SABEDORIA PARA VIVER [PARTE 1]

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SABEDORIA PARA VIVER [PARTE 1]

Salmo 37

25Fui jovem e agora sou velho, mas nunca vi o justo ser abandonado, nem seus filhos mendigarem pão.   

O Espelho da Providência

Nossa é a época em que os mestres, aqueles que ensinam, são os famosos. Assistimos a todo tipo de testemunho dado por eles nas propagandas dos mais variados meios de comunicação à respeito de produtos que são lançados ou das diversas causas que são defendidas.

Francamente, eu não deposito muita confiança naquilo que esses atletas, atores, atrizes, cantores ou cantoras têm para dizer sobre o que eles estão apresentando. Afinal, digam-me, por exemplo, o que jogadores de futebol entendem a respeito de motor de carro; o que atrizes ou modelos entendem de produção de pneus; o que atores entendem de aquecimento global; o que cantores entendem de fundos de investimento? Tudo o que sabem, se é que eles realmente sabem alguma coisa daquilo que estão vendendo, foi aprendido de especialistas para ser dito de modo convincente naquela propaganda. Na verdade, todos nós sabemos que eles estão apenas emprestando seus nomes para qualificar ou referendar algum produto ou alguma causa.

Quando ouvimos um testemunho, especialmente um conselho sobre a vida, a melhor coisa a se fazer é descobrir quem falou, o que falou e se realmente podemos confiar no que foi dito. O salmo que nós temos para hoje (o 37) não veio de um playboy; não há nele palavras de alguém que foi apenas instruído a dizer alguma coisa para convencer um determinado público; o salmista falava do que estava cheio seu coração.

Davi já estava velho quando escreveu este salmo; muitos anos já haviam sido vividos com Deus; grandes dificuldades ele mesmo já havia passado e também testemunhado na vida dos outros. É tanto que ele afirma o que lemos: “Fui jovem e agora sou velho, mas nunca vi o justo ser abandonado, nem seus filhos mendigarem pão” (Sl 37.25). O que se ouve nestas palavras? Davi está dizendo que viu justos sofrerem injustamente, também testemunhou as descendências deles padecerem, mas em todas aquelas tribulações ele pôde enxergar a mão de Deus socorrendo e amparando com graça os seus filhos.

Fruto dessa experiência com Deus, Davi pôde nos legar, aqui neste salmo, alguns dos versos mais amados da Bíblia. Observe a seleção que fiz, valendo-me da versão ARA:

4Agrada-te do SENHOR, e ele satisfará os desejos do teu coração. 5Entrega o teu caminho ao SENHOR, confia nele, e o mais ele fará. […] 16Mais vale o pouco do justo que a abundância de muitos ímpios. […] 23O SENHOR firma os passos do homem bom e no seu caminho se compraz; 24se cair, não ficará prostrado, porque o SENHOR o segura pela mão. 25Fui moço e já, agora, sou velho, porém jamais vi o justo desamparado, nem a sua descendência a mendigar o pão.

De tão maravilhoso, Tertuliano, um dos primeiros teólogos da igreja (160-220 d.C.), chamou este salmo de “O Espelho da Providência”. Realmente, o Salmo 37, mostra-nos o cuidado providente de Deus com seus filhos, os justos, vivendo num mundo dominado pelos injustos; ensina-nos como encarar a dura e triste realidade que é ver o ímpio prosperar, enquanto o justo é submetido a toda uma gama de dificuldades e injustiças. O salmo não trata da questão da origem do mal, mas fala como devemos encarar o sofrimento a que os justos são submetidos. É o Espelho da Providência de Deus.

O triste retrato do Brasil

Estamos vivendo um dos momentos mais sombrios da história de nosso país. Valores morais estão sendo tripudiados. A classe política, com raras exceções, atravessa seu momento mais repugnante. Nossa economia está tropeçando, em virtude da endêmica corrupção e da gestão esbanjadora e corruptora de nossos governantes. O desemprego cresce, a violência cresce, a desesperança cresce, a roubalheira cresce. Nesse vendaval de crise, a população ainda é chamada a pagar mais impostos e a receber menos benefícios. Nesse bojo, muitos empresários estão falindo porque não conseguem atender a toda a demanda dos tributos. Consequentemente, o desemprego aumenta e a crise se aprofunda.

Não é sem razão que temos ouvido com tanta frequência as seguintes expressões, por exemplo: “O Brasil precisa ser passado a limpo. O Brasil precisa de um choque ético. O Brasil precisa voltar-se para Deus.” Ficamos ainda mais tristes quando sabemos que tantos, notoriamente corruptos, enriqueceram de forma fraudulenta e vivem como se não tivessem feito absolutamente nada de errado. Eles seguem “mandando”. Daí que clamamos todos, a uma só voz: “Cadê a justiça desse país?” As palavras de Rui Barbosa parecem que foram escritas para os nossos dias:

De tanto ver triunfar as nulidades [coisas vãs ou frívolas]; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.

É triste, muito triste, o retrato do nosso Brasil. Mas, sabe o que é o pior de tudo? É o estado das igrejas, ditas evangélicas, pois elas abandonaram não apenas a sã doutrina, mas também as virtudes cristãs que validam a nossa mensagem; desapareceram o amor, pureza, doçura, mansidão, humildade, domínio próprio, sabedoria… Dessa forma, as igrejas perderam a capacidade de impactar a nação com o evangelho.

Silas Fernandes, amigo querido, com a sensibilidade poética que lhe é inerente, afinal é músico e produtor musical dos bons, hoje me escreveu algo que impactou. Contrastando o estado caótico em que a sociedade se encontra com a incapacidade da igreja de dar a devida resposta ao caos, ele me zapeou ou seguinte. Ouça:

Todo caos na mente do homem ou em uma sociedade é também uma oportunidade para os filhos de Deus mostrarem que o Espírito se move acima do caos… Tudo deve se vergar à Luz do Evangelho que sempre será Boa-Nova.

Corretíssimo, o Silas Fernandes!

Cadê o Espírito do Evangelho na vida e na voz dos evangélicos, levando luz a este estado caótico em que todos nos encontramos? Esvaeceu-se.

Sabedoria para viver

Em tempos como os nossos, a tentação é se enfurecer e esbravejar; queremos partir pro braço, resolver no grito e no tapa. Só que não! Não sararemos as coisas com força e com poder, mas pelo Espírito, o Espírito do Evangelho.

Jesus disse assim (Mt 5.5, versão ARA): “Bem-aventurados [felizes ou abençoados] os mansos [humildes, gentis], porque herdarão a terra”. Sabe o que é mais impressionante nessas palavras de Jesus? Nem é tanto que elas nos convocam a confiar e viver de modo manso, humilde e gentil, face a tantas impiedades, barbaridades e injustiças, mas que elas foram retiradas, ipsis litteris, do Salmo 37, que no verso 11 diz assim (versão ARA): “Mas os mansos herdarão a terra e se deleitarão na abundância de paz”.

O que é ser manso? O Salmo 37 é a melhor resposta para esta pergunta; pois, nas palavras de Derek Kidner — renomado acadêmico do livro de salmos, ele é a melhor exposição ou explicação das palavras de Jesus em Mateus 5.5 (versão ARA): “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra”. Diante desta afirmação, a carne do “justo” troveja: “Como assim, Senhor? Mansidão face ao caos! Assim não dá!” Mas é.

Davi, velho em idade (Sl 37.25), havia caminhado o bastante com Deus para poder, neste salmo, nos oferecer o que ele nos ofereceu. Inspirado por Deus, foi ele, Davi, que primeiro disse que “os mansos herdarão a terra e se deleitarão na abundância de paz” (Sl 37.11). Como nós precisamos desta sabedoria (ou espírito) hoje no Brasil e no mundo!

Este é um salmo de sabedoria: fala ao homem, não a Deus; não é tanto uma oração quanto uma lição — lição de sabedoria, sabedoria para viver. Tanto o tom como o estilo desse salmo possuem algumas afinidades com Provérbios. A mensagem central é a segurança do homem justo nas mãos de Deus. Certo disso, o homem confia e se amansa.

Davi, portanto, está ensinando que ele tinha vivido o bastante para aprender que sabedoria para viver consiste em saber se colocar manso e humilde nas mãos de Deus, independentemente das circunstâncias ou de quem esteja no poder. Afinal, “os mansos herdarão a terra e se deleitarão na abundância de paz” (Sl 37.11); no final, eles, os mansos, é que “herdarão a terra” (Mt 5.5).

Convido você a sobrevoar este salmo comigo, em busca de sabedoria para viver. Como faremos esse voo panorâmico? De que forma dividiremos esse salmo? Como se trata de um acróstico — ou seja, uma nova letra do alfabeto hebraico inicia uma nova frase a cada dois versículos (1-2; 3-4; etc.), o salmo é difícil de ser dividido de forma didática para o nosso estudo. No entanto, parece haver um caminho possível; isto é: sabedoria para viver consiste em aprender esperar (vv. 1-11); sabedoria para viver consiste em saber observar (vv. 12-26); e sabedoria para viver consiste em decidir obedecer (vv. 27-40).

1. Sabedoria para viver consiste em aprender esperar (vv. 1-11)

1Não se preocupe [não te indignes; não se aborreça; não se esquente; não frite] com os perversos, nem tenha inveja dos que praticam o mal. 2Pois, como o capim, logo secarão e, como a grama verde, logo murcharão.

Aprenda a esperar! Não exploda com os perversos nem os inveje (note os extremos do nosso coração: ora queremos nos vingar de quem peca ou achamos que pecou contra nós, ora queremos desfrutar das delícias dos pecados deles!). É questão de tempo até que eles percam seiva ou vida (logo secarão) e formosura ou prestígio (logo murcharão).

Como esperar? Com fé, esperança e amor. Que tipo de fé, esperança e amor? Veja e observe os imperativos seguidos de promessas:

3Confie no SENHOR e faça o bem, e você viverá seguro na terra e prosperará. 4Busque no SENHOR a sua alegria, e ele lhe dará os desejos de seu coração. 5Entregue seu caminho ao SENHOR; confie nele, e ele o ajudará. 6Tornará sua inocência radiante como o amanhecer, e a justiça de sua causa, como o sol do meio-dia. 7Aquiete-se na presença do SENHOR, espere nele com paciência. Não se preocupe com o perverso que prospera, nem se aborreça com seus planos maldosos. 8Deixe a ira de lado! Não se enfureça! Não perca a calma; isso só lhe trará prejuízo. 9Pois os perversos serão destruídos, mas os que confiam no SENHOR possuirão a terra. 10Em breve, o perverso desaparecerá; ainda que o procure, não o encontrará. 11Os humildes possuirão a terra e viverão em paz e prosperidade.

Sabedoria para viver consiste não em explodir de fúria contra o pecador ou se corromper com o pecado, mas em aprender a esperar no Senhor (mansidão é saber esperar em Deus); esperar com nas promessas de Deus, com confiança nos propósitos de Deus, com prazer na pessoa de Deus, com paciência e piedade na presença de Deus. Quem aprende a esperar no Senhor renova suas forças e vive o bastante para desfrutar de paz e prosperidade nas regiões celestes.

Pois bem, tendo visto que sabedoria para viver consiste em aprender esperar (vv. 1-11), próxima semana, Deus permitindo, veremos que sabedoria para viver consiste em saber observar (vv. 12-26) e em decidir obedecer (vv. 27-40).

S.D.G. L.B.Peixoto

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