VIVA COM O CORAÇÃO LEVE

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VIVA COM O CORAÇÃO LEVE

Salmo 61

[Ao regente do coral: salmo de Davi, para ser acompanhado com instrumentos de cordas.]1Ó Deus, ouve meu clamor! Escuta minha oração! 2Dos confins da terra clamo a ti, com meu coração sobrecarregado. Leva-me à rocha alta e segura, 3pois és meu refúgio e minha fortaleza, onde meus inimigos não me alcançarão. 4Permite-me viver para sempre em teu santuário, seguro sob o abrigo de tuas asas! Interlúdio5Pois ouviste meus votos, ó Deus, e me deste a bênção reservada para os que temem teu nome. 6Acrescenta muitos anos à vida do rei! Que ele viva por muitas gerações! 7Que ele reine na presença de Deus para sempre, e que o teu amor e a tua fidelidade o guardem. 8Então cantarei para sempre louvores ao teu nome, enquanto cumpro meus votos a cada dia.

Davi é um homem para os nossos tempos. Afinal, poucos foram os momentos de trégua ao longo de seus 70 longos anos (do quais, 30 até o trono e 40 já no trono de Israel). Assim como a maioria de nós, o homem segundo o coração de Deus passou a maior parte da vida, como ele mesmo descreve neste salmo (v. 2), com o “coração sobrecarregado”. Tome nota do currículo de dores desse homem de Deus:

  • esquecido pelo pai (1Sm 16.11; Sl 27.10);
  • incompreendido pelos irmãos (1Sm 17.28-29);
  • injustiçado e perseguido violentamente por Saul, o rei (1Sm 18.28-29);
  • atormentado pelas consequências do pecado contra Bate-Seba e Urias (2Sm 11);
  • arrebentado pela violência sexual que uma de suas filhas (Tamar) sofreu do irmão mais velho Amnom (2Sm 13);
  • detonado pelo assassinato do filho violentador — motivado por vingança, o próprio irmão Absalão matou Amnom (2Sm 13);
  • exilado do próprio trono, posto que ameaçado de morte pelo filho rebelado (Absalão) que desejou reinar em seu lugar (1Sm 15);
  • humilhado publicamente por aliados de Saul (Simei, 1Sm 16);
  • traído por amigos íntimos (Aitofel, 1Sm 16);
  • massacrado pela morte do filho assassino e rebelde Absalão (2Sm 18);
  • atordoado por constantes batalhas, internas e externas, pois ora estava apaziguando rebeldes, ora derrotando nações inimigas a fim de estabelecer a soberania de sua nação; foi tanto que entrou para a história como o rei que “derramou muito sangue”(1Cr 22.8); e por aí vai…
  • nem no leito de morte esse homem teve sossego, pois, mesmo então, houve outro filho (Adonias) se rebelando e armando para tomar o trono para si no lugar do herdeiro (Salomão) por direito legal (1Rs 1).

Se houve alguém que amargou o peso da angústia que o sofrimento impõe ao coração da gente, essa pessoa foi Davi. O salmo que temos em tela, o 61, é apenas mais um da farta coleção de cânticos de lamento individual que dele nós temos no Saltério.

Davi poderia tê-lo escrito durante qualquer uma das muitas vezes em que esteve em perigo. Segundo a tradição judaica, ele o compôs quando fugia de Saul. Mas o melhor contexto parece ser a rebelião sofrida da parte do filho Absalão (2Sm 15-18). Note que Davi orou a respeito de alguém que o tinha ao seu alcance e que havia se levantado como um inimigo (vs. 2-3):

2Dos confins da terra clamo a ti, com meu coração sobrecarregado. Leva-me à rocha alta e segura, 3pois és meu refúgio e minha fortaleza, onde meus inimigos não me alcançarão.

Também pediu proteção para sua vida (v. 6) e a segurança de seu trono (v. 7):

6Acrescenta muitos anos à vida do rei! Que ele viva por muitas gerações! 7Que ele reine na presença de Deus para sempre, e que o teu amor e a tua fidelidade o guardem.

Quem de nós, guardadas as proporções, de uma forma ou de outra não se identifica com o histórico de sofrimento de Davi? Quantos não são aqueles que, no varejo ou no atacado, não amargam os mesmos tipos de problemas do homem segundo o coração de Deus? Ou seja: desprezo dos pais, família em pé de guerra, incompreensão ou injustiça das pessoas, maldade e humilhação dos homens, rebelião dentro de casa, problema com filhos, morte de um filho, abuso ou violência (física, verbal e até sexual) de gente má e perversa, velhice com enfermidade física e conturbada pelos herdeiros, etc. Todos nós sofremos, e sofremos muito, de uma forma ou de outra. Sofremos tanto que o coração da gente vive “sobrecarregado” de sofrimento.

Graças a Deus, porém, que aqui neste salmo, Davi mais uma vez nos dá algumas dicas de como viver com o coração leve em meio ao peso dos problemasque sobre nós se despejam em toneladas. Sim, é possível viver com o coração leve. Mas, como? Veremos a seguir que, em resumo, vive com o coração leve quem clama a Deus (vs. 1-4), confia em Deus (vs. 5-7) e canta a Deus (v. 8).

1. Vive com o coração leve quem clama a Deus

No primeiro bloco do salmo (vs. 1-4), Davi está orando. A oração, além de ensinar que o desabafo do coração traz leveza ou alívio para a alma de quem ora a Deus, mostra-nos como Davi estava por dentro, enquanto ele orava. O homem segundo o coração de Deus se sentia afastado, sobrecarregado, humilhadoe ameaçado. Ouça (vs. 1-4):

1Ó Deus, ouve meu clamor! Escuta minha oração! 2Dos confins da terra clamo a ti, com meu coração sobrecarregado. Leva-me à rocha alta e segura, 3pois és meu refúgio e minha fortaleza, onde meus inimigos não me alcançarão. 4Permite-me viver para sempre em teu santuário, seguro sob o abrigo de tuas asas! Interlúdio

Você consegue ouvir a urgênciano clamor de Davi? Não era para menos, pois, longe do trono e do santuário onde Deus habita, caçado como um animal pelo próprio filho, o homem segundo o coração de Deus sentia-se abandonado, sobrecarregado, humilhado e ameaçado. O perigo era real e pesado demais para ele suportar. O que fazer nessas horas? Davi nos ensina que orar é o melhor remédio.

Obviamente que o salmista de Israel não estava, literalmente, “nos confins da terra”, mas era assim mesmo que ele se sentia, pois estava longe de casa e longe do santuário de Deus. Estava, portanto, descrevendo sua “geografia espiritual”, sua necessidade de sentir a presença de Deus com ele e em tudo que estava acontecendo.

A imagem do Senhor como “rocha” é familiar nos salmos de Davi (18.2, 31, 46; 62.2, 6, 7; etc.). Muitas vezes ele se viu incapaz de “subir” mais alto sozinho (e à vezes nós precisamos do ar de lugares mais altos para nos aliviar, ou da perspectiva elevada de Deus sobre os fatos para nos acalmar, não é mesmo?), por isso Davi queria ser levado à rocha mais alta e segura (v. 2).

Davi, de fato, precisava do Senhor, ouvido-o, aliviando-o, erguendo-o, abrigando-o, fortalecendo-o, protegendo-o e preservando-o. No salmo a seguir, ele deixou tudo ainda mais claro, quando escreveu assim (Sl 62.7): “Minha vitória e minha honra vêm somente de Deus; ele é meu refúgio, uma rocha segura”.

Aprendemos com Davi que nós nunca estamos tão longeque não podemos orar (aprendemos também com Jonas, posto que orou de dentro do grande peixe, no fundo do oceano, Jn 2, e Deus o ouviu); nunca estamos tão sobrecarregadosque não conseguimos clamar; nunca estamos tão humilhadosque não conseguimos pedir; nunca estamos tão ameaçadosque não conseguimos gritar por socorro. Deus está ao nosso alcança para que possamos clamar e nele encontrar alívio, leveza para a vida.

1Ó Deus, ouve meu clamor! Escuta minha oração! 2Dos confins da terra clamo a ti, com meu coração sobrecarregado. Leva-me à rocha alta e segura, 3pois és meu refúgio e minha fortaleza, onde meus inimigos não me alcançarão. 4Permite-me viver para sempre em teu santuário, seguro sob o abrigo de tuas asas! Interlúdio

2. Vive com o coração leve quem confia em Deus

No segundo bloco do salmo (vs. 5-7) Davi expressa sua confiança em Deus.

5Pois ouviste meus votos, ó Deus, e me deste a bênção reservada para os que temem teu nome. 6Acrescenta muitos anos à vida do rei! Que ele viva por muitas gerações! 7Que ele reine na presença de Deus para sempre, e que o teu amor e a tua fidelidade o guardem.

Quando Davi se tornou rei, ele fez algumas promessas ao Senhor e ao povo, e ele pretendia cumprir aqueles votos (v. 5). Durante todo o exílio no deserto, enquanto se escondia de Saul, Davi obedeceu ao Senhor (Sl 18.19-27) e, uma vez no trono, procurou ser um bom pastor para a nação. Daí a pergunta: Por que o Senhor teria cuidado de Davi durante todos aqueles anos de exílio, concedido-lhe, depois, o trono e, no final, permitiria que lhe fosse tomado por seu filho rebelde Absalão? Seu trono era sua herança da parte do Senhor (Sl 16.5–6), assim como a terra de Israel era a herança (posse) do povo de Deus (Sl 37.9, 11, 22, 29, 34). Não faria sentido ele perder tudo daquela forma tão humilhante, por isso ele orou confiante (v. 5):

5Pois ouviste meus votos, ó Deus, e me deste a bênção reservada para os que temem teu nome.

Seus pedidos nos versículos 6-7 referem-se à aliança graciosa de Deus com Davi (2Sm 7). O Senhor prometeu a Davi um trono e uma descendência para sempre (Sl 89.36), e tudo isso se cumpriu em Jesus Cristo (Lc 1.30–37; At 2.22–36). A preocupação de Davi não era pelo seu próprio nome ou família, mas pelo futuro de Israel e pelo grande plano de redenção de Deus. Seu próprio trono estava em perigo naquele momento, mas ele tinha confiança de que Deus cumpriria suas promessas:

6Acrescenta muitos anos à vida do rei! Que ele viva por muitas gerações! 7Que ele reine na presença de Deus para sempre, e que o teu amor e a tua fidelidade o guardem.

Em vista disso, vamos seguir o exemplo de Davi e confiar no Senhor, invocá-lo, obedecê-lo, cumprir nossos votos e seguir confiantes de que a obra de Cristo, em nós e através de nós, triunfará. Vive com o coração leve quem confia em Deus.

3. Vive com o coração leve quem canta a Deus

No último versículo do salmo, depois de ter clamado e expressado sua confiança em Deus, Davi cantou ao Senhor (v. 8):

8Então cantarei para sempre louvores ao teu nome, enquanto cumpro meus votos a cada dia.

Na cosmovisão bíblica, encontra-se a plenitude da presença de Deusno culto público (1Co 14.25), e a resposta correta para a bondade de Deus é cantar louvores e cumprir os votos feitos a Deus na companhia do povo de Deus. Inda mais, é no cumprimento do trabalho firme, inabalável e abundante na obra do Senhor, com o povo do Senhor que é a igreja, que o povo de Deus conseguirá cantar com leveza e alegria. Preste atenção à conjunção (enquanto) no versículo:

8Então cantarei para sempre louvores ao teu nome, enquanto [à medida que] cumpro meus votos a cada dia.

Vive com o coração leve quem, compromissado e engajado, canta a Deus.

Viva com o coração leve

Deus não tem a menor intenção de ver o seu povo com o “coração sobrecarregado”(Sl 61.2) pelos problemas. O convite do Senhor, aliás, é para que nos acheguemos a ele, lancemos sobre ele todo nosso cansaço e sobrecarga e ele nos aliviará; acharemos nele descanso para a alma; afinal, seu jugo (senhorio) é suave e seu fardo (ensino) é leve (Mt 11.28-30).

O chamado de Cristo é para vivermos com o coração leve, e a forma de se viver com o coração leve é confiandonas promessas de Cristo, levando nossos problemas a ele em oração (clamando),cantandocom regozijo na alma (Jo 14.1 e 27-28):

1Não deixem que seu coração fique aflito. Creiam em Deus; creiam também em mim. […] 27Eu lhes deixo um presente, a minha plena paz. E essa paz que eu lhes dou é um presente que o mundo não pode dar. Portanto, não se aflijam nem tenham medo. 28Lembrem-se do que eu lhes disse: ‘Vou embora, mas voltarei para vocês’. […]

Tudo o que Davi buscou em Deus neste salmo (rocha– v. 2; santuário– v. 4; abrigosob as asas – v. 4), Jesus reivindicou para si em sua vida e obra: ele é o santuário/templo, onde podemos ficar face a face com Deus (Jo 2.12-21); é a galinha que protege seus pintinhos amados, abrigando-os e suportando perigo e dor ao mesmo tempo que os mantém ilesos (Lc 13.34-35); é também a rocha(1Co 10.4) ferida por nós, de modo que em Jesus permanecemos a salvo de todo inimigo, até a nossa chegada no céu.

Em Cristo, portanto, estamos verdadeira e definitivamente seguros; ele nos leva de volta a Deus (eleva-nos), honra-nos, protege-nos, sustenta-nos, pois comprou-nos, com seu próprio sangue, todas as bênçãos celestiais. Viva em Cristo, viva com o coração leve.

S.D.G. L.B.Peixoto

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