INTRÉPIDO E SEM IMPEDIMENTO

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INTRÉPIDO E SEM IMPEDIMENTO

Atos 28.30-31

30Durante os dois anos seguintes, Paulo morou em Roma, às próprias custas. A todos que o visitavam ele recebia, 31proclamando corajosamente o reino de Deus e ensinando a respeito do Senhor Jesus Cristo sem restrição alguma.

CRUZANDO A LINHA DE CHEGADA 

Era 1984, na cidade de Los Angeles. A Maratona feminina — prova de corrida na distância de 42 km — estava sendo disputada pela primeira vez em jogos olímpicos. Ninguém se recorda o nome da campeã, mas como não se lembrar da 37a colocada! A corredora suíça, Gabriela Andersen-Shiess, com 39 anos à época, destacou-se entre as 50 corredoras e marcou para sempre a história das Olimpíadas.

O perfil da maratonista na Wikipédia, a enciclopédia livre da internet, conta em resumo a história inesquecível para os apaixonados do esporte:

Gabriela, desidratada e desorientada pelo esforço no calor [de 32o intensificado pela elevadíssima umidade relativa do ar], além de estar com uma forte cãibra na perna esquerda, cambaleou nos últimos 400 metros da maratona, levando pouco mais de 5 minutos para completá-los até cair desacordada nos braços dos médicos sobre a linha de chegada. […] Ela chegou na 37ª colocação entre 44 corredoras [que cruzaram a linha de chegada]. O que ela teve foi um quadro grave de hiponatremia (queda brutal do sódio no sangue) por provável falta de reposição com isotônicos, aliada ao calor ambiente elevado. Isso lhe provocou fortes alterações cardiovasculares, metabólicas e cerebrais, sendo mostrada ao mundo cambaleante e totalmente desconexa, em franca confusão mental — os médicos acompanharam a volta até a chegada sem prestar atendimento pois verificaram que a sudorese indicava haver líquido no corpo (afastando risco de vida iminente), e qualquer assistência implicaria desqualificação da atleta, que recusava auxílio médico.

Alguém poderá perguntar: Mas por que tanto esforço para chegar em 37o lugar?Somos informados que

Após a prova ela disse aos jornalistas que queria terminar o percurso pois aquela talvez fosse sua única oportunidade olímpica devido aos seus trinta e nove anos.

Guardadas as proporções, essa é a mesma atitude doo apóstolo Paulo. Ouça:

1Co 9.24-27 | 24Vocês não sabem que, numa corrida, todos competem, mas apenas um ganha o prêmio? Portanto, corram para vencer. 25O atleta precisa ser disciplinado sob todos os aspectos. Ele se esforça para ganhar um prêmio perecível. Nós, porém, o fazemos para ganhar um prêmio eterno. 26Por isso não corro sem objetivo nem luto como quem dá golpes no ar. 27Disciplino meu corpo como um atleta, treinando-o para fazer o que deve, de modo que, depois de ter pregado a outros, eu mesmo não seja desqualificado. 

Na vida cristã, o que de fato importa não é quem chega primeiro — posto que não há últimos nem primeiros colocados no Reino dos Céus, mas quem completa a maratona, quem prega a outros e se mantém qualificado. Importante é guardar (ou proteger) e repartir (ou propagar) a fé em Cristo. Tanto é assim que, lá no final de sua vida, em recorte que, Deus permitindo, nós ainda o contemplaremos na conclusão desta série de Recortes da vida de Paulo, o apóstolo, escrevendo a Timóteo, anotou:

2Tm 4.6-8 | 6Quanto a mim, minha vida já foi derramada como oferta para Deus. O tempo de minha morte se aproxima. 7Lutei o bom combate, terminei a corrida e permaneci fiel [guardei a fé, mantive-me crendo]. 8Agora o prêmio me espera, a coroa de justiça que o Senhor, o justo Juiz, me dará no dia de sua volta. E o prêmio não será só para mim, mas para todos que, com grande expectativa, aguardam a sua vinda.

Cruzar a linha de chegada é a meta! Mas não pode ser de qualquer jeito. O objetivo é completar o percurso sem se desqualificar, mantendo a fé, vivendo a fé, também pregando e anunciando a fé no evangelho de Cristo aos que cruzarem nosso caminho aonde Deus nos enviar e sob qualquer circunstância que ele nos colocar. É assim que nós encontramos Paulo (e Lucas) no texto do recorte da vida do apóstolo que temos para hoje. Ele cruzou a linha de chegada!

O BRADO DE TRIUNFO

Ouça mais uma vez o texto do recorte de hoje (At 28.30-31):

30Durante os dois anos seguintes, Paulo morou em Roma, às próprias custas. A todos que o visitavam ele recebia, 31proclamando corajosamente o reino de Deus e ensinando a respeito do Senhor Jesus Cristo sem restrição alguma.

O evangelho de Cristo, o grande tesouro de Deus para a humanidade condenada em seus pecados (2Co 4.7), havia, finalmente, chegado aos confins da terra, conforme o cronograma do próprio Senhor e Rei Jesus Cristo estabelecido aos discípulos (At 1.8):

Vocês receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em toda parte: em Jerusalém, em toda a Judeia, em Samaria e nos lugares mais distantes da terra [e até aos confins da terra].

E assim aconteceu: o testemunho do evangelho de Cristo sendo estabelecido em Jerusalém está detalhado em Atos 1 a 7, chegando na Judeia e em Samaria está descrito em Atos 8 a 12, e alcançando os confins da terra está desenhado em Atos 13 a 28.

William Barclay, muito perspicaz, pondera que alguém talvez queira indagar por que Lucas nunca nos contou o que aconteceu com Paulo, se ele foi executado ou libertado daquela prisão domiciliar em Roma (At 28.30-31). Afinal, sabemos pelas Cartas Pastorais (1 e 2 Timóteo, Tito), especialmente por 2Timóteo 4.9-17 (que ainda estudaremos em mensagem posterior) e à luz da tradição da igreja que Paulo foi posto em liberdade dessa primeira detenção (At 28.30-31) e que em um segundo momento foi preso novamente em Roma e finalmente executado. Lucas, inclusive, estava com Paulo nesse segundo encarceramento (2Tm 4.11). Então por que Lucas nunca nos contou sobre o fim de Paulo?

Primeiro, por que no Reino dos Céus não existem mártires ou heróis ou santos que devam, de alguma forma, ser canonizados ou elevados a algum patamar especial para admiração ou reverência dos demais. Somos todos testemunhas, vasos de barro levando o grande tesouro dentro de nós que é Cristo. Logo, parece mais razoável não querer canonizar alguma pessoa ou situação que possa de alguma forma contribuir para fazer alguém tropeçar em idolatria. Ou seja, da mesma forma que, pela providência divina, nunca se achou o corpo de Moisés (Dt 34.5-6; Jd 9), Lucas, inspirado pelo Espírito Santo, viu ser mais apropriado não nos deixar um relato sobre os últimos dias do apóstolo Paulo.

Segundo, conforme sustentou William Barclay, o objetivo de Lucas era contar como os apóstolos cumpriram fielmente o comissionamento de Jesus, quando os ordenou que fossem testemunhas (não heróis!) do evangelho. Com efeito, Lucas foi fiel ao objetivo original de sua obra que nos foi apresentado logo no início do livro: testemunhar de Jesus em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria,  chegando até os confins da terra (Atos 1.8).

Roma era o início do fim do mundo, pois de lá se partia para os confins da terra. E a Roma Paulo chegou e lá testemunhou, exatamente como o Senhor havia garantido a Paulo que faria: “Você vai testemunhar em Roma!” (At 23.11); “Você vai testemunhar diante de César!” (27.23-26). Agora a história estava terminada.

Tudo havia começado em Jerusalém, mais de trinta anos antes, passou em Judeia e Samaria e terminou em Roma: o centro do mundo de então, o portal de acesso aos confins da terra. Um verdadeiro milagre da graça de Deus, pela fé em Jesus Cristo e no poder do Espírito Santo, pois a igreja — que no início de Atos podia ser contada em poucos mais de uma centena (120 discípulos, de fato) e composta por cristãos com medo dos judeus (Jo 20.19), trancados em si mesmos e sem qualquer visão para os campos brancos para a colheita (At 1.6-11) — havia crescido tanto e se espalhado de tal forma por todo canto que havia que se tornara quase impossível de ser numerada.

Assim, Lucas terminou sua narrativa com um brado de vitória expresso nas duas últimas palavras do livro: parrēsía akōlútōs — i.e, falando abertamente o que queria e sem qualquer oposição de quem quer que fosse.

Paulo, de fato, estava preso. Lucas deixa isso bem claro! A palavra de Deus, no entanto, estava solta. Chegara a Roma através de Paulo e se espalharia de lá aos confins da terra através de seus discípulos. Mesmo preso, Paulo continuou pregando o reino de Deus e ensinando a respeito do Senhor Jesus Cristo. Corajosamente e sem qualquer complicação. Intrépido e sem impedimento. 

Paulo havia cruzado a linha de chegada. E Lucas deu um brado de vitória: parrēsía akōlútōs — i.e, falando abertamente o que queria e sem qualquer oposição de quem quer que fosse. Já Martinho Lutero, com o mesmo sentimento de Paulo e Lucas, foi mais poético no hino que nós Protestantes tanto amamos (323 CC): Castelo Forte. Última estrofe:

Sim que a palavra ficará, sabemos com certeza. 

E nada nos assustará, com Cristo por defesa. 

Se temos de perder, os filhos, bens mulher. 

Embora a vida vá, por nós Jesus está, 

E dar-nos-á Seu Reino! 

Esse era o brado de vitória e a mesma confiança de Paulo e Lucas: “a palavra ficará, sabemos com certeza; e nada nos assustará, com Cristo por defesa”. Calcado nessa confiança, foi que Paulo, em seu segundo encarceramento em Roma, pode escrever, encorajando Timóteo (2Tm 4.1-8):

1Eu lhe digo solenemente, na presença de Deus e de Cristo Jesus, que um dia julgará os vivos e os mortos quando vier para estabelecer seu reino: 2pregue a palavra. Esteja preparado, quer a ocasião seja favorável, quer não. Corrija, repreenda e encoraje com paciência e bom ensino. 3Pois virá o tempo em que as pessoas já não escutarão o ensino verdadeiro. Seguirão os próprios desejos e buscarão mestres que lhes digam apenas aquilo que agrada seus ouvidos. 4Rejeitarão a verdade e correrão atrás de mitos. 5Você, porém, deve manter a sobriedade em todas as situações. Não tenha medo de sofrer. Trabalhe para anunciar as boas-novas e realize todo o ministério que lhe foi confiado. 6Quanto a mim, minha vida já foi derramada como oferta para Deus. O tempo de minha morte se aproxima. 7Lutei o bom combate, terminei a corrida e permaneci fiel. 8Agora o prêmio me espera, a coroa de justiça que o Senhor, o justo Juiz, me dará no dia de sua volta. E o prêmio não será só para mim, mas para todos que, com grande expectativa, aguardam a sua vinda.

Liberte a palavra. Pregue a palavra. Não aprisione a palavra de Deus em você. Deixe-a solta. Proclame-a corajosamente, intrepidamente e sem impedimento. Como?

INTRÉPIDO E SEM IMPEDIMENTO

Os dois anos de Paulo naquele encarceramento em Roma nos abrem uma janela para o que chamaremos de cinco lições de Paulo sobre como pregar intrepidamente e sem impedimento: o ensejo da pregação, o escopo da pregação, o esquema da pregação, o êxito da pregação e o esmero na pregação. Ensejo. Escopo. Esquema. Êxito. Esmero.

1 O ENSEJO DA PREGAÇÃO

Quando nós devemos pregar? Sempre, como diria Paulo, “quer a ocasião seja favorável, quer não” (2Tm 4.2). Ouça as palavras de Lucas mais uma vez (At 28.30-31):

30Durante os dois anos seguintes, Paulo morou em Roma, às próprias custas. A todos que o visitavam ele recebia [na casa alugada por ele mesmo, mas que servia de prisão domiciliar!], 31proclamando corajosamente o reino de Deus e ensinando a respeito do Senhor Jesus Cristo sem restrição alguma.

Impressionante como Paulo nunca olhou para aquela situação como uma seta do diabo, impedindo-o de fazer a vontade ou cumprir o plano de Deus; nunca se ressentiu dos judeus, que provocaram aquela situação; jamais levantou a voz para condenar o que ele poderia chamar de “injustiça” do sistema judiciário romano, privilegiando os fariseus. Paulo foi gente boa sempre, como vimos em mensagens anteriores, baseada em Atos 27.

Júlio, o oficial romano, “capitão do Regimento Imperial” (At 27.1), com certeza deve ter relatado à corte suprema de Roma a atitude submissa de Paulo durante toda a viagem de Jerusalém até à capital do império, especialmente a atitude servil do apóstolo durante o naufrágio do navio e a estadia deles na ilha de Malta (At 27 e 28). É quase certo que a palavra de Júlio ao Supremo Romano tenha abrandado a situação legal do apóstolo, permitindo-o o regime de prisão domiciliar, sem tornozeleira eletrônica e, finalmente, sua libertação após dois anos preso na capital.

O que Paulo fez durante aqueles dois anos?

Certamente que o apóstolo não ficou esperando a situação melhorar para ele então começar a pregar. Sem rancor, ressentimento ou revanchismo, Paulo viu naquilo tudo um ensejo para falar e não se calar. Observe o que ele escreveu aos filipenses, carta produzida e enviada durante aqueles dois anos preso em Roma (Fl 1.12-14):

12Quero que saibam, irmãos, que tudo que me aconteceu tem ajudado a propagar as boas-novas. 13Pois todos aqui, incluindo toda a guarda do palácio, sabem que estou preso por causa de Cristo. 14E, por causa de minha prisão, a maioria dos irmãos daqui se tornou mais confiante no Senhor e anuncia a mensagem de Deus com determinação e sem temor.

O ensejo da pregação é todo dia, a toda hora, sempre, “quer a ocasião seja favorável, quer não” (2Tm 4.2).

2 O ESCOPO DA PREGAÇÃO

Se é a toda hora que devemos pregar, “quer a ocasião seja favorável, quer não” (2Tm 4.2), a quem, então, pregar? A todos! Ouça as palavras de Lucas mais uma vez (At 28.30-31):

30Durante os dois anos seguintes, Paulo morou em Roma, às próprias custas. A todos que o visitavam ele recebia, 31proclamando corajosamente o reino de Deus e ensinando a respeito do Senhor Jesus Cristo sem restrição alguma.

Era a todos que Paulo pregava. Ele não discriminava, selecionava ou escolhia público-alvo, mas compartilhava Cristo com todos os que cruzavam seu caminho. E quando não cruzavam, Paulo ia até eles. Fato é que o apóstolo sempre criava e cultivava relacionamentos discipuladores (Fl 3.17): “Irmãos, sejam meus imitadores e aprendam com aqueles que seguem nosso exemplo”.

Se tomarmos alguns instantes e olharmos para o ministério do grande apóstolo, veremos claramente que ele foi uma testemunha viva de Jesus para todos os povos, para todo tipo de gente. Compartilhou o evangelho com grandes e pequenos, ricos e pobres, patrões e empregados, cultos e incultos, a prováveis e improváveis, na igreja e no mercado… Seu objetivo era ganhar alguns para Jesus.

Veja o escopo de sua pregação: Atos 9.20 – aos judeus das sinagogas; Atos 9.29 – aos judeus gregos; Atos 13.14-19 – aos judeus e gentios em Antioquia; Atos 16.12-15 – à Lídia em Filipos; Atos 16.23-33 – ao carcereiro de Filipos e sua família; Atos 17.22-34 – aos gregos, em Atenas; Atos 24.22-25 – ao governador Felix; Atos 26.1-32 – ao rei Agripa; Atos 27.22-29 – aos marinheiros e à tripulação em um navio; a soldados e membros do palácio de César (Fl 1.12-13; Fl 4.22). Por fazer do escopo de sua pregação todas as pessoas e em todos os lugares foi que Paulo conseguiu ver pessoas nascerem de novo e se tornarem discípulos fervorosos de Jesus nos lugares mais improváveis. Ouça o que ele escreveu aos filipenses, dando testemunho de alguns convertidos, vejam só!, onde ninguém imaginaria ser possível encontrar um crente (Fl 4.22):

Todo o povo santo daqui lhes envia saudações, especialmente os que pertencem à casa de César [ou os que trabalham ou que moram na casa de César].

Paulo sabia que todas as pessoas que cruzavam seu caminho eram de duas, uma: ou elas eram crentes, salvas em Jesus e poderiam ser encorajadas (Fl 1.14), ou elas eram candidatas em potencial para a salvação (Fl 1.12-13). O apóstolo não discriminava nem selecionava, mas compartilhava com todos o amor maravilhoso de Deus em Jesus Cristo. Foi assim que, numa das prisões, encontrou-se com Onésimo, escravo fugitivo de Filemom, e o ganhou para Cristo (Fm 9-11):

9[…]Eu, Paulo, já velho, e agora também prisioneiro de Cristo Jesus, 10apelo [a você Filemom] em favor de meu filho Onésimo, que gerei enquanto estava preso. 11Ele antes lhe era inútil, mas agora é útil, tanto para você quanto para mim.

Paulo, certamente, tinha um coração para os perdidos. Ouçam:

Rm 9.2-3 | 2Meu coração está cheio de amarga tristeza e angústia sem fim 3por meu povo, meus irmãos judeus. Eu estaria disposto a ser amaldiçoado para sempre, separado de Cristo, se isso pudesse salvá-los. 

Rm 10.1-2 | 1Irmãos, o desejo de meu coração e minha oração a Deus é que o povo de Israel seja salvo. 2Sei da dedicação deles por Deus, mas é entusiasmo sem entendimento. 

Que lição para nós! Jamais devemos nos esquecer de que os campos estão brancos para a ceifa. É só erguermos os olhos para ver (Jo 4.35). O SENHOR deseja que todos sejam salvos (2Pe 3.9; 2Co 5.14; 1Tm 2.4). A porta da salvação está aberta para quem desejar entrar. Devemos, pois, falar e não calar. Nenhum ser humano está fora do alcance do grande amor de Deus pelos pecadores! Todos eles precisam ouvir. Logo, todos vão precisar de alguém para dizer-lhes sobre Jesus (Rm 10.13-17). Você pregará?

3 O ESQUEMA DA PREGAÇÃO

Sabemos que Paulo mesmo fazia o ensejo para pregar e que o escopo da pregação era todo mundo. Agora, de que maneira Paulo pregava? O que ele pregava? Qual era o seu esquema de pregação? Ouçam (At 28.30-31):

30Durante os dois anos seguintes, Paulo morou em Roma, às próprias custas. A todos que o visitavam ele recebia, 31proclamando [kērússōn] corajosamente o reino de Deus e ensinando [didáskōn] a respeito do Senhor Jesus Cristo sem restrição alguma.

Paulo pregava [kērússōn] o reino e ensinava [didáskōn] a respeito do Senhor Jesus Cristo. O que isto significa? Existe alguma diferença entre pregar e ensinar? Em certo sentido, não. Toda grande pregação é a comunicação da verdade dinâmica, e todo bom ensino criativo leva ao forte testemunho e à persuasão. Parece-nos, no entanto, que o motivo pelo qual Lucas usou duas palavras diferentes para descrever o esquema de Paulo era indicar a maneira como ele apresentou o reino e como instruiu as pessoas sobre o ministério contínuo do Senhor ressurreto.

Para Paulo, o reino é uma manifestação da graça. Não pode ser comprado ou conquistado pelo esforço humano. É espiritual. Então, com a pregação (a proclamação, kērússōn), ele declarava a nova era em Cristo, a chegada do reino do Filho amado (Cl 1.13), e chamava as pessoas a se tornarem novas criaturas em Cristo. Pregava o que Cristo havia feito pelas pessoas na vida, morte e ressurreição, e as conclamava ao arrependimento do pecado e à fé na vida e obra de Cristo.

Ato contínuo, o apóstolo ensinava (didáskōn) a implicação para os novos crentes sobre o que Cristo continua fazendo na mente e no coração de uma pessoa agora cidadã do reino. RESUMINDO: ele pregava poderosamente que o tão esperado Messias não era outro senão Jesus Cristo, o Senhor do Reino do Céus, e depois ensinava como a nova vida de andar na Luz deveria ser vivida (confira depois: Ef 4.17-32).

Aprendemos com o esquema da pregação de Paulo que, como pregadores do evangelho, fazedores de discípulos de Jesus, estamos constantemente mudando entre proclamação do que Cristo fez e instrução sobre o que ele faz e fará pela graça, por meio da fé. Portanto, ao pregar, devemos incitar e instruir, excitar e explicar, dramatizar e delinear, declarar e discipular. Esse é o esquema.

4 O ÊXITO DA PREGAÇÃO

Paulo mesmo fazia o ensejo para pregar. O escopo da pregação era todo mundo. O esquema era pregar o reino e ensinar a respeito do Senhor Jesus Cristo. E como ele media o êxito de sua pregação? Ouçam (At 28.30-31):

30Durante os dois anos seguintes, Paulo morou em Roma, às próprias custas. A todos que o visitavam ele recebia, 31proclamando corajosamente o reino de Deus e ensinando a respeito do Senhor Jesus Cristo sem restrição alguma.

O êxito da pregação de Paulo estava em que ele cumpriu a ordem de Jesus: pregar a todos até aos confins da terra (Roma). Ouçam as palavras da Grande Comissão em Marcos (16.15): “Jesus lhes disse: ‘Vão ao mundo inteiro e anunciem as boas-novas a todos’”. Foi exatamente isto o que Paulo fez: ele pregou a todos e aos confins da terra, ao mundo inteiro (Roma e além).

Podemos não ver as pessoas sendo salvas todos os dias nem todos os domingos. Podemos passar meses ou anos e, pessoalmente, não levar uma única alma a Jesus. No entanto, teremos êxito no trabalho se, como Paulo, formos fiéis em testemunhar em cada oportunidade e a todos. Lembre-se de que nem todos os cristãos são ceifeiros e nem sempre colheremos. Alguns são plantadores (algumas vezes plantaremos), alguns são enviados para regar (algumas vezes reforçaremos), mas todos nós somos essenciais para o trabalho de ganhar almas. Em última análise, é Deus quem decide quem ceifará. Nosso dever é sermos fieis e compartilhar (semear e regar) a todo tempo:

1Co 3.6-8 | 6Eu plantei e Apolo regou, mas quem fez crescer foi Deus. 7Não importa quem planta ou quem rega, mas sim Deus, que faz crescer. 8Quem planta e quem rega trabalham para o mesmo fim, e ambos serão recompensados por seu árduo trabalho.

O êxito de nossa pregação está em plantarmos e regarmos na esperança de que Deus mesmo dê o crescimento. Sejamos, pois, fieis e preguemos a todos em todos os lugares, “quer a ocasião seja favorável, quer não” (2Tm 4.2).

5 O ESMERO EM PREGAR

Paulo fazia o ensejo para pregar. O escopo da pregação era todo mundo. O esquema era pregar o reino e ensinar a respeito do Senhor Jesus Cristo. E o êxito de sua pregação consistia em ser fiel. Agora, por fim, o esmero em pregar. Ouçam (At 28.30-31):

30Durante os dois anos seguintes, Paulo morou em Roma, às próprias custas. A todos que o visitavam ele recebia, 31proclamando corajosamente o reino de Deus e ensinando a respeito do Senhor Jesus Cristo sem restrição alguma.

Paulo pagou para pregar! É mole? Pois é, foi “às próprias custas” que ele, “durante os dois anos seguintes, […] morou em Roma [e] a todos que o visitavam ele recebia, proclamando corajosamente o reino de Deus e ensinando a respeito do Senhor Jesus Cristo sem restrição alguma”.

Isso sim é esmero em pregar! Além de se preparar muito, Paulo mesmo se pagava.

Tanto esmero só era possível por causa de seu contentamento em Deus. Contentamento que ensinou o apóstolo a abrir mão das coisas desta vida. Lembre-se, a casa não era dele, era alugada! Paulo era um homem contente (Fl 4.10-14):

10Como eu me alegro no Senhor por vocês terem voltado a se preocupar comigo! Sei que sempre se preocuparam comigo, mas não tinham oportunidade de me ajudar. 11Não digo isso por estar necessitado, pois aprendi a ficar satisfeito com o que tenho. 12Sei viver na necessidade e também na fartura. Aprendi o segredo de viver em qualquer situação, de estômago cheio ou vazio, com pouco ou muito. 13Posso todas as coisas por meio de Cristo, que me dá forças. 14Mesmo assim, vocês fizeram bem em me ajudar na dificuldade pela qual estou ­passando [ele tinha que pagar o aluguel e comprar comida!].

Precisamos estar contentes em Cristo e determinados a ponto de abrir mão de tudo com esmero e assim pregar a todos e em todos os lugares. Sem medo do que venha pela frente. Sem medo de perder alguma coisa. Sem medo de sofrer as consequências. Nosso esmero sempre implicará em algum sofrimento necessário para a validação do evangelho em nossa vida (Cl 1.24-25):

24Alegro-me quando sofro por vocês em meu corpo, pois participo dos sofrimentos de Cristo, que continuam em favor de seu corpo, a igreja. 25Deus me deu a responsabilidade de servir seu povo, anunciando-lhes sua mensagem completa.

“Sofrimentos de Cristo, que continuam em favor de seu corpo, a igreja” é o sofrimento de todos que (como Paulo) experimentarão grande aflição por causa do evangelho, e que se mostrarão contestes em Cristo a ponto de sofrer para que outros sejam salvos pelo testemunho de sua vida e voz.

As marcas do sofrimento no corpo (2Co 11.23-27), Paulo não atribuía aos carrascos, mas a Cristo. Elas autenticavam seu ministério (Gl 6.17, NVI): “Sem mais, que ninguém me perturbe, pois trago em meu corpo as marcas de Jesus”.

Anunciar a mensagem do reino de Deus requer de nós esmero: contentamento em meio ao sofrimento, preço de compromisso e dedicação para pregar e ensinar a mensagem do reino centrada em Jesus Cristo, o Senhor, a todos e em qualquer momento e lugar.

INTRÉPIDO E SEM IMPEDIMENTO

Paulo cruzou a linha de chegada! Chegou a Roma, aos confins da terra, pregou e ensinou corajosamente, intrepidamente e sem impedimento a todos que podia sobre o reino da cruz de Jesus Cristo.

Ah! Por mais homens e mulheres assim entre nós! Gente intrépida e que prega e discipula sem impedimento algum. Gente assim, no entanto, é fruto de muita oração:

Atos 4.29-31 | 29E agora, Senhor, ouve as ameaças deles e concede a teus servos coragem [parrēsía, mesma de At 28.31] para anunciar tua palavra. 30Estende tua mão com poder para curar, e que sinais e maravilhas sejam realizados por meio do nome de teu santo Servo Jesus”. 31Depois dessa oração, o lugar onde estavam reunidos tremeu, e todos ficaram cheios do Espírito Santo e pregavam corajosamente [parrēsía, mesma de At 28.31] a palavra de Deus.

Paulo tanto sabia que intrepidez para pregar e fruto, não da força de vontade, mas do poder do Espírito Santo, que pediu que assim orassem por ele os efésios (Ef 6.19-20):

19E orem também por mim. Peçam que Deus me conceda as palavras certas, para que eu possa explicar corajosamente o segredo revelado pelas boas-novas. 20Agora estou preso em correntes [em Roma, At 28.16-31], mas continuo a anunciar essa mensagem como embaixador de Deus. Portanto, orem para que eu siga falando corajosamente [de parrēsía, mesma de At 28.31] em nome dele, como é meu dever.

E assim aconteceu (At 28.30-31):

30Durante os dois anos seguintes, Paulo morou em Roma, às próprias custas. A todos que o visitavam ele recebia, 31proclamando corajosamente [parrēsía, mesma de At 4.29,31 e Ef 6.20] o reino de Deus e ensinando a respeito do Senhor Jesus Cristo sem restrição alguma.

Para sermos intrépidos e pregarmos sem impedimento, precisaremos ser um povo de oração: ore por você, ore por mim, ore por nós — peça “que Deus [nos] conceda as palavras certas, para que [possamos] explicar corajosamente o segredo revelado pelas boas-novas” (Ef 6.19). Ore. Ore mais. Venha orar nos cultos de oração. 

Queremos ser intrépidos para pregar e pregar sem impedimento.

Pregar o quê? O evangelho: Deus, homem, Cristo, arrependimento e fé.

S.D.G. L.B.Peixoto

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