua população e os tornou tão numerosos quanto as estrelas do céu. 11Que o SENHOR, o Deus de seus antepassados, os multiplique mil vezes mais e os abençoe como ele prometeu. 12Mas vocês são um peso grande demais para mim! Como poderei lidar com todos os seus problemas e conflitos? 13Escolham alguns homens respeitados de cada tribo, conhecidos por sua sabedoria e entendimento, e eu os designarei para serem seus líderes’.
14“Então vocês responderam: ‘Seu plano é bom!’. 15Assim, convoquei os homens respeitados que vocês selecionaram de suas tribos e os nomeei para serem juízes e oficiais sobre vocês. Alguns ficaram responsáveis por mil pessoas, outros por cem, outros por cinquenta, e outros por dez.
16“Naquela ocasião, ordenei aos juízes: ‘Deem atenção aos casos de seus irmãos israelitas e também dos estrangeiros que vivem entre vocês. Sejam completamente justos em todas as suas decisões 17e imparciais em seus julgamentos. Cuidem tanto dos casos dos pobres como dos ricos. Não deixem que ninguém os intimide, pois Deus dará a decisão por seu intermédio. Tragam-me os casos que forem difíceis demais para vocês, e eu cuidarei deles’.
18“Naquela ocasião, eu lhes ordenei tudo que deveriam fazer.”
Tinha tudo para dar certo: Deus como guia e líderes piedosos como pastores. O que poderia dar errado? Tragicamente, o pior dos pecados: o pecado da incredulidade. É isso que lemos em Deuteronômio 1.19-33 (NVT).
Em resumo: conforme a ordem do SENHOR, Israel partiu do Sinai e chegou a Cades-Barneia, às portas da terra dos amorreus. Moisés exortou o povo a tomar posse da terra prometida sem medo. No entanto, a pedido deles, foram enviados doze espiões para reconhecer a terra. Estes confirmaram que a terra era boa e trouxeram frutos como prova.
Apesar disso, o povo se rebelou, acusando o SENHOR de odiá-los e de querer entregá-los aos amorreus. Moisés tentou encorajá-los, mas foi tudo em vão.
Eis o desfecho, Deuteronômio 1.29-33 (NVT):
29“Eu lhes disse: ‘Não entrem em pânico nem tenham medo deles! 30O SENHOR, seu Deus, irá adiante de vocês. Ele lutará em seu favor, conforme tudo que vocês o viram fazer no Egito. 31Também viram como o SENHOR, seu Deus, cuidou de vocês ao longo do caminho, enquanto viajavam pelo deserto, como um pai cuida de seu filho. Agora ele os trouxe a este lugar’.
32“No entanto, mesmo depois de tudo que ele fez, vocês se recusaram a confiar no SENHOR, seu Deus, 33que vai adiante de vocês buscando lugares para acamparem e guiando-os com uma coluna de fogo durante a noite e uma coluna de nuvem durante o dia.
Essa incredulidade e a presunçosa independência do povo despertaram a ira do SENHOR (1.34-46). Primeiro, sua ira foi provocada pela falta de fé de Israel na capacidade de Deus de lhes dar a terra. E sobrou até para Moisés, Deuteronômio 1.34-40 (NVT):
34“Quando o SENHOR ouviu vocês se queixarem, ficou irado e, por isso, fez um juramento: 35‘Nenhum de vocês desta geração perversa viverá para ver a boa terra que eu jurei dar a seus antepassados. 36A única exceção será Calebe, filho de Jefoné. Ele verá a terra, pois seguiu o SENHOR em tudo. Darei a ele e a seus descendentes parte da terra que ele explorou durante sua missão de reconhecimento’.
37“Foi por causa de vocês que o SENHOR se irou contra mim. Ele me disse: ‘Você também não entrará na terra! 38Seu auxiliar, Josué, filho de Num, entrará na terra. Encoraje-o, pois ele conduzirá o povo quando Israel tomar posse dela. 39Darei a terra a seus filhos pequenos, às crianças que não sabem a diferença entre certo e errado. Vocês temiam que seus pequeninos fossem capturados, mas serão eles que tomarão posse da terra. 40Quanto a vocês, deem meia-volta e retornem ao deserto, em direção ao mar Vermelho’.
Depois, a ira de Deus foi provocada pela presunção do povo, que tentou invadir Canaã sem a aprovação de Deus (1.41-46). O desfecho é cômico, se não fosse trágico:
Deuteronômio 1.43-46 (NVT)
43“Foi o que eu lhes disse, mas vocês não deram ouvidos. Em vez disso, rebelaram-se mais uma vez contra a ordem do SENHOR e, arrogantemente, foram à região montanhosa para lutar. 44Os amorreus que viviam ali saíram e os atacaram como um enxame de abelhas. Eles os perseguiram e os massacraram ao longo de todo o caminho, desde Seir até Hormá. 45Então vocês voltaram e choraram diante do SENHOR, mas o SENHOR se recusou a ouvi-los. 46Por isso, ficaram em Cades por um longo tempo.”
As peregrinações pelo deserto (2.1–3.29)
Depois da desobediência em Cades-Barneia, Israel retomou a caminhada pelo deserto (2.1). Não era mais um percurso livre e leve; era uma jornada sob a disciplina de Deus. Nem mesmo Moisés ficaria isento dessa mão corretiva do SENHOR (3.23-27).
A coluna de nuvem seguia à frente. A poeira subia sob os pés de milhares. Primeiro, chegaram às fronteiras de Edom. Moisés transmitiu a ordem clara: não toquem naquela terra, não provoquem guerra com seus moradores (2.2-8). Passaram à vista dos edomitas, um povo orgulhoso e belicoso, mas a Palavra do SENHOR era para seguir em paz.
Adiante, vieram as terras de Moabe. O SENHOR disse: não se envolvam com eles. Aquela terra não fazia parte da promessa (2.9-18). O mesmo se repetiu com os amonitas (2.19-23). Israel podia apenas atravessar as fronteiras, sem tomar nada, porque aquelas terras pertenciam a outros povos por determinação do próprio Deus.
Mas então, diante dos amorreus, a ordem mudou. O SENHOR disse: Agora, avancem! Eu entrego essa terra a vocês (2.24-25). A guerra contra Seom, rei de Hesbom, foi travada — e vencida — pela mão de Deus (2.26-37). Depois veio Ogue, rei de Basã, um governante temido por todos; também ele caiu diante de Israel (3.1-11).
O território conquistado foi repartido entre Rúben, Gade e metade da tribo de Manassés (3.12-17). Mas havia uma condição: seus homens de guerra deveriam marchar à frente das demais tribos até que toda a terra prometida fosse conquistada (3.18-20).
A narrativa chega a um ponto solene. Moisés, o servo fiel, ouve do próprio SENHOR que não entrará em Canaã (3.23-29). Uma disciplina justa e dolorosa. E assim a liderança começa a se voltar para Josué, o homem que guiaria a nova geração — uma geração chamada a obedecer ao SENHOR e confiar nas suas promessas.
Deuteronômio 3.21-29 (NVT)
21“Naquela ocasião, dei a Josué a seguinte ordem: ‘Você viu com os próprios olhos tudo que o SENHOR, seu Deus, fez a esses dois reis. Ele fará o mesmo a todos os reinos do lado oeste do Jordão. 22Não tenham medo dessas nações, pois o SENHOR, seu Deus, lutará por vocês’.
23“Também naquela ocasião, supliquei ao SENHOR: 24‘Ó SENHOR Soberano, tu apenas começaste a mostrar a este teu servo a tua grandeza e a força da tua mão. Existe algum deus no céu ou na terra capaz de realizar obras tão grandiosas e poderosas como as que tu realizas? 25Por favor, peço que me deixes atravessar o Jordão para ver a boa terra do outro lado do rio, a bela região montanhosa e o Líbano’.
26“Mas o SENHOR estava irado comigo por causa de vocês e não me atendeu. ‘Basta!’, declarou ele. ‘Não toque mais nesse assunto. 27Suba ao topo do monte Pisga e contemple a terra em todas as direções. Olhe bem, pois você não atravessará o Jordão. 28Encarregue Josué dessa tarefa, encoraje-o e fortaleça-o, pois ele conduzirá o povo para o outro lado do Jordão. Ele lhes dará como herança toda a terra que você está vendo.’ 29Assim, ficamos no vale junto a Bete-Peor.”
A exortação de Moisés
A seção final do primeiro sermão de Moisés traz o chamado central da aliança do SENHOR com Israel, um chamado simples e claro: obediência completa, pelo fé. Nada de seguir outros deuses. Nada de ídolos. A idolatria seria como uma erva daninha crescendo no coração — e, se não fosse arrancada, sufocaria a vida da nação e a expulsaria da Terra Prometida (4.1-43).
Moisés começa lembrando que essa obediência não era um peso, mas uma resposta natural ao Deus que havia se revelado de forma tão poderosa (4.1-14). Ele aponta para Bete-Peor, onde a desobediência custou caro e a ira do SENHOR caiu sobre os infiéis (4.1-4). Ele fala da proximidade de Deus — um Deus que, diferentemente dos falsos deuses das nações, não está distante, mas que fala com o seu povo e lhe dá leis justas (4.5-8). E adverte: Não se esqueçam. Deus é tremendo, mas invisível. E, se o coração se distrair, a memória pode falhar, e o povo pode esquecer Aquele que lhes deu tudo (4.9-14).
Depois, Moisés pinta um retrato do perigo da idolatria (4.15-31). Israel pertencia ao SENHOR — era seu tesouro exclusivo — e, por isso, não deveria se curvar diante das imagens dos cananeus (4.15-20). Ele lembra que a idolatria provoca o zelo da ira divina, e cita sua própria história como exemplo: até ele, o líder escolhido, provou a disciplina de Deus (4.21-24). Moisés alerta que seguir ídolos é como abrir a porta para o desastre: a terra será perdida e só será recuperada quando o povo se arrepender de todo o coração (4.25-31).
Por fim, ele aponta para os privilégios únicos que Israel recebeu (4.32-40). Nenhuma outra nação tinha visto o que eles viram. O Criador falou com eles. O Deus das promessas lutou por eles. E esse Deus é o único Deus do universo, capaz de dar vida e prosperidade que não acabam (4.39-40).
E, como registro final dessa etapa, Moisés conta que foi nesse tempo que ele separou três cidades de refúgio a leste do Jordão: Bezer, Ramote e Golã — lugares de abrigo para quem fugisse da vingança, buscando julgamento justo (4.41-43). Essa passagem revela a preocupação de Deus com a justiça e a misericórdia.
À luz do que vemos Moisés fazer nos quatro primeiros capítulos de Deuteronômio — e do que se repete ao longo de todo o Cânon, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento — duas observações merecem destaque. Afinal, a palavra de Deus não é um amontoado de relatos soltos; é uma história única, tecida pelo Espírito Santo, na qual cada geração olha para a revelação anterior na Escritura Sagrada e interpreta o que viveu e como deve viver à luz da aliança do Senhor.
A primeira observação é que, ao recapitular o passado de Israel, Moisés inaugura um processo que percorrerá toda a Escritura: livros bíblicos refletindo sobre material já escrito. Essa reflexão não se limita a recontar eventos, mas avalia, interpreta e organiza fatos antigos para exortar, corrigir e instruir uma nova audiência. Parte-se do pressuposto de que o leitor ou ouvinte já possui algum conhecimento acumulado e, portanto, pode sentir o impacto de rever a história sob uma nova luz. Isso exige que leiamos cada texto percebendo como ele se apoia em passagens anteriores e, ao mesmo tempo, as interpreta. Esse processo tem um nome: teologia bíblica.
A segunda observação é que Moisés estabelece um padrão que atravessa todo o cânon: avaliar a história de Israel à luz dos padrões da aliança. Causas e efeitos são interpretados segundo a fidelidade de Israel a Deus e a misericórdia de Deus para com Israel. Os profetas anteriores a Isaías — como os registrados em Josué, Juízes, Samuel e Reis — deixam isso claro: renovar e guardar a aliança, pela fé, traz bênção (cf. Js 24.15-27; 1Rs 8), mas quebrá-la — especialmente por meio da idolatria — resulta em juízo e colapso nacional (cf. Jz 1–2; 2Rs 17).
De Isaías a Malaquias, os profetas mantêm a mesma abordagem.
Isaías, com ironia, compara a quebra da aliança a um jumento que esquece seu dono (Is 1.2-9). Jeremias denuncia a violação dos Dez Mandamentos dentro do próprio templo (Jr 7.1–8.3). Ezequiel narra a história de Israel como uma sequência de promessas quebradas (Ez 20.1-29). Oséias compara a infidelidade da nação à traição de uma esposa adúltera (Os 1–3). E Malaquias conclama o povo eleito a viver conforme a Lei. Em todos esses casos, os atos históricos de Israel são medidos pelas exigências de Deus, especialmente como expostas em Deuteronômio.
Os Escritos também adotam esse olhar.
Salmos 78 e 106 interpretam o passado à luz das lições de Moisés. Orações de confissão, como as de Daniel (Dn 9.1-19), Esdras (Ed 9.1–10.12) e Neemias (Ne 9.1-37), ligam o sucesso ou o fracasso da nação à obediência à aliança. E Crônicas encerra o cânon hebraico reafirmando a mesma convicção: os acontecimentos de Israel seguem o padrão da aliança e estão sob o governo soberano do SENHOR Deus, que está sobre o céu, a terra e toda a história humana.
Quando chegamos ao Novo Testamento, não é diferente.
Paulo relembra o Êxodo em 1Coríntios 10 para advertir a igreja. Em Romanos 4 e Gálatas 3, ele interpreta a história de Abraão como exemplo de justificação pela fé, válido para judeus e gentios. Em Romanos 9 a 11, ele lê a trajetória de Israel à luz do plano soberano de Deus.
O autor de Hebreus faz uma releitura profunda do Antigo Testamento, mostrando que o sacerdócio, os sacrifícios e o tabernáculo eram sombras que se cumprem em Cristo. Ele lembra a rebeldia no deserto para advertir os crentes e recapitula a história da fé para incentivar a perseverança.
Outros escritores seguem o mesmo padrão: Pedro aplica a identidade de “sacerdócio real” ao povo da nova aliança; Tiago usa Jó e os profetas como exemplos de paciência; João, no Apocalipse, retoma imagens do Êxodo e das pragas como figuras do juízo final e da redenção plena.
Essa continuidade revela algo fundamental: a Bíblia lê a própria história como um testemunho da fidelidade de Deus e da centralidade da sua aliança.
Para nós, isso significa duas coisas.
Primeiro, que precisamos aprender a lembrar e reinterpretar a nossa vida à luz da palavra de Deus, reconhecendo a mão de Deus em cada etapa e aprendendo com as lições do passado do povo de Deus.
Segundo, que devemos avaliar nossa caminhada pelo padrão da aliança em Cristo, lembrando que o verdadeiro sucesso não é prosperidade visível, mas santidade ao Senhor.
O Deus que governou a história de Israel governa também a sua história. O SENHOR que foi fiel no passado permanecerá fiel até o fim. E, assim como toda a narrativa bíblica encontra seu ápice em Cristo, também a sua vida encontra sentido e direção quando é vivida — não à sombra dos seus erros e acertos — mas à luz dele: Jesus Cristo.
Portanto, se em Cristo Deus governa a história, por que você ainda tenta controlar tudo? Entregue a ele não apenas os problemas, mas também os planos e sonhos. Entregue a ele toda a sua vida, certo de que a sua história não está à mercê do acaso, nem presa aos seus erros ou acertos, mas segura nas mãos fiéis de Jesus. Confie. Descanse nele.
E mais: se a vida só encontra sentido à luz de Cristo, então fale dele. Conte como o Senhor tem escrito a sua história. Assim como Israel foi chamado a lembrar e anunciar, você também é chamado a proclamar as obras do nosso Deus. Ouça o que Paulo escreveu:
2Timóteo 1.8-11 (NVT)
8Portanto, jamais se envergonhe de falar a outros sobre nosso Senhor. E também não se envergonhe de mim, que estou preso por causa dele. Com a força que Deus lhe dá, esteja pronto para sofrer comigo por causa das boas-novas. 9Pois Deus nos salvou e nos chamou para uma vida santa, não porque merecêssemos, mas porque este era seu plano desde os tempos eternos: mostrar sua graça por meio de Cristo Jesus. 10E agora ele tornou tudo isso claro para nós com a vinda de Cristo Jesus, nosso Salvador, que destruiu o poder da morte e iluminou o caminho para a vida e a imortalidade por meio das boas-novas, 11das quais Deus me escolheu para ser pregador, apóstolo e mestre.
E agora, ao se prepararem para voltar ao mundo com a mensagem do evangelho, esta é minha súplica a Deus em favor de vocês:
Números 6.24-26
O SENHOR os abençoe e os guarde; o SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre vocês e tenha misericórdia de vocês; o SENHOR sobre vocês levante o seu rosto e lhes conceda a paz.
S.D.G. L.B.Peixoto
Mais Sermões
Mais Séries
Os atos do Senhor
Pr. Leandro B. Peixoto