O MAL DA INVEJA

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O MAL DA INVEJA

Salmo 73

[Salmo de Asafe] 1Certamente Deus é bom para Israel, para os que têm coração puro. 2Quanto a mim, quase tropecei; meus pés escorregaram e quase caí. 3Pois tive inveja dos orgulhosos quando os vi prosperar apesar de sua perversidade.

O VENENO DA INVEJA

A inveja é um veneno. Pode matar tanto o invejado como o invejoso. O invejado, por exemplo, às vezes se torna vítima do invejoso. Em casos extremos, o invejoso poderá, literalmente, matar (e depois se matar) por inveja. É mais raro, mas acontece. A inveja, no entanto, mata mais o invejoso do que o invejado, mata lentamente, fazendo-o sofrer e fazendo o outro também sofrer, enquanto se agoniza de inveja. Quer ver uma coisa?

Os efeitos do veneno no corpo humano vão depender do tipo de substância inoculada ou ingerida. Há um tipo de veneno, por exemplo, a tetrodotoxina (toxina produzida nas gônadas e vísceras de alguns peixes), que mantêm a vítima acordada e sofrendo até os últimos minutos, quando os músculos que fazem os pulmões trabalharem finalmente param/petrificam e a pessoa morre sem ar.

A inveja age assim dentro da gente, mas antes de nos asfixiar até a morte, ela seca nossos lábios e adormece a nossa boca, impedindo-nos de falar de forma edificante do outro ou para o outro; paralisa-nos os músculos da alma, incapacitando-nos de agir para o bem, reagir para a vida ou mesmo ir a Deus; causa-nos todo tipo de mal estar espiritual e emocional, roubando-nos de um viver piedoso; até que, por fim, nos asfixia para a morte.

IMUNIDADE ZERO

Nosso propósito hoje será, à luz do Salmo 73, aprender a lidar com o mal da inveja, dentro do nosso coração. Não falaremos de como lidar com a inveja dos outros contra nós, posto que se soubermos lidar com o pecado em nós (qualquer pecado, mesmo a inveja), também saberemos lidar com os pecados cometidos contra a gente.

As palavras do salmista são muito fortes! Ouça-as, mais uma vez (Sl 73), só que agora na tradução livre A Mensagem (tradução de Eugene H. Peterson):

Sem dúvida, Deus é bom — bom para os bons, bom para os de bom coração. Mas quase o deixei escapar: quase deixei de ver sua bondade. Porque eu estava olhando para o outro lado, observando as pessoas que alcançaram o topo, invejando os ímpios que tinham sucesso, […]

É horrível o bastante o que comunica o som dessas palavras, mas elas ficam ainda mais repugnantes quando nós levamos em conta de onde elas brotaram: do coração de um dos ministros de música de Davi! Isto mesmo, de um líder da congregação!

Asafe (autor do Salmo 73) era um dos membros da tribo de Levi, a quem Davi encarregava da música de adoração executada no tabernáculo ou na tenda do encontro, antes de Salomão construir o grande templo em Jerusalém (1Cr 6.31-39). Com o tempo, ele parece ter se tornado o líder titular do grupo e mais tarde o cabeça de um clã inteiro de músicos do templo.

Davi deu alguns de seus salmos a Asafe, os quais foram conduzidos pelo músico e seus associados em louvor e adoração a Deus no tabernáculo (1Cr 16.7). Mas Asafe também compôs os próprios salmos. Era, portanto, compositor e músico em Israel. Um dos seus é o Salmo 50, do Livro II do Saltério. Os outros 11 salmos que lhes são atribuídos são os Salmos 73 a 83, que compõem o Livro III (Salmos 73-89).

Agora, pare e pense: Uma coisa é um cristão comum pensar e dizer: “Eu quase me desviei! Sabe por quê? Porque eu estava olhando para o outro lado, tirei meus olhos de Deus e fiquei observando as pessoas que alcançaram o topo, invejando os ímpios que tinham sucesso”, outra coisa bem diferente (pelo menos soa diferente dentro da gente) é um ministro de música ou um pastor ou um líder na congregação do Senhor dizer: “Eu quase me desviei! Sabe por quê? Porque eu estava olhando para o outro lado, tirei meus olhos de Deus e fiquei observando as pessoas que alcançaram o topo, invejando os ímpios que tinham sucesso”! Não é mesmo?

Fato é que — tanto na boca (e no coração) do cristão comum como na boca (e no coração) do ministro de música, pastor ou líder da igreja — essas palavras não combinam com o cristão. Ponto final! E elas estão aqui para nos dizer: Cuidado, pois se aconteceu com Asafe e com tantos outros santos do passado (cf. Sl 37 e Jó, por exemplo), poderá acontecer conosco também. E nós sabemos que acontece! Nenhum de nós está imune do veneno ou do mal da inveja. Imunidade zero!

Como então, sobreviver ao mal da inveja (mal este que habita dentro de mim)? Primeiro, veremos que a inveja sempre segue por um desvio de morte (vs. 1-15). Segundo, pegaremos a estrada de retorno para a vida (vs. 16-26). Terceiro, seguiremos pela rota segura para a eternidade (vs. 27-28). Desvio. Retorno. Rota segura. Vamos lá…

1 A INVEJA SEGUE POR UM DESVIO DE MORTE (VS. 1-15)

O salmo começa nos revelando que Asafe foi criado ou doutrinado sobre uma sólida verdade (v. 1): “Certamente Deus é bom para Israel, para os que têm coração puro”. Ele estava correto! O próprio Senhor Jesus testificou que “Há somente um que é bom [i.e., Deus!]” (Mt 19.17). Deus, com efeito, é bom e derrama bondade sobre seu povo, sobre os que guardam a sua aliança (os que têm coração puro).

Noutro salmo, os filhos de Corá também puderam testificar da bondade de Deus sobre os filhos da aliança (Sl 84.11):

Pois o SENHOR Deus é nosso sol e nosso escudo; ele nos dá graça e honra. O SENHOR não negará bem algum àqueles que andam no caminho certo.

E complementaram (Sl 84.12):

Ó SENHOR dos Exércitos, como são felizes os que confiam em ti!

A confiança em Deus é fruto direto do reconhecimento de sua bondade, sabedoria, graça e amor pelos seus filhos. Logo, no momento em que colocamos tudo isso em xeque — ou seja: a bondade de Deus, a sabedoria de Deus, a graça e o amor de Deus — nós deixamos de confiar nele, colocamos os olhos noutra direção e seguimos um desvio que desembocará em morte. Foi assim lá no Éden (Gn 3.4-7) e tem sido assim desde então. Veja o nosso salmo. Asafe duvidou de Deus, desviou-se do caminho e quase caiu!

Note que, tendo afirmado que “Deus é bom”, no versículo 1, ele imediatamente reconheceu que essa nem sempre era uma convicção firme no coração dele. Afinal, ele se contrasta com Deus (vs. 1-2): “Certamente Deus é bom […] Quanto a mim, quase tropecei; meus pés escorregaram e quase caí”.

Com efeito, Deus é bom, puro e alicerce seguro para os pés (v. 1). Mas Asafe confessa sua própria falta de bondade, admite sua contaminação pessoal pelo pecado e reconhece que, pelo menos por um tempo, ele quase tropeçou, quase escorregou e caiu (v. 2).

Aqui o salmista nos revela onde está a raiz da inveja, a raiz da cobiça: é a incredulidade. Falta de fé na bondade de Deus nos faz duvidar, tropeçar e escorregar para um tombo de morte. Não se trata o problema da inveja no nosso coração, portanto, sem que antes tratemos a falta de fé na bondade, sabedoria, graça e amor de Deus.

Sem fé em Deus, aonde o pecador se dirige? Onde, em que direção ele coloca seu olhar? Aonde ele se volta para buscar rocha firme para os pés? Ouça o salmista:

1Certamente Deus é bom para Israel, para os que têm coração puro. 2Quanto a mim, quase tropecei; meus pés escorregaram e quase caí. 3Pois tive inveja dos orgulhosos quando os vi prosperar apesar de sua perversidade.

Em outras palavras: Asafe passou a se comparar com os orgulhosos que ele via prosperar. Não era justo que eles fossem mais prósperos (v. 3), desfrutassem de maior paz (v. 4), aproveitassem de mais prazeres (v. 5) e mantivessem posturas ímpias tão louváveis aos olhos de todos (vs. 6-11). O problema de Asafe era que, ao colocar a bondade de Deus em xeque, ele fez de si mesmo e dos outros o referencial para a sua vida.

É justamente aí que reside também o nosso problema, não é mesmo? Não são realmente as questões intelectuais sobre Deus que nos incomodam, embora possamos expressar nossa infelicidade dessa maneira.

Nosso problema é que (1.) julgamos que Deus não está nos tratando da maneira que achamos que deveria (não está sendo bom conosco!), que (2.) outras pessoas parecem estar se saindo melhor do que nós deveríamos (e elas são piores do que a gente!), que (3.) temos que lutar pela vida enquanto elas navegam sem problemas aparentes (sem merecer mais do que eu mereço!). Nosso problema é a inveja, e a inveja está fundamentada na crítica que fazemos a Deus por não termos fé na bondade de Deus. Isto é pecado.

Ouça com pesar (vs. 3-12):

3Pois tive inveja dos orgulhosos quando os vi prosperar apesar de sua perversidade. 4Levam uma vida sem sofrimento e têm o corpo saudável e forte. 5Não enfrentam dificuldades, nem estão cheios de problemas, como os demais. 6Ostentam o orgulho como um colar de pedras preciosas e vestem-se de crueldade. 7Seus olhos cobiçam sempre mais, e o coração vive cheio de más intenções. 8Zombam e falam somente maldades; em seu orgulho, ameaçam usar de violência. 9Falam como se fossem donos dos céus, e suas palavras arrogantes percorrem a terra. 10Por isso, o povo se volta para eles e bebe todas as suas palavras. 11“O que Deus sabe?”, perguntam. “Acaso o Altíssimo tem conhecimento disso?” 12Vejam como os perversos desfrutam uma vida tranquila, enquanto suas riquezas se multiplicam.

Qual foi, então a conclusão de Asafe? Pasmem (vs. 13-14):

13Foi à toa que mantive o coração puro? Foi em vão que agi de modo íntegro? 14O dia todo só enfrento problemas; cada manhã sou castigado.

Em outras palavras: Será que valeu mesmo a pena servir a Deus?

Antes de nos apressarmos em julgar Asafe, lembremo-nos de que todos nós nos sentimos assim quando tiramos os olhos de Deus e começamos a comparar nossa condição com as circunstâncias dos outros. Sempre que a bondade de Deus é colocada em xeque, colocamos os olhos naquilo que julgamos ser necessidade, tomamos o outro como modelo e concluímos que servir a Deus ou viver para Deus não vale nada a pena. Afinal, “olhe como eu estou e veja como vive e prospera o ímpio!”. Esse é um desvio para a morte.

Asafe, pelo menos, guardou suas crises para si mesmo e não destilou incredulidade no coração das pessoas, fazendo-as se desviarem de Deus. Ouça (v. 15): “Se eu tivesse falado como eles, teria traído teu povo.” Menos mal, pois ele não falou como o ímpio! Mas, e quanto àqueles que pensam em voz alta, desabafam em público ou se despejam nas redes sociais? O estrago é enorme.

A inveja segue por um desvio de morte. Mas, como tomar o retorno para a vida? Asafe nos ensina. Veremos na próxima mensagem.

S.D.G. L.B.Peixoto

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