FIRME E FORTE ATÉ O FIM

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FIRME E FORTE ATÉ O FIM

2TIMÓTEO 4.9-22

9Por favor, venha assim que puder. 10Demas me abandonou, pois ama as coisas desta vida e foi para Tessalônica. Crescente foi embora para a Galácia, e Tito, para a Dalmácia. 11Apenas Lucas está comigo. Traga Marcos com você, pois ele me será útil no ministério. 12Enviei Tíquico a Éfeso. 13Quando vier, não se esqueça de trazer a capa que deixei com Carpo, em Trôade. Traga também meus livros e especialmente meus pergaminhos. 14Alexandre, o artífice que trabalha com cobre, me prejudicou muito, mas o Senhor o julgará pelo que ele fez. 15Tome cuidado com ele, porque se opôs fortemente a tudo que dissemos. 16Na primeira vez que fui levado perante o juiz, ninguém me acompanhou. Todos me abandonaram. Que isso não seja cobrado deles. 17Mas o Senhor permaneceu ao meu lado e me deu forças para que eu pudesse anunciar as boas-novas plenamente, a fim de que todos os gentios as ouvissem. E ele me livrou da boca do leão. 18Sim, o Senhor me livrará de todo ataque maligno e me levará em segurança para seu reino celestial. A Deus seja a glória para todo o sempre! Amém. 19Envie minhas saudações a Priscila e a Áquila e à família de Onesíforo. 20Erasto ficou em Corinto, e deixei Trófimo doente em Mileto. 21Faça todo o possível para estar aqui antes do inverno. Êubulo lhe manda lembranças, e também Prudente, Lino, Cláudia e todos os irmãos. 22Que o Senhor esteja com seu espírito. E que a graça esteja com todos vocês.

O FIM DAS COISAS É MELHOR

Quando a gente está engatinhando na vida ou começando a vida, geralmente não pensamos assim, mas Salomão está coberto de razão ao dizer (Ec 7.8, NAA): “Melhor é o fim das coisas do que o seu princípio; a paciência é melhor do que a arrogância”.

Quem, de fato, acredita nisto? Poucos! Só quem já viveu o bastante sabe que isto é verdade: melhor é o fim das coisas do que o seu princípio, e para se chegar até o fim das coisas é preciso, é indispensável a humildade da paciência.

O início das coisas é muito bom, mas o fim delas é ainda melhor, posto que traz consigo os frutos de uma longa e dedicada caminhada. Persevere com fé para ver.

O FIM DE PAULO

Paulo é do tipo que provou do fim das coisas. Aliás, o texto com o recorte da vida dele que nós lemos a pouco e que temos para hoje narra-nos os momentos finais do apóstolo, à medida que o fim se aproximava. Ele estava preso pela segunda vez em Roma. Dessa vez ele sairia de lá apenas para ser executado.

Ouça o relato que um dos melhor biógrafos da vida de Paulo, John Pollock, registou (livro: O Apóstolo, editora Vida):

Nada se sabe do julgamento de Paulo além da tradição que diz que foi condenado por resolução do senado sob a acusação de traição contra o divino imperador. Quanto tempo Simão Pedro e Paulo passaram juntos na prisão antes de serem executados no mesmo dia, como assevera uma crença primitiva, não podemos determinar: possivelmente uns nove meses. A data do seu martírio, honrada na cidade, é 29 de junho de 67. Pedro foi pregado na cruz, em espetáculo público no circo de Nero no Vaticano, de cabeça para baixo de acordo com seu próprio pedido, e Paulo, como cidadão romano, foi decapitado num local menos público.

A antiga tradição do local da execução de Paulo é quase certamente autêntica, mas não se podem determinar os detalhes. Ao passo que podemos seguir passo a passo a Via Dolorosa de Cristo, a de Paulo permanece obscura. Ele teria preferido que assim fosse. E, uma vez que Cristo já tinha palmilhado essa estrada, a caminhada de Paulo não foi uma Via Dolorosa, porque a percorreram juntos: “Graças, porém, a Deus que em Cristo sempre nos conduz em triunfo, e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento.”     “Porquanto, para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro.”

Fizeram-no marchar para fora dos muros, passar a pirâmide de Céstio, que ainda permanece de pé, e prosseguir para a Via Óstia em direção do mar. As multidões a caminho de Óstia reconheceriam um destacamento de execução pelos lictores [guarda que, na antiga Roma, precedia as figuras da suprema magistratura, trazendo uma machadinha junto a um feixe de varas, com o qual ia abrindo caminho em meio ao povo] com suas fasces de varas e machado [na antiga Roma, fasces é conjunto formado por feixe de varas em torno de um machado], pelo carrasco carregando uma espada — que no reinado de Nero havia substituído o machado — pela escolta e pelo criminoso algemado, andando todo duro e de pernas tortas, com roupas rasgadas e imundas da prisão, mas não envergonhado nem degradado. Ele ia para uma festa, para um triunfo, para o dia da coroação em direção do qual havia lutado. Aquele que muitas vezes falara da promessa divina da vida eterna em Jesus não podia temer; ele cria, como falara: todas as promessas de Deus encontram nele o seu cumprimento. Carrasco algum iria tirar-lhe a consciência da presença de Jesus; ele não mudava de companhia, apenas de lugar do seu desfrute. Melhor ainda, ele veria a Jesus. Aqueles vislumbres — na estrada de Damasco, em Jerusalém, em Corinto, naquele navio que afundou — agora ele ia vê-lo face a face, conhecer assim como era conhecido. 

Marcharam a Paulo até o terceiro marco na Via Óstia, a uma pequena clareira, provavelmente um lugar de túmulos, conhecido então como Aquae Silviae ou Águas de Cura, e agora como Tre Fontane, onde se ergue uma abadia em sua honra. Crê-se que ele tenha passado a noite numa pequena cela, pois este era um lugar comum de execução. Se Lucas tivesse a permissão de permanecer ao lado da janela, se Timóteo ou Marcos tivessem chegado a Roma a tempo, os sons da vigília da noite não seriam de choro, mas de cântico: “entristecidos, mas sempre alegres; como se estivéssemos morrendo e contudo eis que vivemos”.

À primeira luz do dia os soldados conduziram Paulo ao pilar. O carrasco, totalmente nu, estava pronto. Os soldados despiram as roupas do apóstolo até a cintura e amarraram-no, ajoelhado, ao pilar que lhe deixava livre o pescoço. Dizem alguns relatos que os lictores deram nele com as varas, sendo a surra o prelúdio costumeiro à decapitação, mas nos anos recentes nem sempre infligida. Ainda que tenham administrado esta última e insana dose de dor a um corpo que logo morreria, “Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação… ou espada?”

“Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente — o relampejar da espada — não são para comparar com a glória.”

Paulo perseverou até o fim. Ele viveu com fé e esperança para provar que o fim das coisas é sim melhor que seus começos. O apóstolo, nós já estudamos, cultivava um espírito indomável (confira a série de mensagens: Recortes na vida de Paulo no nosso site na internet ou no canal no YouTube) — nada nem ninguém o detiam; ele era um náufrago salva-vidas; um portador de esperanças; alguém que só perseverou para ver que o fim das coisas é sempre melhor do que os seus começos porque constantemente recobrava sua esperança em Cristo, fazia de Cristo sua fonte de encorajamento.

O PONTO FUNDAMENTAL: ENCORAJAMENTO

As palavras finais de Paulo na carta a Timóteo (2Tm 4.9-22) são bem picadas. O apóstolo pula de nome em nome. Descreve sabores e dissabores. Um texto, portanto, difícil de ser estruturado para um tipo didático de ensino: “fulano fez isto, sicrano fez aquilo e beltrano aquilo outro; você faça assim; eu fiz assado…” e por aí corre o texto.

Apesar de ser um texto todo em pedaços, uma bela colcha de retalhos com estampas coloridas de dores e delícias, a narrativa de Paulo permite-nos concluir o seguinte: o impacto geral que o apóstolo desejava que esses versículos finais tivessem sobre Timóteo era no sentido de encorajamento — em outras palavras, por mais difícil que seja o ministério (i.e., a vida de um fazedor de discípulos), o Senhor Jesus é totalmente confiável e suficiente para nós; os versículos 17-18 são obviamente os mais profundos e mais permeados de esperança nesta passagem (2Tm 4.17-18):

17Mas o Senhor permaneceu ao meu lado e me deu forças para que eu pudesse anunciar as boas-novas plenamente, a fim de que todos os gentios as ouvissem. E ele me livrou da boca do leão [satanás desejoso de comer a fé de Paulo, 1Pe 5.6-11]. 18Sim, o Senhor me livrará de todo ataque maligno e me levará em segurança para seu reino celestial.

Agora, para que se sinta toda a força dessas belas palavras (vs. 17-19), precisamos colocar em tela alguns dos tipos deprimentes de acontecimentos que foram pintados pelo próprio Paulo em torno dessas palavras de fé e de esperança. Ficaremos face a face com as dificuldades e tristezas, a beleza e a esperança de partir o coração contidas nesta passagem. Veremos algumastristezas e no final faremos algumas aplicações.

1 AS DIFICULDADES DO RELACIONAMENTO CRISTÃO

Duas coisas principais seguram alguém na igreja: pregação e pessoas. A boa pregação — a pregação bíblica e saudável — e o bom e saudável relacionamento com as pessoas alcançam e alicerçam pessoas na comunhão de uma igreja. Não é verdade?

Uma igreja que só tenha uma boa pregação, mas não cultiva relacionamentos interpessoais saudáveis, edificantes e encorajadores, dificilmente manterá seus membros. E se ficarem os membros, eles não crescerão em saúde nem reproduzirão discípulos, pois a vida cristã é projetada por Deus para ser vivida em relacionamentos de mutualidade com pessoas — por meio de exortação, encorajamento, edificação, discipulado, etc. Vida na vida em aplicação presencial e pessoal do que se destila do púlpito.

O inverso também é verdadeiro. Uma igreja que só cultiva bons relacionamentos, mas não tem um púlpito bíblico e cristocêntrico, até poderá manter alguma membresia, mas dificilmente produzirá crescimento e transformação na vida das pessoas. Afinal, os membros não receberão o alimento para se nutrirem e poderem, então, reproduzir.

A igreja, portanto, precisa de Palavra e de pessoas. Sejamos assim!

Prezemos pelo púlpito bíblico, focado em Cristo. E cultivemos relacionamentos discipuladores: façamos discípulos, apliquemos vida na vida com o evangelho praticado diante dos olhos do outro e aplicado ao coração do outro.

Sejamos um povo da Palavra e que se importa com pessoas (a começar com os nossos visitantes e passando pelo nosso dia a dia). Agora…

Uma igreja assim — relacional, vida na vida; uma igreja transbordante da Palavra de Cristo através da vida e da voz na vida de outras pessoas — logo descobrirá as dificuldades do relacionamento cristão. Conviver como deve ser não é para os fracos!

Paulo, aqui no nosso texto, escreve de um jeito que fica claro para o leitor que ele desejava que Timóteo enxergasse o quanto é difícil (mas vale a pena!) viver os laços do relacionamento cristão. O apóstolo pinta três dificuldades que visam demonstrar quão difícil é e será o ministério relacional, o ministério cristão, o cristianismo vida na vida.

Agora, por favor, não pense que o ministério cristão é apenas para pastores, missionários, educadores e líderes de pequenos grupos ou de alguma coisa na igreja. Não é verdade! O ministério cristão é para mim e para você. Somos todos chamados para viver para o bem e a salvação e a santificação e a edificação do outro em relacionamentos que sejam sempre, de alguma forma, discipuladores. Esse ministério, o ministério cristão relacional, é muito difícil (mas vale a pena!).

Vejam alguns exemplos de dificuldades enfrentadas por Paulo.

Verso 10: “Demas me abandonou, pois ama as coisas desta vida e foi para Tessalônica.” Demas parece ter sido um parceiro fiel. Veja Colossenses 4.14: “Lucas, o médico amado, e também Demas mandam saudações.” Só que agora, Demas abandonou Paulo! Ser traído ou abandonado ou preterido é extremamente difícil na caminhada cristã.

Também é difícil quando ficamos sozinhos no ministério. Versículos 10-11: “Crescente foi embora para a Galácia, e Tito, para a Dalmácia. Apenas Lucas está comigo”. Era uma vez quando Paulo estava acompanhado de um time assim, mas agora é só ele e Lucas!

Verso 14: “Alexandre, o artífice que trabalha com cobre, me prejudicou muito”. Verso 15: “Tome cuidado com ele, porque se opôs fortemente a tudo que dissemos.” Meu povo, o ministério cristão relacional é difícil, não apenas por causa da solidão e do abandono e do desprezo dos que são de dentro, mas também por causa da oposição pessoal e hostil dos que estão de fora. Todo silêncio prolongado de um amigo e todo golpe verbal de um inimigo (ou amigo da onça) fere o coração da gente. O ministério ou o relacionamento cristão é difícil.

O versículo 16 é talvez a frase mais triste de toda a carta: “Na primeira vez que fui levado perante o juiz, ninguém me acompanhou. Todos me abandonaram.” Sinta a força dessas palavras e o quão difícil o relacionamento cristão pode se tornar: no momento de maior necessidade, os irmãos não apareceram para ajudar, todos o abandonaram. Fica a pergunta: onde estiveram Êubulo, Prudente, Lino, Cláudia e todos os irmãos que no verso 21 mandaram saudações via Paulo a Timóteo? E Lucas, onde estava Lucas? Estranho! Voltaremos aqui logo adiante. Por ora, fique com a tristeza expressa nesta frase: Sem ninguém! Todos me abandonaram!

Versículos 20-21a: “Erasto ficou em Corinto, e deixei Trófimo doente em Mileto. Faça todo o possível para estar aqui antes do inverno.” Ou seja: (1.) por vezes, ações estratégicas levam nossos amigos para longe de nós (v. 20: Erasto ficou em Corinto; v. 10: Crescente foi embora para a Galácia, e Tito, para a Dalmácia); (2.) outras vezes, a doença interrompe uma parceria (Trófimo ficou doente em Mileto); (3.) constantemente, as mudanças sazonais tornam a solidão ainda mais difícil (Faça todo o possível para estar aqui antes do inverno).

Paulo menciona todos esses exemplos porque quer que Timóteo saiba o quão difícil é o ministério, o relacionamento cristão, ao mesmo tempo que é fundamental e vale sim a pena. Paulo não quer que Timóteo deixe de ser um homem da Palavra e de pessoas.

2 AS DECEPÇÕES DO RELACIONAMENTO CRISTÃO

Verso 10: “Demas me abandonou, pois ama as coisas desta vida e foi para Tessalônica.” Não sabemos se um dia Demas se arrependeu e voltou. Não há evidências de arrependimento e de restauração em lugar nenhum das Escrituras. Casos assim nos decepcionam profundamente, não é verdade? Gente próxima e que serviu ao nosso lado de repente morre de amor pelo mundo e larga tudo e vai embora. Isso decepciona muito a gente!

Paulo quer que Timóteo sinta essa decepção não apenas como uma preparação ou prevenção para tristezas futuras no ministério, mas também como uma advertência para que ele mesmo, Timóteo, não siga o mesmo caminho de Demas.

O apóstolo diz com todas as letras a Timóteo o porquê de Demas ter deixado o ministério: “Demas, amando as coisas desta vida [amando o mundo], me abandonou.”

Há um tipo de amor por este mundo que torna impossível o ministério ou o relacionamento cristão. Há um tipo de amor por este mundo que faz o cristão (o pastor, o líder) abandonar o ministério ou o faz transformá-lo em uma forma mundana o bastante para se sentir em casa no ministério ou na igreja. Conhece “crente” assim? Conhece “pastor” assim? Conhece “igreja” assim? Conhece “líder” assim? Gente que ou abandona tudo pelo mundo ou que transforma tudo à cara do mundo para poder ficar confortável.

Sob a liderança de Paulo, Demas não tinha como tornar o ministério mundano (Paulo não deixaria!), então ele foi embora, abandonou o apóstolo e foi para Tessalônica. Todos nós precisamos parar e refletir neste ponto.

Há um tipo de amor pelo mundo — pela presente era, pelos frutos ou produtos da cultura — que ignora a Deus, nega a Deus, degrada a Deus e distorce a Cristo e a cruz de Cristo; um tipo de amor pelo mundo que exclui por completo o tipo de amor real e profundo que devemos nutrir por Jesus Cristo, pela Palavra e pelo próximo.

Há um tipo de amor por este mundo que é totalmente irreconciliável com o ministério de expor o pecado do mundo, testemunhar ao mundo da cruz, resgatar o mundo do pecado e da condenação e, se possível, transformar o mundo para a glória de Deus, em nome de Cristo e pelo poder do Espírito Santo.

Lembre-se sempre: mais pessoas abandonam Cristo, abandonam a igreja, abandonam o ministério e abandonam a esperança do céu por causa do amor por este mundo do que qualquer outra coisa na vida.

Alguém poderá se pergunta: o que havia em Tessalônica? “Demas me abandonou, pois ama as coisas desta vida e foi para Tessalônica.” Era uma mulher? Era um homem? Saudade de casa — talvez ele fosse de lá ou tenha crescido lá? Foi uma oferta comercial? Era dinheiro? Sentia-se mais confortável e seguro longe desse apóstolo totalmente comprometido com Cristo? O que sabemos é: Demas não saiu para seguir Jesus Cristo. Ele abandonou Jesus para abraçar os prazeres do mundo. Isso acontece com alguns dos nossos irmãos e parceiros mais queridos no ministério. E alguns deles nunca mais voltam. Decepcionante!

3 AS DORES DO RELACIONAMENTO CRISTÃO

Há duas coisas no versículo 11 que revelam as dores do relacionamento cristão: “Apenas Lucas está comigo. Traga Marcos com você, pois ele me será útil no ministério.”

Primeiro, considere Marcos, João Marcos: “Traga Marcos com você, pois ele me será útil no ministério.” Marcos havia abandonado Paulo e Barnabé na primeira viagem missionária (At 13.13). Foi por isso que Paulo se recusou a levar João Marcos com eles na segunda viagem missionária. Paulo e Barnabé chegaram a brigar por causa de João Marcos e se separaram (At 15.37-41). Mas agora, aqui no final da vida, Paulo diz: “Traga Marcos com você, pois ele me será útil no ministério.” A LIÇÃO: bons amigos no ministério ou na caminhada cristã poderão nos causar dores, mas poderão também continuar sendo bons amigos — algum dia.

Segundo, considere Lucas:  “Apenas Lucas está comigo”. Lucas esteve ao lado de Paulo, ao que parece, desde Trôade, na segunda viagem missionária (observe no texto de Atos a mudança do pronome “eles” em Atos 16.8 para “nós” em Atos 16.11). Lucas sempre foi seu amigo (“amado”, Cl 4.14), seu médico pessoal (Cl 4.14) e seu biógrafo (escrevendo Atos). E aqui em 2Timóteo 4.11 ele está posto como o amigo mais próximo de Paulo.

Mas então veja 2Timóteo 4.16, que diz: “Na primeira vez que fui levado perante o juiz, ninguém me acompanhou. Todos me abandonaram. Que isso não seja cobrado deles.” Todos? Ninguém? Lucas também? Parece que sim! Tenhamos, no entanto, muito cuidado aqui. Talvez Lucas estivesse em alguma viagem importante ou tivesse estado muito doente.

E quanto aos irmãos e irmãs no versículo 21b? “Êubulo lhe manda lembranças, e também Prudente, Lino, Cláudia e todos os irmãos.” Veja que aqui estão pessoas que Paulo considera fiéis o suficiente para enviar cumprimentos como amigos cristãos a Timóteo; mas nenhum deles apareceu para ficar com Paulo no tribunal! Eles o abandonaram.

Qual foi a resposta de Paulo? Versículo 16:Que isso não seja cobrado deles”! Paulo nunca jogou isso na cara deles. Ao contrário, o apóstolo envia as saudações deles a Timóteo em sua própria carta. Ele não disse, resmungando com amargura: “Escrevam vocês sua própria carta!” Na vida cristã, na caminhada cristã, no relacionamento cristão, pessoas crentes, sérias e queridas vão causar em nós dor quando não aparecerem nos momentos que mais precisarmos. No entanto, não sejamos rápidos para julgar e condenar.

Com base no que Paulo faz aqui e no que Cristo fez por nós na cruz — mesmo por Pedro que o negou e pelos onze todos que o abandonaram — exorto a você, não seja tão simplista e não seja implacável. É simplista dizer: “Se eles fossem cristãos de verdade teriam ficado do meu lado!”; “Se eles me amassem de fato não teriam feito isto comigo!”. Almas humanas, e as circunstâncias humanas não são tão simples assim. É possível amar alguém profundamente e ferir a pessoa amada. É o pecado em nós. Portanto, não seja simplista.

E não seja implacável. Diga a si mesmo e a Deus repetidamente sobre os crentes que já o machucaram: “Que isso não seja cobrado deles!” Bons amigos e irmãos amados podem nos fazer sofrer e ainda ser bons amigos. Lucas, Êubulo, Prudente, Lino, Claudia e todos os irmãos, por alguma razão, não apareceram no julgamento de Paulo. Mas Paulo os perdoou e enviou através de sua carta as saudações deles a Timóteo.

FIRME E FORTE ATÉ O FIM

Paulo permaneceu firme e forte até o fim. Não foram as dificuldades, decepções e dores do relacionamento cristão que o fizeram desistir de Cristo ou das pessoas.

Como tudo isso foi possível?

Muito nós já falamos ao longo desta série de recortes, mas nestas palavras finais do apóstolo o que podemos destacar, mesmo que repetindo algumas coisas já ditas anteriormente, tornam para nós ainda mais belo o quadro todo da vida deste homem. Como foi possível para Paulo permanecer firme e forte até o fim? O que isto nos ensina?

1 Não descarte a presença fortalecedora de cristãos ao seu lado

Jesus nunca pretendeu que o desfrute de sua presença substituísse a presença de amigos cristãos na nossa vida. Ou, dito de outra maneira, quando Cristo morreu para que você pudesse apreciá-lo suprema e eternamente, ele não anulou a comunhão dos crentes — ele a criou. Cristo sempre pretendeu que sua amizade com ele ditasse o ritmo do batimento cardíaco de sua amizade com os outros (derramando-se no outro). “A presença de Cristo deve ser a alegria central da amizade cristã. E a alegria da amizade centralizada em Cristo deverá aumentar o valor de Cristo como o tesouro comum dos cristãos.” (John Piper).

Onde nós podemos ver isto neste texto? Veja o versículo 17. Mesmo que todos os outros amigos não tivessem aparecido no seu julgamento, Paulo tinha a certeza de que o Senhor ficou ao lado dele e o fortaleceu. Agora, se isso é tudo o que precisamos ter, poderíamos então dizer: “Veja, quando você tem Jesus, você tem alguém que nunca falha com você e, portanto, você não precisa daqueles amigos falíveis, finitos e fracassados.”

Não é nem de perto isto o que Paulo diz! O que Paulo diz? Verso 9: “Por favor, venha assim que puder.” Verso 21: “Faça todo o possível para estar aqui antes do inverno.” Ou seja: Paulo quer a todo custo a presença de Timóteo. Ele anseia por isto, quer o amigo! E isso aqui não é a exceção para Paulo. Ele costumava falar assim em quase todas as suas cartas (veja: Rm 1.11; 15.23; Fl 4.1; 1Ts 2.8; etc.).

Paulo sempre acalentou essa amizade humana imperfeita. Ele sabia que Jesus nunca pretendeu que o gozo de sua presença substituísse o gozo da presença de outros cristãos. Cristo não morreu para criar indivíduos isolados que adoram cada um no seu cantinho e do seu jeitinho. Ele morreu para criar amizades que exaltam a Cristo. Ou seja, ele morreu e ressuscitou para criar a igreja. Você precisa de mim. Eu preciso de você. Nós precisamos uns dos outros para nos animar a perseverar. Portanto, não descarte a presença fortalecedora de cristãos ao seu lado.

2 Não deixe esfriar ou apagar a chama viva da comunhão com Cristo

Eis, mais uma vez, o coração desse nosso texto:

17Mas [quando todos me abandonaram] o Senhor permaneceu ao meu lado e me deu forças para que eu pudesse anunciar as boas-novas plenamente, a fim de que todos os gentios as ouvissem. E ele me livrou da boca do leão. 18Sim, o Senhor me livrará de todo ataque maligno e me levará em segurança para seu reino celestial.

Por mais que você ame seus amigos terrenos (e sua família e seus irmão e irmãs da igreja), e assim tem que ser, eles não conseguirão permanecer o tempo todo do seu lado para lhe fortalecer. Eles não poderão fazer cumprir o verso 17 em sua vida, nem tampouco o versículo 18. Ninguém, jamais, “o livrará de todo ataque maligno e [o] levará em segurança para seu reino celestial”. Há apenas um amigo que pode fazer isto: Cristo.

Pode ser que Paulo, de alguma forma (positiva ou negativamente), tenha contribuído para Demas abandoná-lo, amar o mundo e partir para a Tessalônica (v. 1). Demas, no entanto, nunca percebeu o quanto o amor pelas coisas desta vida lhe custaria um preço impagável. Tiago, o irmão de Jesus, disse assim (Tg 4.4): “Adúlteros! Não percebem que a amizade com o mundo os torna inimigos de Deus? Repito: se desejam ser amigos do mundo, tornam-se inimigos de Deus.” Pobre Demas! Somente Jesus poderia “livrá-lo de todo ataque maligno e levá-lo em segurança para seu reino celestial”. Sem Cristo, ninguém irá para o céu. Que insanidade é esta, abandoná-lo pelo mundo?!

Portanto, suplique que seu Timóteo chegue antes do inverno. Procure amizade cristã. Mas quando seus amigos de fé ou discipuladores falharem ou os pastores — quando não comparecem ao seu julgamento, no leito do hospital ou na sua maior crise — não transforme o fracasso deles em uma rejeição suicida, abandonando o único amigo (Cristo) que está sempre lá em toda e qualquer circunstância e o levará finalmente para a eternidade no céu para desfrutar de amizades com ele mesmo e com os seres humanos mais maravilhosos e aperfeiçoados que você jamais poderia neste mundo conhecer.

Paulo nunca deixou nada nem ninguém esfriar ou apagar a chama viva da comunhão com Cristo. Você também não poderá. Fique firme e forte até o fim!

3 Não despreze a importância de cultivar a saúde física, mental e espiritual, e de também cultivar a modéstia e a simplicidade

Impressionante que Paulo — mesmo com a sentença de morte decretada e sabendo que era questão de pouco tempo para morrer — peça o que pediu a Timóteo (2Tm 4.13):

Quando vier, não se esqueça de trazer a capa que deixei com Carpo, em Trôade. Traga também meus livros e especialmente meus pergaminhos. 

Paulo quer capa para esquentar o corpo, quer livros para estimular a mente e a Bíblia para encandecer o coração.

As experiências de arrebatamento ao terceiro céu (2Co 12), o fato de Cristo e anjos terem aparecido a ele face a face para falar com ele e encorajá-lo, ter sido inspirado pelo Espírito Santo para escrever partes do Novo Testamento… nada de tão espetacular que tinha acontecido com Paulo o fizeram desprezar a importância de ler, memorizar, meditar e orar as Escrituras.

E ele queria estar bem aquecidinho, vestido de capa, para devotar toda a atenção aos estudos! Afinal, mesmo diante da morte, seu objetivo, nas palavras de Pedro, era crescer “na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 3.18).

Fato ainda impressionante neste versículo é que Paulo pede para Timóteo trazer a capa dele lá de Trôade! Por quê? Paulo não tinha dinheiro para comprar outra capa? Não havia ninguém que pudesse lhe dar uma capa? Em Roma não tinha capa? Cláudia não poderia lhe costurar uma capa? Ao que parece, isto era fruto de modéstia e simplicidade.

Paulo lidou com muito dinheiro ao longo de seu ministério. Mas ele manteve muito pouco, quase nada para si mesmo. Há uma advertência aqui: se Deus lhe deu a capacidade de ganhar dinheiro, cuidado com como você gasta e com o quanto você guarda. Não acumule tesouros na terra. Invista na missão de fazer avançar o Reino de Cristo. Ele, e não o seu dinheiro, o levará em segurança ao seu reino celestial.

Uma história final: William Tyndale, um ano antes de ser estrangulado e queimado na fogueira em 1536 por traduzir a Bíblia para o idioma inglês, escreveu de sua prisão, ao norte de Bruxelas (Bélgica), em tons parecidos com os de Paulo:

Eu imploro a vossa senhoria… que, se eu permanecer aqui durante o inverno, solicite ao comissário a gentileza de me enviar, de meus bens que ele possui… um casaco mais quente, pois o que tenho é muito fino; um pedaço de pano para remendar as pernas da calça… Mas, acima de tudo, imploro e suplico que sua clemência seja urgente com o comissário, para que ele me permita ter a Bíblia hebraica, a gramática hebraica e o dicionário hebraico, para que eu possa passar o tempo estudando.

Pelo que você implorará no final de sua vida? Terá que ser por Cristo; ou algo ou alguém que lhe proporcione mais de Cristo.

FIRME E FORTE ATÉ O FIM

Meu desejo e que você fique firme e forte até o fim!

Somente Cristo, o Senhor, poderá livrará-lo de todo ataque maligno e levá-lo em segurança para seu reino celestial (2Tm 4.17). Agarre-se com fé a Cristo.

Abrace também amigos de fé, gente que te leve para mais perto de Cristo.

Aqueça sua mente e coração com a palavra de Cristo.

E nunca se esqueça — enquanto Cristo te livra de todo mal e te leva em segurança ao lar celestial, com fé e esperança, com o auxílio dos irmãos. — o que Cristo quer de você é que você faça discípulos. Ouça o apóstolo (2Tm 4.17-18):

17Mas o Senhor permaneceu ao meu lado e me deu forças para que eu pudesse anunciar as boas-novas plenamente, a fim de que todos os gentios as ouvissem. E ele me livrou da boca do leão. 18Sim, o Senhor me livrará de todo ataque maligno e me levará em segurança para seu reino celestial. A Deus seja a glória para todo o sempre! Amém.

Para ficar firme e forte até o fim você precisará de Cristo, de (1.) irmãos em Cristo, de (2.) um coração e uma mente saudáveis e sustentados em Cristo, e de (3.) um senso de missão que lhe diga: minha vida é para a glória de Deus na multiplicação de discípulos de Cristo, pelo poder do Espírito Santo.

S.D.G. L.B.Peixoto

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