A REGENERAÇÃO DA AUTOESTIMA

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A REGENERAÇÃO DA AUTOESTIMA

João 3.22-30

22Então Jesus e seus discípulos saíram de Jerusalém e foram à região da Judeia. Jesus passou um tempo ali com eles, batizando. 23Nessa época, João também batizava em Enom, perto de Salim, pois havia ali bastante água, e o povo ia até ele para ser batizado. 24Isso aconteceu antes de João ser preso. 25Surgiu uma discussão entre os discípulos de João e certo judeu a respeito da purificação cerimonial. 26Os discípulos de João foram falar com ele e lhe disseram: “Rabi, o homem que o senhor encontrou no outro lado do rio Jordão, aquele de quem o senhor deu testemunho, também está batizando. Todos vão até ele”. 27João respondeu: “Ninguém pode receber coisa alguma, a menos que lhe seja concedida do céu. 28Vocês sabem que eu lhes disse claramente: ‘Eu não sou o Cristo. Estou aqui apenas para preparar o caminho para ele’. 29É o noivo que se casa com a noiva; o amigo do noivo simplesmente se alegra de estar ao lado dele e ouvir seus votos. Portanto, muito me alegro com o destaque dele. 30Ele deve se tornar cada vez maior, e eu, cada vez menor”.

O veneno do orgulho

Um dos episódios de Charlie Brown e sua turma apresenta Linus, irmão de Lucy, conversando com seu melhor amigo Charlie Brown. Ele compartilha seu sonho, dizendo:

Quando eu crescer, vou ser um médico humilde do interior. Veja bem, vou morar na capital, mas todas as manhãs vou levantar, entrar no meu carro esportivo conversível e zarpar para o interior! Então vou começar a curar as pessoas… Vou curar pessoas em um raio de quilômetros e quilômetros de distância!

Daí, no último quadro da animação, Linus exclama ao amigo Charlie Brown:

Eu serei um médico humilde do interior mundialmente reconhecido!

Charles Schultz, o cartunista criador da animação, estava, obviamente, se divertindo com a dificuldade em se encontrar uma pessoa realmente humilde. Geralmente, todos começam com o nobre desejo de ser uma “pequena coisa” humilde e sem ostentação, mas de repente nos transformamos numa “grande coisa” com necessidade de sermos “humildes mundialmente reconhecidos”. É o veneno do orgulho.

A mortalidade do orgulho

O orgulho é um dos pecados mais letais, se não for o mais mortal; é o filho número um da incredulidade, da falta de fé em Deus. Há quem argumente, por exemplo, que o orgulho foi o pecado original de Satanás, ao exclamar consigo mesmo (Isaías 14.13-14):

13[…] ’Subirei aos céus e colocarei meu trono acima das estrelas de Deus. Dominarei no monte dos deuses, nos lugares distantes do norte [nas alturas de Zafom]. 14Subirei aos mais altos céus e serei como o Altíssimo’.

Foi o orgulho que Satanás usou como isca para tentar Eva a duvidar da bondade de Deus e comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, introduzindo a raça humana ao pecado (Gn 3.5): “Deus sabe que, no momento em que comerem do fruto, seus olhos se abrirão e, como Deus, conhecerão o bem e o mal”. Desde então, sempre que pecamos, estamos arrogantemente afirmando que não cremos na sabedoria, no amor, enfim, nos planos de Deus e que sabemos melhor do que ele o que é melhor para nós mesmos e para o mundo.

Devemos, portanto, combater constantemente o orgulho e crescer em humildade; afinal, “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5.3). Agora, se você acha que alcançou alguma medida de humildade, alerto-o para que esteja em guarda e não se orgulhe de sua humildade (carente de ser mundialmente reconhecida)!

O problema da autoestima

Quais são as marcas da autoestima radicalmente transformada por Deus? Se cremos em Cristo, como deve ser e se expressar a nossa autoestima?

Timothy Keller, no livro Ego transformado (ed. Vida Nova), nos informa que, até o século XX, a maioria das culturas do mundo sempre acreditou que a autoestima elevada demais era a causa de todos os males da sociedade. Afinal, o que provoca a maior parte dos crimes e da violência? Por que as pessoas são maltratadas? Por que são cruéis? Por que praticam o mal que praticam? A resposta tradicional, informa-nos Keller, diria que a culpa era do hubris: palavra de origem grega que significa soberba ou autoestima elevada demais. Tradicionalmente, era assim que se explicava o mau comportamento das pessoas.

No entanto, Keller prossegue afirmando, na sociedade ocidental contemporânea, desenvolvemos um contexto cultural totalmente oposto. A base da educação, a maneira de tratar os encarcerados (EUA e Europa), o fundamento da maior parte da legislação moderna (direitos humanos!), o ponto de partida do aconselhamento de hoje… são exatamente o oposto do consenso tradicional. A crença hoje — que lança raízes profundas em tudo o que existe — é a de que as pessoas agem mal por falta de autoestima ou por terem uma valorização muito baixa de si mesmas.

Nada está mais equivocado e é mais pernicioso do que este pensamento moderno/pós-moderno. Para se ter uma ideia, alguns anos atrás, o jornal New York Times publicou um artigo da psicóloga Lauren Slater, intitulado “The trouble with self-steem” [O problema da autoestima]. No texto que não era nem um pouco inovador, pois Lauren simplesmente relatou o que especialistas já sabiam há muito tempo, a psicóloga afirmou que nada comprova que a autoestima negativa seja um grande problema na sociedade. Citando três pesquisas recentes à publicação de seu artigo, ela afirmou que

as pessoas com autoestima elevada são mais perigosas àqueles que as rodeiam do que as pessoas com baixa autoestima, e estar incomodado consigo mesmo não é a fonte dos maiores e mais dispendiosos problemas sociais de nosso país.

A ideia de que a falta de autoestima é motivo para o uso de drogas, crimes, maus tratos familiares, abusos e coisas do tipo, conquanto não seja comprovada, está profundamente arraigado na nossa psiquê e levará muito tempo para que tal equívoco deixe de existir. A questão, como Timothy Keller muito bem pontuou, é que a “teoria do mau comportamento como resultado da baixa autoestima” é muito atraente. Não é necessário fazer nenhum julgamento moral para lidar com os problemas da sociedade. Basta animar as pessoas e ajudá-las a se desenvolver, a se sentirem bem consigo mesmas. Noutros tempos, nas culturas tradicionais, para resolver esses problemas, as pessoas eram exortadas, convencidas do erro, alertadas de sua maldade e encorajadas a mudar. Não é sem motivo, portanto, que nos encontramos neste caos sócio-cultural.

A últimas palavras de um homem humilde

O nosso objetivo, hoje, é olhar para o texto de João (3.22-30), onde nós lemos as últimas palavras de João Batista neste evangelho, e estudar a forma como o evangelista nos ensina a compreender e a lidar com a questão da autoestima, com a supervalorização da autoestima.

João Evangelista, sem necessidade alguma, aparentemente, retorna João Batista ao nosso radar. Ele acabou de descrever a história do encontro de Nicodemos com Jesus Cristo (Jo 3.1-15), relatou qual é a missão de Deus para o Filho no mundo (Jo 3.16-21) e, antes de prosseguir para a história da mulher samaritana, tratar da verdadeira adoração, etc. (Jo 4), o Evangelista irá nos apresentar João Batista mais uma vez, pela última vez. Por quê?

A redundância joanina fica ainda mais evidente quando nós comparamos as palavras de João Batista aqui em Jo 3.22-30 com as suas próprias palavras lá no capítulo 1, onde lemos ele afirmando que não era a luz (Jo 1.8); não era o Cristo (Jo 1.20); não era Elias nem o profeta (Jo 1.21); não era digno de desatar as correias das sandálias de Jesus (Jo 1.27); ele afirmou que não passava de uma voz clamando no deserto (Jo 1.23). Aqui no capítulo 3, lemos João Batista dizendo que não era o Cristo (Jo 3.28); não era o noivo, mas amigo do noivo (Jo 3.29); estava apenas preparando o caminho para Cristo (Jo 3.28) e, portanto, importava que Cristo crescesse e ele diminuísse (Jo 3.30). Por que mais sobre João Batista, e justamente após a história de Nicodemos?

Gente, à luz do que lemos em João 21.25 — “Jesus também fez muitas outras coisas. Se todas fossem registradas, suponho que nem o mundo inteiro poderia conter todos os livros que seriam escritos”, por que João Evangelista, de tudo que poderia ter escrito, escreve mais sobre João Batista, justamente aqui neste contexto e por que ele não narrou sobre a morte dele?

João Batista é colocado aqui, com estas palavras, pois representa uma espécie de resposta que todos devem ter (e que Nicodemos não teve) quando são expostos à graça soberana de Deus em Jesus Cristo. Enquanto Nicodemos, com medo de perder posição, no encontro escondido da calada da noite, duvidou do poder regenerador do Espírito — “Como pode ser?” (Jo 3.4 e 9), João Batista, humildemente afirmou: “Convém que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3.30); enquanto Nicodemos temia perder prestígio e posição, diante de tantos que afluíam para Jesus (Jo 2.23 a 3.2), João Batista afirmava: “Convém que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3.30).

João Evangelista, portanto, nos revela as últimas palavras de um homem humilde, de alguém que experimentou a regeneração da autoestima. Observe, pois, três verdades que podemos destacar deste texto (Jo 3.22-30): a autoestima deformada, a autoestima regenerada e a regeneração da autoestima.

1. A autoestima deformada

A primeira coisa que João quer nos ensinar com esta passagem é que a autoestima deformada pode causar enormes estragos, principalmente nas relações humanas. A deformação da autoestima pode ser observada nas atitudes a seguir (de trás para frente):

  • Primeiro, na forma como os discípulos de João Batista encontravam valor ou significado para as suas vidas vazias, isto é: na multidão que os seguia (v. 26):

Os discípulos de João foram falar com ele e lhe disseram: “Rabi, o homem que o senhor encontrou no outro lado do rio Jordão, aquele de quem o senhor deu testemunho, também está batizando. Todos vão até ele”.

  • Segundo, na maneira como os discípulos doloridos de João Batista se ofenderam na discussão com certo judeu (v. 25):

Surgiu uma discussão entre os discípulos de João e certo judeu a respeito da purificação cerimonial. [Se o seu batismo purifica, por que todos vão a Jesus?]

  • Terceiro, na agitação em que os discípulos de João Batista viviam para preencher o vazio (v. 23-24):

23Nessa época, João também batizava em Enom, perto de Salim, pois havia ali bastante água, e o povo ia até ele para ser batizado. 24Isso aconteceu antes de João ser preso.

  • Quarto, no impacto que eles sentiram quando viram seu espaço sendo “invadido” pelos discípulos de Jesus (v. 22):

Então Jesus e seus discípulos saíram de Jerusalém [Galileia] e foram à região [do deserto] da Judeia. Jesus passou um tempo ali com eles, batizando.

Timothy Keller diria que a autoestima deformada é fruto de um ego vazio, dolorido, atarefado e frágil (Ego transformado, pp. 15-25):

  • ego vazio porque, tendo deixado Deus, esse ego se agarra no que lhe der mais prazer para se preencher, encontrar valor ou significado (para os discípulos de João Batista era a multidão — “Todos estão indo a Jesus!”);
  • ego dolorido porque o ego distendido ou superinflado sempre doerá, afinal ele vive inchado (os discípulos de João Batista se ofenderam quando foram colocados à prova — “Por que todos estão indo a Jesus?”);
  • ego atarefado porque vive correndo de lá para cá, de cá para acolá… faz tudo e mais um pouco para ser notado e reconhecido; vive ocupado tentando preencher o vazio; é incansável, sobretudo em duas tarefas: a comparação e a vanglória (os discípulos de João Batista só pararam de batizar quando João Batista foi, finalmente, preso, não obstante Jesus já estar em pleno vapor no exercício de seu ministério — “Por que Jesus está tomando os nossos discípulos?”);
  • ego frágil porque se sente ameaçado sempre que alguém chega perto; todos são ameaça; superinflados, temem ser estourados (os discípulos de João Batista: não gostaram da aproximação de Jesus e seus discípulos — “Por que eles deixaram a Galileia e se aninharam aqui na região do deserto da Judeia? Por que estão aqui, querendo dominar o nosso espaço?”).

Assim é a autoestima deformada, que brota de um ego vazio, dolorido, atarefado e frágil — ela é orgulhosa; ofende-se até mesmo com Jesus, com o próprio Deus.

No livro Cristianismo puro e simples, C. S. Lewis escreveu um capítulo magistral sobre o orgulho. Nele, Lewis ressalta que o orgulho é competitivo por definição. Competitividade, portanto, é o que se acha no âmago do orgulho.

O orgulho não se satisfaz em ter uma coisa, mas em tê-la em quantidade maior do que os outros. Dizemos que as pessoas se orgulham de ser ricas, espertas ou bonitas, mas isso não é verdade. Elas têm orgulho de ser mais ricas, mais espertas ou mais bonitas que os outros. Se todos fossem igualmente ricos, ou inteligentes, ou bonitos, não existiria motivo de orgulho.

Orgulho, portanto, é o prazer de ter mais do que os outros, de se sentir melhor do que os outros, de se achar mais do que os outros. Orgulho é o fruto da autoestima deformada, que se separou de Deus em pecado, esvaziou-se por dentro e quebrou todas as relações ao seu redor, vivendo de modo utilitário, sugando e usando o outro (inclusive Deus) para se inflar.

Um ego deformado ou uma autoestima deformada vive como Madona confessou viver. Um trecho da entrevista que a celebridade mundial deu à revista Vogue revela o estado de vazio, dor, agitação e fragilidade em que se encontra a autoestima deformada:

O que me impulsiona na vida é o medo de ser medíocre. Esse medo é o que me impele. Venço um de seus ataques e descubro-me como um ser humano especial, mas logo continuo me sentindo medíocre e desinteressante, a menos que faça outra coisa espetacular. Apesar de ter me tornado alguém, ainda tenho de provar que sou alguém. Minha luta não terminou, e acho que nunca terminará.

Temos que admitir: Madona conhece a si mesma muito mais do que a maioria de nós conhece a si mesma. Ela reconhece que sempre que realiza algo espetacular (digno de aplausos e das manchetes das mídias do mundo), ela se sente completa, importante, sente-se que é alguém. Mas, no dia seguinte, percebe que se não continuar a performance ela será ninguém. Seu ego nunca está satisfeito. Quando as revista, os jornais, os tabloides a elogiam, ela se sente alguém. Mas, no dia seguinte, ela tem que procurar mais aprovação e noutras coisas e de outras formas ainda mais espetaculares.

A autoestima deformada nos destrói. Escraviza-nos. Escraviza e destrói também os outros, pois se ele ou ela não se comporta de forma a me valorizar, destacar, bajular, reconhecer, exaltar ou me fazer sentir especial, ela não me serve; e eu a sirvo tão somente na medida em que sou reconhecido(a) pelo que faço por aquela pessoa.

A autoestima deformada nos destrói e destrói também as nossas relações, tanto com Deus como com o próximo.

2. A autoestima regenerada

Em contraste com os discípulos de João Batista, nós encontramos o próprio João Batista. De um lado, se os seus discípulos possuíam uma autoestima deformada; do outro, ele mesmo era possuidor de uma autoestima que havia sido regenerada pela graça soberana de Deus. Afinal, o próprio Jesus o havia elogiado, colocando-o numa categoria inigualável. Observe (Mt 11.10-11):

10João é o homem ao qual as Escrituras se referem quando dizem: ‘Envio meu mensageiro adiante de ti, e ele preparará teu caminho à tua frente!’. 11“Eu lhes digo a verdade: de todos os que nasceram de mulher, nenhum é maior que João Batista. E, no entanto, até o menor no reino dos céus é maior que ele.

Então, de que maneira a autoestima regenerada se revela na vida de João Batista?

2.1 — Reconhecimento de que não depende de quem nós somos ou do que fazemos, mas do que Deus tem preparado para cada um de seus chamados (Jo 3.26-27)

26Os discípulos de João foram falar com ele e lhe disseram: “Rabi, o homem que o senhor encontrou no outro lado do rio Jordão, aquele de quem o senhor deu testemunho, também está batizando. Todos vão até ele”. 27João respondeu: “Ninguém pode receber coisa alguma, a menos que lhe seja concedida do céu.

João Batista sabia que frutos são obra do Senhor; Deus mesmo os dá a quem e através de quem ele bem entender; não depende de quem somos ou do que fazemos; tudo é fruto da soberana graça de Deus; não depende de performance, mas de permanecer em Cristo; é tudo fruto de graça; por isso que adiante neste mesmo evangelho nós ouvimos:

Jo15.5 | Sim, eu sou a videira; vocês são os ramos. Quem permanece em mim, e eu nele, produz muito fruto. Pois, sem mim, vocês não podem fazer coisa alguma.

A autoestima regenerada, portanto, não vive de performance, mas de permanecer em Cristo, pois sabe que não depende de quem somos ou do que fazemos, mas de Deus nos fazer frutificar para a sua glória.

2.2 — Consciência de quem somos e para o que nós fomos chamados (Jo 3.28-29)

Vocês sabem que eu lhes disse claramente: ‘Eu não sou o Cristo. Estou aqui apenas para preparar o caminho para ele’.

A autoestima regenerada reconhece-se coadjuvante: Deus, em Cristo, é quem recebe a glória; nós apenas o servimos, apenas preparamos caminho para que ele chegue às pessoas ou elas cheguem a ele; a glória, portanto, será sempre dele e nós apenas seus servos, agindo em fé. Paulo, escrevendo aos Romanos, tinha esta consciência (Rm 12.3):

Com base na graça que recebi, dou a cada um de vocês a seguinte advertência: não se considerem melhores do que realmente são. Antes, sejam honestos em sua autoavaliação, medindo-se de acordo com a fé que Deus nos deu [para exercícios dos diferentes dons no corpo de Cristo, Rm 12.4-8].

A autoestima regenerada se reconhece apenas como recipiente da graça e repartidora de graça, nada além disso; somente dessa forma ela consegue viver em paz, harmonia e amor com todos (1Co 15.10-11):

10O que agora sou, porém, deve-se inteiramente à graça que Deus derramou sobre mim, e que não foi inútil. Trabalhei com mais dedicação que qualquer outro apóstolo e, no entanto, não fui eu, mas Deus que, em sua graça, operou por meu intermédio. 11Logo, não faz diferença se eu prego ou se eles pregam, pois todos nós anunciamos a mesma mensagem na qual vocês já creram.

A autoestima regenerada sabe que se lhe vier algo para fazer, o próprio Deus a capacitará com poder para toda boa obra, fazendo, assim, sem se vangloriar (Cl 1.28-29):

28Portanto, proclamamos a Cristo, advertindo a todos e ensinando a cada um com toda a sabedoria, para apresentá-los maduros em Cristo. 29Por isso trabalho e luto com tanto esforço, na dependência de seu poder que atua em mim.

A autoestima regenerada, portanto, tem consciência de quem é (chamada e capacitada pela graça) e para o que ela foi chamada (levar outros, aperfeiçoados em Cristo, a Deus).

2.3 — Alegria em ver que os outros prosseguem seus caminhos, crescendo na graça e no conhecimento de Jesus Cristo, mesmo que, tendo-os levado a Jesus, eu mesmo vá ficando para trás (Jo 3.29-30)

29É o noivo que se casa com a noiva; o amigo do noivo simplesmente se alegra de estar ao lado dele e ouvir seus votos. Portanto, muito me alegro com o destaque dele. 30Ele deve se tornar cada vez maior, e eu, cada vez menor”.

Seja sincero. Como é difícil, depois de se ter feito tudo pelo noivo e pela noiva, ser, então, deixado para trás, na escadaria da igreja, enquanto todos seguem o cortejo dos noivos, alegrando-se com eles — a menos que se faça o mesmo; como é difícil ver os outros crescendo, tornando-se independentes de nós, seguindo a vida sem nós, na medida em que nós mesmos vamos murchando e diminuindo até, finalmente, desaparecermos — a menos que entendamos que para isso nós fomos chamados (Jesus crescer, em nós e através de nós, e nós diminuirmos)!

Sabemos, pelos outros evangelhos, que João Batista morreu decaptado pelas mãos de Herodes. Ele denunciou o pecado da corte e, como consequência, literalmente, perdeu a cabeça. João Evangelista, no entanto, não nos conta sobre este triste episódio na vida de João Batista. A forma que este quarto evangelho encontra de narrar o final de João Batista é nos dizendo que na medida em que Jesus foi crescendo, João Batista foi diminuindo e nunca mais apareceu. E João Batista se alegrava com isso! Que coisa linda!

A autoestima regenerada tem pleno conhecimento, e com isto se alegra, de que tudo recebemos de Deus para empregarmos na salvação e na santificação dos outros, de modo que Jesus vá se tornando grande e nós pequeninos, até sumirmos por completo. Somente assim seremos capazes de glorificar a Deus e ser vir o outro em amor.

3. A regeneração da autoestima

Vimos o estrago que a autoestima deformada é capaz de produzir (destruindo-nos por dentro — produzindo vazio, dor, agitação e fragilidade; separando-nos de Deus e do próximo); e descrevemos como é a autoestima regenerada (reconhece sua dependência de Deus, tem consciência de seu papel e se alegra ao ver Cristo crescer e ela diminuir); agora, precisamos descobrir como acontece a regeneração da autoestima, pois é um milagre da graça de Deus. João nos dá uma dica no verso 29:

29É o noivo que se casa com a noiva; o amigo do noivo simplesmente se alegra de estar ao lado dele e ouvir seus votos [sua voz]. Portanto, muito me alegro com o destaque dele.

Por que João Batista menciona a voz do noivo? Afinal, João Batista é que era a voz que clamava no deserto (Jo 1.23). Por que ele se alegrava em ouvir a voz do noivo, calando sua própria voz, retirando dele a multidão e atraído-a a Jesus? A voz de Jesus é superior à de João Batista. Observe onde e como aparece a palavra voz neste evangelho.

A voz de Jesus ressuscita os mortos, traz-nos da morte para a vida:

Jo 5.25 | E eu lhes asseguro que está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os mortos ouvirão minha voz, a voz do Filho de Deus. E aqueles que a ouvirem viverão.

Jo 11.43 | 43Então Jesus gritou: “Lázaro, venha para fora!”. 44E o morto saiu, com as mãos e os pés presos com faixas e o rosto envolto num pano. Jesus disse: “Desamarrem as faixas e deixem-no ir!”.

A voz de Jesus ajunta as suas ovelhas, libertando-as dos lobos:

Jo 10.3-5 | 3O porteiro lhe abre a porta, e as ovelhas reconhecem sua voz e se aproximam. Ele chama suas ovelhas pelo nome e as conduz para fora. 4Depois de reuni-las, vai adiante delas, e elas o seguem porque conhecem sua voz. 5Nunca seguirão um desconhecido; antes, fugirão dele, pois não reconhecem sua voz.”

A voz de Jesus nos faz reviver (quem ouve sua voz não pode endurecer seu coração); a voz de Jesus nos liberta e nos faz seguí-lo. Nós precisamos da voz de Jesus.

Precisamos da Palavra de Deus, iluminada pelo Espírito, trazendo-nos à vida e conduzindo-nos pela vida. A regeneração da autoestima se dá pela voz do noivo, pela Palavra de Deus iluminada pelo Espírito de Deus.

Tudo isso, no entanto, só é possível por causa do noivo, que se entregou pela sua noiva para torná-la pura e sem defeito, para regenerá-la. Não é em à toa que no Apocalipse, o mesmo mesmo João deste evangelho, escreveu o que nós temos (Ap 21.9):

Então um dos sete anjos que seguravam as sete taças com as últimas sete pragas se aproximou e me disse: “Venha comigo, e eu lhe mostrarei a noiva, a esposa do Cordeiro”.

A noiva do Cordeiro foi regenerada e está sendo transformada pelo sangue (obra redentora) e pela voz (revelação especial na Palavra) do Noivo (Jo 3.29) ou Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29). Veja o que Paulo escreveu (Ef 5.25-27):

25Maridos, ame cada um a sua esposa, como Cristo amou a igreja. Ele entregou a vida por ela, 26a fim de torná-la santa, purificando-a ao lavá-la com água por meio da palavra. 27Assim o fez para apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha, ruga ou qualquer outro defeito, mas santa e sem culpa.

Os discípulos de João Batista estavam preocupados com a purificação pelo batismo (Jo 3.25), mas João Batista sabia que a purificação, simbolizada pelo seu batismo, só seria possível por causa do Noivo que se entregou (morreu em nosso lugar) para nos regenerar e nos santificar pela sua voz ou palavra (Jo 3.29).

Quer se libertar da escravidão de sua autoestima deformada? Ouça a voz do noivo; entregue-se a Jesus Cristo com arrependimento e fé; alegre-se em seguí-lo; viva para servi-lo. Somente assim, na medida em que ele crescer, você se alegrará: reconhecerá que tudo vem das mãos de Deus; saberá o seu papel; encontrará a verdadeira alegria em se diminuir para Jesus Cristo crescer em sua vida.

Ouça a voz do noivo. Arrependa-se e creia.

S.D.G. L.B.Peixoto

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